Argentina, Comentário, Entrevista, Ficção

“O Vento que Arrasa”: um pequeno notável

Numa estrada deserta, na região do Chaco argentino, entre pequenos vilarejos, um reverendo e sua filha viajam para pregar e reencontrar um velho amigo. Até que no meio da tarde o carro dá um problema e eles se veem obrigados a parar numa oficina que por sorte encontram no caminho.

O-vento-que-arrasa-grande“O Vento que Arrasa” vai retratar os fatos que acontecem desse ponto até o recomeço da viagem na manhã seguinte, no interior da Argentina. Selva Almada, a autora, potencializa a história, passada num período curto, num espaço também curto – o livro tem 122 páginas e formato de um caderno de anotações, o que leva a alguns críticos a classificarem o livro de novela.

Jovem, ela publicou o primeiro livro aos 30 anos, em 2003. Agora, com seis títulos, entre este romance, crônicas e contos, a argentina Selva Almada começa a consolidar seu nome na geração latina-americana de nomes como Diego Vecchio, Juan Pablo Villalobos, Maximiliano Barrientos, Guadalupe Nettel, Lina Meruane, entre outros.

No romance, em que pouco acontece, o leitor se depara com o choque de memórias. O reverendo pensa que tem em sua filha um ponto de apoio, uma sustentação para suas pregações. Vai encontrar no mecânico e no garoto que o acompanha – que pode ser seu filho – uma chance de misturar necessidade e conversão.

Vamos ao passado do mecânico para conhecer como ele chegou até ao meio do nada com o menino, tratado com rigor e que vai confrontar essa relação com a aproximação da garota.

Enquanto os jovens buscam entender o comportamento dos pais, o reverendo e o mecânico travam uma discussão mais agressiva, com as tentativas de pregação e a resistência de rever o passado.

Ao mesmo tempo, uma tempestade se aproxima funciona como um prazo a ser cumprido – o carro deve ficar pronto para seguir viagem o mais rápido possível, apesar da paciência e a vontade do reverendo de seguir sem pressa.

A religião é tema dominante, seja na conversa das crianças, seja no embate entre adultos. A troca de lados, por influência ou pura rebeldia juvenil, surge como resistência, como forma de criação de identidade – no caso, a Argentina que se forma.

Ao longo da leitura, ficamos esperando por algo que nunca acontece: ruptura, fuga, a chegada da tempestade, a partida. E é espantoso como Almada consegue condensar tanta tensão, aparentemente sem motivos, em tão pouco espaço, em diálogos que revelam personalidades e escondem memórias e desejos e com raros elementos à disposição.

“O Vento que Arrasa” é um pequeno livro notável, universal, que trata de recorte do interior da Argentina, mas que poderia se passar em qualquer recanto das Américas. Que este primeiro livro de Selva Almada lançado no Brasil abra os olhos das editoras.

Logo após esse trecho, segue uma entrevista com a autora. Além de falar sobre o livro, Selva discute a violência contra as mulheres e a política argentina.

*****

“O homem riu.
– Muito bem. Se nos fizer esse favor.
– Claro, meu irmão. Não vou deixar vocês aqui a pé, no meio do nada. Nem as almas se animam com este calor.
Subiu na camionete e manobrou até a frente do carro. Desceu, tirou da caçamba um cabo de aço e amarrou o para-choque do carro à camionete.
– Vamos lá, meu irmão. Podem entrar, que o ar-condicionado está uma beleza.
O Reverendo sentou-se ao lado do homem e Leni se acomodou junto à porta. Tudo cheirava a couro e a desinfetante de pinho.
– Passeando por aqui? – perguntou o motorista.
– Vamos visitar um velho amigo – disse o Reverendo.
– Tá certo. Bem-vindos ao inferno.”

*****

A escritora argentina Selva Almada
A escritora argentina Selva Almada
A figura da mãe está ausente na novela, surge apenas nas lembranças. Em que medida a mulher é determinante para o comportamento dos personagens, dos pais e seus filhos?
Não sei. “O Vento que Arrasa” é uma ficção e sua pergunta tem mais a ver com a psicanálise, me parece. As duas mães estão ausentes por várias razões. Ambas foram forçadas a se separar de seus filhos: uma, porque assim decidiu seu próprio marido, em algo que é praticamente um sequestro; a outra, pressionada por necessidades econômicas, pela falta de trabalho em sua região, pela pobreza. Isso é o que eu posso dizer das mães ou a sua ausência na novela: ambas são exemplos de como vivem, de como boa parte das mulheres é forçada a viver no meu país.

De certa forma, seus personagens são opostos: fé e natureza, crença e desconfiança. Como esses complementos definem os rumos da novela?
Na novela, essas questões e os quatro personagens funcionam como pares espelhados: o reverendo Pearson e Gringo Brauer [o mecânico]: a fé cega em deus versus fé cega na natureza. São opostos, mas no fundo são semelhantes: eles são dois homens crentes. Para Leny [a filha do reverendo] e Tapioca [a criança que mora com o mecânico] o espelho é mais simétrico, as duas crianças estão presas pelas decisões dos adultos.

O que o encontro das duas famílias significa para o momento em que vivem, de reavaliação e questionamento?
Os relatos se definem por suas tensões internas. Neste caso, a novela conta algumas horas das vidas desses quatro personagens que se encontram por acaso, cada um com seus próprios conflitos. Eu não sei o que isso significa, mas acho que essa tensão, esse conflito é o coração de toda a história.

