Comentário, Estados Unidos, HQ

“Mate Minha Mãe”: O noir pelas mãos de Jules Feiffer

Capa-do-Livro-Mate-Minha-MãeLogo na abertura do livro, o autor já indica o que o leitor encontrará, ao citar as referências em um agradecimento. “Mate Minha Mãe” (Quadrinhos na Cia) vai homenagear o noir: além de Will Eisner, referência no mundo dos romances gráficos, estamos diante de escritores e cineastas que consagraram o gênero nos anos 40, como Billy Wilder, John Huston, Raymond Chandler e Dashiell Hammett.

O autor da HQ, Jules Feiffer, foi aluno de Eisner e trabalhou no estúdio do cartunista, mas ampliou suas referências ao escrever peças, roteiros e livros desde 1946. É considerado um dos principais nomes da arte gráfica norte-americana.

“Mate Minha Mãe” foi anunciada como seu primeiro romance gráfico, no estilo popularizado pelo mestre Eisner – Feiffer já teria feito outros romances gráficos, mas assume que este é seu primeiro noir, escrito aos 86 anos. Seus desenhos alongados, com pouco uso de cor e sem muita precisão imprimem um ar de rabisco, sem acabamento – o que se tornou uma característica maior de sua arte.

O livro, como citado no parágrafo de abertura, é uma homenagem ao gênero noir. É possível identificar rastros de histórias como “Pacto de Sangue”. Mulheres misteriosas, detetives bêbados e impulsivos, uma história tortuosa, com vários desvios, que chega a confundir o leitor, fazem de “Mate Minha Mãe” uma homenagem primorosa.

A história se baseia na trama que investiga a morte de um homem cuja filha acusa a mãe de não ter se empenhado para descobrir o culpado e só trabalhar sem dar muita bola para a casa. Mas mãe é secretária de um detetive exatamente para investigar a morte, fato que a filha desconhece. Detetive que envereda pela caricatura dos durões do noir, bêbado, machista folgado e intuitivo – mas Feiffer o faz também um pouco trapalhão.

É quando entra em cena uma mulher alta, misteriosa, envolta em casacos. A história dança por reviravoltas e cenas que parecem dispersar a trama, mas que apenas reforçam o gênero noir.

A HQ é construída em capítulos curtos e se apoia muito na música, o que valoriza o traço de Feiffer. Os personagens ganham vida quando dançam, desenhados em longas linhas, cruzadas e quase intuitivas. Feiffer trabalha muito com perspectivas, alternando planos, como numa cena de cinema.

“Mate Minha Mãe” recupera um gênero e, sem distorcê-lo, dá uma nova chance a ele. O noir, o homenageado, encontra-se na HQ redivivo. Com classe.

A ilustração de abertura de "Mate Minha Mãe"
A ilustração de abertura de “Mate Minha Mãe”

 

 

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