Brasil, Ficção, Guatemala, Não ficção, Notas de leitura

Notas de Leitura

738832“O Material Humano” (Benvirá), de Rodrigo Rey Rosa
O escritor guatemalteco era muito elogiado por Roberto Bolaño. Neste livro, Rosa relato em forma de diário o trabalho de pesquisa feito nos chamados Arquivos, o local onde eram armazenada todas as informações daqueles considerados inimigos do país. Ele narra como foi enfrentar a burocracia para chegar até os papéis que esclareciam um pedaço da história recente da Guatemala, seus golpes e as pessoas que estavam dos dois lados da luta. Em meio a esse trabalho, Rosa insere elementos ficcionais, como seus encontros com o filho do homem que organizou os arquivos, uma tentativa de entender o que lhe era negado. Sem contar a relação com sua mulher, envolta de traição, idas e vindas e muito bom humor. Apesar do tom inicial de relatório, compreensível para este projeto, o livro é daqueles lançamentos imprescindíveis. A pergunta que fica é saber o que levou a editora a lançar dois livros do autor, desconhecido no Brasil e representante de uma literatura mais estranha ainda ao país – da Guatemala. O outro livro do autor, “Os Surdos”, já foi comentado pelo blog.

718706“O Voo da Madrugada” (Companhia das Letras), de Sérgio Sant’Anna
Considerado um dos pontos altos da bibliografia do escritor brasileiro, este livro de contos ganhou o Jabuti de 2004. É difícil de encontrar em lojas físicas, mas as virtuais oferecem com desconto. Este foi meu primeiro encontro com a obra do autor. Saí da leitura estupefato. O conjunto de contos é fortíssimo, revela um autor maduro e disposto a ir aos extremos – ele lançou o livro aos 62 anos. Ele escreve sobre os limites do sexo, do edipiano ao fraterno. Faz da morte um personagem a guiar e unir todos os contos. Exercita a linguagem, como nos textos em que busca uma interlocução com o leitor. Mistura realidade e ficção. O conto que torna o livro um clássico é “O Gorila”, dividido em várias partes. O personagem vive de ligar para pessoas desconhecidas e tocá-las em pontos fracos. Amedronta alguns, faz papel de amigo em outros. Escondido sob o anonimato do telefone – num período pré-internet -, é capaz de cometer atrocidades até chegar a um momento em que o jogo vira. E mais não se fala para não comprometer a experiência. Imperdível, leitura fundamental.

83647145“Reminiscências” (Reformatório)*, de Marcelo Nocelli
Os 17 contos reunidos revelam um autor preocupado com o humano. O cotidiano já não é mais capaz de sustentar relações que possam dar sentido. Estamos diante de personagens solitários, muitas vezes já desistentes, inertes diante da vida que se apresenta, sem forças de sair. Não há situações mirabolantes, há sim a vida de todo dia. Fatos que se sucedem como um reflexo da realidade, cuja ficção nada mais é que uma espécie de tradução. Por isso, mais do que o tom lírico, e em muitos casos melancólico, os contos lançam interrogações, como a querer dialogar com o leitor. Talvez em excesso, mas que de certa forma ajudam a formar um conjunto e dar unidade.

* O livro foi enviado pela editora

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