Comentário, Estados Unidos, Ficção

William Kennedy permite a redenção em “Ironweed”

Gosto muito da obra de Hector Babenco. “Pixote”, na minha opinião, é um dos melhores filmes já feitos no Brasil. Entre alguns baixos (“Carandiru”, com uma direção de atores titubeante) e outros altos (“Lúcio Flávio”), há um pelo qual tenho imensa atração: “Ironweed”.

IronweedA história é baseada no livro de William Kennedy, parte do ciclo de Albany do escritor norte-americano. Terminei de ler “Ironweed”, depois de uma tentativa fracassada de conhecer a série de Kennedy.

Tempos atrás, comecei a ler o primeiro livro do ciclo de Albany, composto por sete títulos, lançado pela Cosac Naify: “O Grande Jogo de Billy Phelan”. Mas por algum motivo sua prova não me apeteceu.

Recentemente, entusiasmado pela leitura do livro “Colares de Xangô e Sapotes Bicolores” (Biblioteca Azul), dei uma nova chance a Kennedy.

O entusiasmo por essa leitura me fez retomar a vontade de ir a Albany novamente, mas desta vez fui pelo caminho que mais queria seguir desde o início: por “Ironweed”, por conta do filme de Babenco e as interpretações memoráveis de Jack Nicholson e Meryl Streep.

Ao final, a redenção diante de um livro poderoso, muitíssimo bem escrito e carregado de melancolia. Kennedy escreve com vigor, recheia as páginas com diálogos em ritmo ágil e descrições de Albany. Com muito pouco, ele consegue imprimir um universo inteiro, como neste diálogo:

“- Você sabe o sobrenome dela?
– Não, ela nunca me disse.
– Agora já não faz muita diferença.
– Nunca fez, disse Pee Wee.”

No livro, estamos em 1938, ano em que Francis Phelan volta à cidade após 22 anos. Ele retorna para uma espécie de acerto de contas com a cidade, pois fugira de lá quando vivenciou uma tragédia que iria marcar sua vida, a morte de seu filho mais novo, Gerald.

Volta na condição de vagabundo, andarilho sem lar, vivendo de pequenos trabalhos diários e dormindo em albergues. Ao seu lado, amigos igualmente vagabundos, bêbados, sem destino e vivendo à margem. Kennedy os descreve sem comiseração.

A volta a Albany promove dois encontros. Um é com Helen, pianista e cantora que vive errante pelas ruas, que fora sua companheira anos atrás. O outro é com seu filho Billy Phelan, que vai provocar a revisitação à tragédia da morte de Gerald.

Em meio aos reencontros e a luta por um lugar para dormir, Francis também se vê diante de fantasmas de sua história, pessoas que de alguma forma foram determinantes em seu destino. Em diálogos imaginários, Kennedy faz com que Francis vá aos poucos eliminando remorsos, tormentos que o perseguiam.

Francis quer a redenção. A volta a Albany era a única alternativa para obtê-la. O que Kennedy oferece é essa possibilidade, mas sem expurgar facilmente as feridas que o marcaram.

Um dos pontos mais fortes do livro é o capítulo dedicado a Helen. Kennedy descreve a época em que ela despontava como pianista e cantora e sua queda brutal ao anonimato e à vida nas ruas.

Os personagens são daquela espécie que não tem passado – ou que tenta deixá-lo para trás de toda forma. Para Francis, esse passado não o largava, não o deixava seguir. Por isso, a volta. E a redenção, quando chega, vem catártica. Um belíssimo livro, exemplar da melhor prosa norte-americano do século 20.

IRONWEED, Meryl Streep, Jack Nicholson, Tom Waits, 1987
Meryl Streep, Jack Nicholson e Tom Waits em cena de “Ironweed”

*****

“E os dois estavam em busca do comportamento adequado à sua posição e aos sonhos inconfessáveis. Ambos conheciam intimamente a etiqueta, os tabus, o protocolo dos vagabundos errantes. A partir das conversas que tiveram, entenderam que compartilhavam uma certa fé na irmandade dos destituídos; entretanto, nas cicatrizes dos seus olhos, os dois confirmavam que tal fraternidade jamais existir, que a única irmandade a que pertenciam era a que propunha a renitente pergunta: Como posso sobreviver aos próximos vinte minutos?”

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