Comentário, Estados Unidos, Ficção

Uma reflexão sobre a velhice no texto de Philip Roth

fantasma_sai_de_cena_250_repNo caminho para completar as leituras dos títulos do escritor americano lançados no Brasil, chego a este “Fantasma Sai de Cena” (Companhia das Letras), que não é considerado um dos seus melhores livros.

O escritor Nathan Zuckerman, exilado nas montanhas da Nova Inglaterra, decide voltar a morar em Nova York mais de dez anos depois. A cidade já é aquela pós-11 de Setembro, um pouco paranoica, mas ainda ativa.

Assim como Zuckerman, que se submete a um tratamento inovador na luta contra a incontinência após um câncer de próstata, NY também busca se reencontrar após a tragédia. É a doença que abre caminho para seu retorno, ele que se submete a um tratamento ainda novo para recuperar parte de sua independência – as fraldas, elemento necessário por conta da incontinência, não só o atormentam, mas o envergonham.

Numa dessas viagens para uma consulta médica, Zuckerman encontra um casal de jovens escritores que pensa em se isolar nas montanhas para escrever. Dessa casualidade surge a proposta de troca de casas.

Somam-se a esse deslocamento mais dois encontros, oriundos novamente do acaso. Zuckerman se vê diante de uma antiga paixão, também vítima de uma doença, e com o biógrafo que está escrevendo sobre a vida de um de seus ídolos literários. Todos esses achados vão se cruzar em algum ponto.

Estamos então diante da decadência, da proximidade da morte, fatos refletidos na forma como Zuckerman tenta sobreviver a esses tempos, ao deslocamento que ele mesmo propôs. Com uma certa melancolia, pois o passado ressurge a explicar o jogo de recuperação do tempo, Roth ainda abre espaço para a imaginação do seu protagonista, que por meio de um novo livro tenta manter ativo seus desejos. Desejos impeditivos por conta de sua saúde, mas que se valem da imaginação para estarem ativos.

Se o sexo não pode existir, Zuckerman busca na proximidade uma forma de realizar o desejo. Transfere da sua paixão antiga para a jovem mulher escritora esse desejo quase que impossível. Em meio a esse processo, ameaça desistir da troca e voltar para sua cabana.

Roth impõe a Zuckerman a dúvida e o questionamento que chegam na parte final da jornada. A velhice, com seus impedimentos, tenta encontrar sobrevida em novas aventuras e apostas, mas vai encontrar conforto na memória.

Ainda que não seja seu dos pontos altos de Roth, o livro carrega uma força não incomum à bibliografia do escritor.

*****

Da obra de Roth, restam as leituras de:

  • “Adeus, Columbus”
  • “O Avesso da Vida”
  • “Nêmesis”
  • “O Professor do Desejo”
  • “Zukerman Acorrentado”

E se eu tivesse que fazer um top 5, seria este:

  • “O Teatro de Sabbath”
  • “Patrimônio”
  • “Pastoral Americana”
  • “Animal Agonizante”
  • “Entre Nós” (uma chance ao Roth longe da ficção)
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2 thoughts on “Uma reflexão sobre a velhice no texto de Philip Roth”

  1. Texto muito bom, meu velho.
    Tenho uma lembrança meio enevoada desse livro, não me encantou na época. Mas acho que Roth merece uma segunda chance sempre. Fiz isso com A Humilhação e passei a gostar do livro que então tinha detestado. Engraçado que Fantasma sai de cena trata com amargura da velhice, tema bastante presente na obra recente dele, incluindo aí Homem Comum, que você não gostou e que eu adoro.
    Dos que lhe faltam (a mim faltam alguns outros), gosto muito do seu filho derradeiro, Nêmesis, um livro poderoso sobre a epidemia de poliomielite. Adeus, Columbus reúne contos junto com a novela que dá nome ao livro. Trabalho inicial de Roth, já com alguns dos temas que seriam os pilares da sua obra. O avesso da vida eu lembro de não ter gostado (até porque foi lido logo depois de Sabbath e Patrimônio, o que é uma covardia).
    Pastoral americana é maravilhoso, não? Aquela tristeza e decepção do Sueco Levov ainda hoje me comovem. A minha lista de favoritos teria A Marca Humana e Homem Comum. Entre Nós eu já paquerei algumas vezes nas livrarias, sem sucesso.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Quero muito ler Adeus, Columbus. E estou com certa resistência a Nêmesis – o livro está na estante de casa já faz um bom par de anos, mas depois do seu comentário quem sabe eu me tome a ler. Pastoral é daqueles que me fariam reler um livro de Roth. E obrigado pelo elogios, meu caro.

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