“O poder da Igreja Católica me enoja, me enoja o mal que causa aos cidadãos, que impede, entre outras coisas, a legalização do aborto. Na Argentina, uma das principais causas de morte de mulheres pobres é o aborto clandestino. Essas mortes nós devemos à Igreja Católica”

A religião gera o principal atrito entre os personagens, com a insistência do reverendo em pregar para o mecânico. Teve receio de incluir esse tema na novela, de uma religião com boa penetração na América Latina?
Nem um pouco. Eu não sou uma pessoa religiosa, nem mesmo crente. Na novela, a religião é apenas uma desculpa para colocar em ação esses personagens, como poderia ter sido qualquer outro assunto, como é a vingança no meu próximo romance. Eu nunca tive dúvida ou medo a esse respeito. Não teria porquê, pois o verdadeiro poder na Argentina está com a Igreja Católica, e não com as pequenas igrejas evangélicas ou protestantes. Me refiro ao poder político, o poder nas decisões do Estado. Embora disse que não tenho medo da Igreja Católica, seu poder me enoja, me enoja o mal que causa aos cidadãos, que impede, entre outras coisas, a legalização do aborto, por exemplo. Na Argentina, uma das principais causas de morte de mulheres pobres é o aborto clandestino, realizado em condições chocantes. Essas mortes nós devemos à Igreja Católica, à sua interferência nas decisões do Estado.

O espaço de tempo é curto, o ambiente se restringe a uma oficina, mas ao mesmo tempo temos as memórias dos flashbacks e um deserto lá fora, com a ameaça do vento – uma sensação de liberdade. Esse jogo de contrastes, entre o aberto e fechado, acaba se reproduzindo nos personagens. O que você pretendia com esses contrastes?
Eu não tenho muita consciência do que eu escrevo ou como a história vai se armando. Eu sempre começo por um clima ou um personagem, nunca sei para onde vai, como terminará, se vai ter sucesso ou falhar depois de alguns parágrafos. Vou seguindo os personagens e vendo o que aparece no curso de escrita. De um modo geral, eu mesma me surpreendo com o rumo da história e como isso milagrosamente significa algo para o conjunto. Como nesse caso que você menciona: o aberto e o fechado. Como isso aconteceu? Não tenho ideia.

Beatriz Sarlo é uma grande entusiasta da novela. O que significa ter a admiração dela para a vida do livro?
Que Beatriz Sarlo tenha reparado na novela e escrito um comentário elogioso foi muito importante para a circulação do livro, muitos leitores chegaram ao romance por ela. Pessoalmente, eu estudei os livros de Sarlo na faculdade, sempre a respeitei muito, é um dos mais sérias intelectuais da Argentina. Então, claro que fiquei feliz por suas críticas.

9789873650314Seu livro posterior, “Chicas Muertas”, trata de questões importantes para a mulher. Qual é a situação das mulheres na Argentina?
Como eu disse anteriormente, uma das causas de morte de mulheres é o aborto clandestino. Outro motivo que cresce a cada dia é o feminicídio, ou seja, o assassinato de uma mulher por um homem conhecido, um homem de seu ambiente. Essa é uma realidade muito grave. A cada 30 horas uma mulher é assassinada, sem contar aquelas que sofrem outras formas de violência: espancamentos, abusos psicológico, no trabalho e no médico. O machismo é um problema social muito grave. E eu sinto que o Estado não tem noção do que está acontecendo. Ao mesmo tempo, eu acredito que a consciência pública do problema está crescendo. Isso significa que algo está mudando. Mas sem o apoio do Estado, sem decisões políticas sérias nesse sentido, há pouco que podemos fazer.

A Argentina historicamente tem mulheres muito fortes no comando do país, de Evita a Cristina. Essa presença política não ajudou a criar um ambiente menos violento para as mulheres, com políticas de defesa mais eficientes? Como você avalia esse cenário?
Não, infelizmente não ajudou. Ter uma mulher no poder não quer dizer nada. Se essa mulher não é uma feminista, se ela reproduz os padrões de machismo, se essa mulher não se atreve aplicar políticas revolucionárias, se a igreja segue interferindo em decisões como a legalização do aborto, ter uma mulher como presidente é um gesto, só isso.

Como vê a transição política na Argentina?
Se você se refere a uma transição nos últimos dez anos, posso dizer, como falei anteriormente, que alcançamos algumas coisas, especialmente nas políticas sociais: bolsas de estudo, empréstimos à habitação, planos de assistência econômica para aqueles que estavam em uma situação de pobreza extrema, por exemplo. E é preciso reconhecer tudo isso, claro. Mas, no geral, o quadro que está por vir é muito desanimador. A direita cresceu muito nos últimos anos. A polarização antikirchnerismo versus kirchnerismo tem sido brutal. Em duas semanas [a entrevista foi feita no dia 14 de outubro], acontecem as eleições para presidente e é tudo muito, muito triste.

Ficção ou não ficção, o que a atrai neste momento?
Eu me formei como escritora de ficção, embora quando menina queria ser jornalista, e até mesmo comecei a carreira. De alguma forma, “Chicas Muertas”, um livro de não ficção, foi um retorno ao velho amor. Mas eu gosto de ambos os gêneros, espero continuar trabalhando com ambos, se há histórias e temas que pedem um ou outro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s