Notas de leitura – Martín Kohan em dobro

segundosfora“Segundos Fora” (Companhia das Letras), de Martín Kohan
O escritor argentino une boxe, jornalismo, música clássica e crime neste romance. Em 1923, uma luta de boxe foi decidida por causa de um erro do juiz, que se perdeu na contagem do tempo. O lutador que estava na lona se levantou e venceu o combate. O fato se tornou marcante para a história de Trelew, na Patagônia, terra do argentino que viu a chance de ser campeão escapar. Cinquenta anos depois, o jornal local prepara uma edição comemorativa e cada editoria deve tratar de um fato notável daquele ano. O jornalista de esportes vai rememorar a luta, enquanto o responsável pela área cultural vai relembrar a apresentação da primeira sinfonia de Gustav Mahler, no Teatro Colón, em Buenos Aires, sob a direção de Richard Strauss. Kohan vai cruzando as histórias da luta e do concerto, reconfigurando os fatos e as memórias das pessoas. Um crime será o responsável por unir esses dois fatos, a princípio distantes. Mais. O autor argentino faz um belo retrato de época, ao descrever o início do século 20 e seus personagens. Como pano de fundo, retrata Trelew, o local do massacre de 19 guerrilheiros em 1972.

ciencias“Ciências Morais” (Companhia das Letras), de Martín Kohan
Neste romance, o autor argentino escava o porão do final da ditadura militar no seu país. A trama se passa em 1982, num colégio rigidamente controlado e tradicional de Buenos Aires. María Teresa é contratada como inspetora do colégio e deve replicar no cotidiano a linha de trabalho de seu chefe, o senhor Biasutto. O começo do livro é rígido, uma prosa mais dura, como a refletir o momento de chegada de María ao colégio. A adaptação encontra sintonia com o momento em que a Argentina começa a rever seu passado recente e tenebroso, enquanto vislumbra com a democracia que chegaria no ano seguinte. Ela se empenha para agradar ao inspetor-chefe, famoso por suas listas da época da ditadura militar, trabalho que María pouco desconfia. Kohan escreve sobre a Argentina que se descortinava para o fim de generais no poder, de um passado recente de torturas e mortes, e que estava pronta para expurgar essa dor. O romance transfere esse momento para sua prosa, que aos poucos vai se soltando, assim como María. Romance importante sobre a Argentina, que encontra par em “A Quem de Direito” (Companhia das Letras), de Martín Caparrós.

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