Comentário, Estados Unidos, Ficção

“Estação Atocha”: Quando café, haxixe e pílulas levam a diagnosticar uma fraude

Após a péssima experiência com “Stoner”, publicado pela Rádio Londres, fiquei um tanto reticente em procurar outro livro da editora. Afinal, o título estava recheado de erros de revisão, às centenas, como narrei em posts em março e abril deste ano.

Tinha lido também “Viva a Música!”, este já com menos erros de revisão, mas ainda assim com uma quantidade imperdoável para quem se pretende uma editora de qualidade.

AtochaMas tive que dar outra chance à editora por conta de “Estação Atocha”, de Ben Lerner, muito bem avaliado por gente de confiança e por críticos no exterior. Confesso que comprei o livro com medo de encontrar pela frente vírgulas separando sujeito do verbo, como as tantas que havia em “Stoner”.

Bem, desta vez, o livro estava bem revisado. Se há problema, é daquele que editoras de porte também cometem. Para não dizer que não impliquei com o livro, me incomodou o uso de “barzinho” na tradução, uma solução um tanto datada em português e que não se encaixa bem nos ambientes descritos.

Adam Gordon é um poeta norte-americano que vai para Madri com uma bolsa de estudo com o objetivo de completar uma pesquisa e escrever. Viciado em cafeína e haxixe, tem como hábito se automedicar e se tornar um ser inseguro diante de mulheres.

Insegurança que extrapola a sedução e se expande para a autoavaliação. Não raro, Gordon se sente como uma fraude, um poeta menor que não consegue nem participar de debates sobre o tema que está pesquisando.

Na Espanha, vai se envolver com duas mulheres, uma que pretende um caso rápido, pois já tem um namorado, e outra que o ajuda nas traduções de seus poemas para o espanhol e que pretende algo mais constante.

Com as duas, em diversas situações, viaja pelo país, conhece lugares e culturas. Mas é em Madri que sua vida precisa tomar rumo. Ele deve decidir se continua na Europa ou volta para os Estados Unidos, além de dar continuidade à sua pesquisa.

No fundo, Gordon quer procurar algum rastro de autenticidade, algo que o faça se sustentar como escritor. Essa é a busca que ele empenha por todo o livro.

Lerner faz do livro um exercício de linguagem – ele foi classificado como um misto de realidade e ficção, pois teria como inspiração fatos da vida do autor. A verdade é que o livro é daqueles que parecem que não vão a lugar algum, mas que são impossíveis de serem deixados de lado. A vontade de continuar a ler é superior ao desejo de largá-lo.

Até porque não há para onde ir.

O título do livro faz referência à estação de trem que sofreu um atentado terrorista em 2004. Atocha será uma personagem importante na metade final do romance.

Para fechar, foi com certo alívio que cheguei ao final sem me deparar com centenas de erros. O trabalho da editora desta vez está muito bem feito, o que condiz com o catálogo que carrega.

*****

“No final da quarta fase do meu projeto, decidi aumentar a dose, tomar dois comprimidos brancos todas as manhãs em vez de um. Tinha o suficiente, antes de sair dos Estados Unidos, havia feito estoque para um ano, que só consegui graças a um documento por escrito do meu médico, que tinha me rendido olhadelas cheias de suspeita por parte do farmacêutico, e, antes mesmo de adquirir o estoque, tinha provisão suficiente para um mês, que em seguida havia distribuído em frascos menos. De qualquer forma, podia ir a um psiquiatra na Espanha se, por exemplo, decidisse ficar depois do período da minha bolsa de estudo, talvez dando aula de inglês. Ou podia simplesmente parar de tomar os comprimidos brancos depois de acabarem; na verdade, nem estava completamente convencido de que eles funcionavam.”

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4 thoughts on ““Estação Atocha”: Quando café, haxixe e pílulas levam a diagnosticar uma fraude”

  1. A sua resenha do livro me deixou bastante instigada a lê-lo. Já o vi em diversas fotos pela rede, mas foi a primeira vez que de ti para saber mais sobre ele. Se sua avaliação é positiva, tenho certeza que também não vou me decepcionar.

    Curtido por 1 pessoa

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