Comentário, Estados Unidos, Música, Não ficção

A derrocada de uma indústria bilionária: do vinil ao mp3, como a música ficou grátis

page_1O formato, a condução e a história se assemelham a um thriller político ou policial, mas o que se lê em “Como a Música Ficou Grátis” (Intrínseca) é uma reportagem muito bem pesquisada e escrita sobre como uma indústria bilionária foi destroçada pela tecnologia.

O subtítulo ajuda a compor a ideia: “O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria”. O jornalista Stephen Witt, matemático de formação e hoje colaborador da “The New Yorker”, escreveu um livro que disseca e expõe todos os erros da indústria fonográfica.

O livro se ancora em três pontos: os alemães que criaram o mp3, o executivo que se tornou o CEO da maior gravadora da virada do século 20 para 21 e um funcionário de uma fábrica de CDs classificado como o tal paciente zero da pirataria, responsável pelo vazamento de centenas de títulos.

Witt alterna os capítulos com a história de cada um desses personagens. Mostra o embate para a criação e o estabelecimento do mp3 como padrão da música, necessário para uma época de milhares de arquivos armazenados em computadores. A disputa por formatos quase enterrou o mp3, até que trackers começaram usá-los. Transformou a extensão no caminho mais fácil para transferir música pela então iniciante internet de banda larga.

Narra a chegada do Napster, dos torrents e a eterna briga das gravadoras contra a troca de arquivos. Doug Morris, o executivo da Universal, representa a falta de perspectiva e as amarras a um passado que não mais representava o comportamento dos consumidores.

Se antes a música só circulava por meio de vinis e CDs, agora, podia ser transmitida de um computador a outro em questão de minutos – e, depois, de segundos. Sem entender o mecanismo que dominava a mentes dos jovens, as gravadoras resolveram partir para o confronto – e o livro destrincha esse passo a passo para mostrar os inúmeros erros cometidos pela indústria.

Por fim, para fechar o trio, Dell Glover, funcionário de uma fábrica da Carolina do Norte, se revela o responsável pelo vazamento de CDs considerados fundamentais pela indústria, aqueles que poderiam dar dinheiro e vida aos artistas e ao esquema. O rap é personagem principal, pois era o ritmo que dominava as paradas no início do século.

Glover será o rosto da pirataria, o homem que venceu as barreiras da fábrica e distribuiu para sites colocarem em circulação títulos de rappers como 50 Cent, Eminem e outros que venderiam milhões de cópias.

O livro se apoia nessa estrutura para criar tensão, apesar de o final ser conhecido. Mas o grande mérito de Witt, como em um filme de Hitchcock, é ter construído uma trama que instiga o leitor saber como chegar àquele final.

Se hoje a música está disponível gratuitamente em torrents e aos resistentes sites de armazenamento, é porque a indústria não reconheceu e não deu bola à revolução digital que aconteceu no final do século passado.

Sem perspectiva de voltar a controlar o mercado da música, a indústria se transformou. Das seis grandes gravadoras, restaram três, resultado de fusões e falências. Artistas começaram a gerir a carreira e suas obras. Inovaram no lançamento de discos, com ideias como distribuição gratuita e definição do preço pelo consumidor.

Enquanto isso, os torrents continuaram a encher milhares de bytes de computadores, a música migrou para os iPods e agora para o streaming. Tornou-se tão barata, que, mesmo no formato legal, a sensação é de gratuidade – afinal, pagar R$ 15 por mês por um serviço de streaming para ter acesso a milhões de músicas pode ser facilmente encarado como um pedágio, uma pequena taxa que libera o acesso a um monumental arquivo.

O livro, mais até do que desnudar a indústria e contar a história da música no século 21, é uma reportagem que retrata o comportamento de uma geração que nasceu digital.

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