Comentário, Ficção, França

Em “Submissão”, fracasso ideológico leva Houellebecq a satirizar o futuro francês

submissao-michel-houellebecq-livroConfesso que achei que “Submissão” (Alfaguara), do francês Michel Houellebecq, fosse fazer mais barulho quando lançado no Brasil. Motivos existiam. O livro foi publicado no momento dos ataques terroristas ao semanário “Charlie Hebdo”, em janeiro. E trata basicamente de um cenário em que um partido muçulmano chega ao poder na França.

Era, infelizmente, a deixa para uma polêmica que faria do livro vítima de um sem-número de discussões. O futuro imaginado por Houellebecq – o livro se passa em 2022 – se chocava com a realidade trágica, e “Submissão” seria mais combustível para todo tipo de paranoia.

“Submissão”, me parece, ficou esquecido no Brasil. Pouco se falou, com exceção da época do lançamento em francês. Uma ou outra crítica foi publicada quando saiu a tradução para o português, mas tanto o tema como o livro não tiveram sobrevida.

Li o livro já faz uns três meses. E nesse tempo, toda vez que volto a pensar nele, reencontro um romance satírico, longe até de colocar no debate as questões religiosas com vigor.

Estamos em 2022, mas fica a sensação de que o ano é apenas um recurso para livrar o romance do perfil de um ensaio. Acontece em 2022, mas seus personagens reais são de 2015.

François é um acadêmico com uma vida besta, rotineira e solitária. Sem ambições, passa as noites vendo vídeos pornôs no YouPorn. Na França, o debate político esquenta com as eleições presidenciais. Para evitar a chegada da extrema direita ao poder, uma coalizão elege Mohammed Ben Abbes, representante da Fraternidade Muçulmana. Classificado como moderado, vai tentar unir o país.

François começa a sentir na vida acadêmica os efeitos das novas regras de conduta, enquanto o país segue sua vida normalmente, sem os choques que muitos temiam caso o partido religioso chegasse ao poder.

Houellebecq explora então a paranoia ocidental. Em situações que remetem a “1984”, o tom é muito mais de sátira do que de distopia – cenário que nem se aproxima de “Submissão”. Sem ridicularizar muçulmanos, nem aumentar o combustível do fogo que representa a situação que os imigrantes vivem na França xenófoba, o escritor trata desse futuro imaginado com algum tato, mas sempre percorrendo a linha da sátira política.

*****

“Quanto à restauração da família, da moral tradicional e, implicitamente, do patriarcado, abria-se uma avenida diante dele, que a direita não podia palmilhar, a Frente Nacional também não, sem serem qualificadas de reacionárias, e até de fascistas pelos últimos remanescentes de Maio de 68, múmias progressistas moribundas, sociologicamente exangues mas refugiadas em cidadelas midiáticas de onde continuavam capazes de lançar imprecações sobre a desgraça dos tempos e o ambiente nauseabundo que se espalhava pelo país; só ele estava ao abrigo de qualquer perigo. Paralisada por seu antirracismo constitutivo, a esquerda foi desde o início incapaz de combatê-lo , e até de mencioná-lo.”

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4 thoughts on “Em “Submissão”, fracasso ideológico leva Houellebecq a satirizar o futuro francês”

  1. Achei ‘Submissão’ um livro sobre ‘boiling frogs’. Tem a paranoia, claro, mas também tem as mudanças indesejadas, às vezes absurdas, que não encontram muita resistência entre os personagens. A submissão se dá pela impotência, talvez pela preguiça.

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