Comentário, Ficção, México

“Te Vendo um Cachorro”: A vida nada normal no edifício de Juan Pablo Villalobos

Um velho edifício no centro da Cidade do México abriga aposentados que ficam a ler “Em Busca do Tempo Perdido” obsessivamente em uma tertúlia diária. Nesse prédio, infestado de baratas, o tempo demora a passar. Para se ter uma ideia, a alternativa à leitura é fazer modelagem com miolo de pão. Por isso, o recém-chegado Theo conta os dias restantes em doses de cerveja.

As picuinhas são aquelas que imaginamos em uma comunidade em que poucos têm o que fazer e muito a observar. A síndica é enxerida e acredita que Teo, um pintor fracassado, é na verdade um escritor e se mudou para o prédio para escrever um romance. Fica lhe dando sugestões e, claro, implicando com qualquer movimento estranho.

Theo é daqueles que têm um humor para pouquíssimos. Costuma responder aos atendentes de telemarketing com frases tiradas da “Teoria Estética”, de Adorno.

Tem um fornecedor de produtos chamado Mao, comunista que se rendeu ao capitalismo do mercado negro.

CKI2CUIWIAAYkkRA trama de “Te Vendo um Cachorro” (Companhia das Letras), do mexicano Juan Pablo Villalobos, parece não andar para lugar nenhum, como a vida dos aposentados leitores de Proust. Mas o que sai do livro que fecha a trilogia sobre o México (os outros são “Festa no Covil” e “Se Vivêssemos num Lugar Normal”) acaba por contar parte da história do país latino.

Como Villalobos disse em entrevista ao blog, “o romance é sobre como se constrói uma memória histórica”. E a história se desenrola por meio da memória de Theo, da sua infância à vida adulta como vendedor de tacos.

Por trás dessa vida banal, está uma sutil crítica ao México – a história dos livros desaparecidos, transformada em sequestro, é daquelas metáforas que fazem da literatura de Villalobos uma passagem obrigatória.

Trata-se também da velhice, de como envelhecer e lidar com os impedimentos que a idade obriga. Villalobos avança. Expõe as instituições e suas limitações e escancara o poder da corrupção.

Se em “Festa do Covil” Villalobos dá voz a uma criança que vive como um narcotraficante, se em “Se Vivêssemos em um Lugar Normal” quem ganha o protagonismo é um adolescente que se transforma num adulto desiludido, agora, fechando a trilogia, o autor entrega Teo, aos 78 anos, cínico, sem perspectiva, sem vontade de acertar contas com o passado.

A memória se resgata por conta de fatos que o fazem voltar ao passado obrigatoriamente – e o cachorro do título é o melhor exemplo, mas a relação fica por conta do leitor descobrir, para não adiantar surpresas.

Sem contar que a prosa do mexicano é muitíssimo bem humorado, cínica, com doses encaixadas em curtos diálogos e cenas hilariantes – como a debandada de baratas, submetidas a determinada música.

O fechamento da trilogia se dá em grande estilo, com um livro que conduz o leitor a uma reflexão por meio de vidas comuns e que se mostram suscetíveis ao meio e como ele se transforma. Nada mais natural.

*****

“E então, quando parecia impossível que acontecesse mais alguma coisa, tudo virou de ponta-cabeça, como se um engraçadinho tivesse mudado as coisas de lugar e de repente houvesse meias de náilon na geladeira, lâmpadas queimadas embaixo do travesseiro, as baratas lessem o Tempo Perdido, os mortos se cansassem de estar mortos e o passado já não fosse como antigamente.”

“- Entendeu? – eu perguntava. – Você não precisa contar tudo, pode deixar muitos vazios no seu romance.
– Mas eu não quero irritar o leitor! – ele se queixava.
– Por isso mesmo! Deixe bastante vazios! Se dermos sorte, quem sabe o teu romance desaparece!”

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