Comentário, Ficção, Itália

O jornalismo imbecil, por Umberto Eco

ecoO novo livro de Umberto Eco, “Número Zero” (Record), fez muito barulho antes de sair no Brasil. O autor, tanto no romance como nas entrevistas que deu para divulgação, trata do jornalismo e das redes sociais. Para Eco, a internet está deixando as pessoas mais imbecis – foi mais ou menos isso que ele disse.

Já no romance, Eco expõe o que mau jornalismo é capaz de fazer. Em 1992, um grupo de jornalistas são chamados a fazer um novo diário em Milão. O projeto editorial da publicação escapa do método tradicional do chamado bom jornalismo. O negócio, exposto desde o início pelo editor, é preparar dossiês, encontrar falcatruas, brechas para chantagear os personagens que serão temas das reportagens.

O objetivo é se antecipar a qualquer escândalo e ter nas mãos um material que possa servir de moeda de troca.

Só essa premissa já seria suficiente para provocar discussão e levantar a conversa sobre o atual estado do jornalismo, moribundo e grogue. Sem rumo, o jornalismo se pretende sério e relevante, mas, fora poucos achados, não consegue sair de uma linhagem viciada e anacrônica.

O que Eco acrescenta ao debate é o fato de que, mesmo em 1992, quando a internet ainda era peça de ficção científica, o jornalismo já se enveredava por um caminho imbecilizante. Ora, seus jornalistas, que preparam o chamado número zero como teste, não checam, não cruzam informações, não fazem o que o manual de ética e boa conduta prega – ao contrário, escrevem um próprio manual, digno de uma era que Eco preconiza no seu romance.

Eco expõe as técnicas mais rasas do jornalismo, de qualquer plataforma, tanto de 1992 como de 2015 – no trecho que destaco abaixo, ele mostra como um jornalista deve se comportar diante de uma tragédia pessoal: perguntar para a vítima como ela se sente.

No romance, uma história em particular vai exemplificar o modelo de jornalismo que Eco critica. Ela se passa na época de 2ª Guerra Mundial, envolve Mussolini e seu engajamento no conflito. De boatos e lendas, tudo é factível para esses jornalistas.

Ao final, fica a impressão de que lemos um ensaio, como um amigo disse. Ou, quem sabe, um romance pretensioso, que ficaria muito mais impactante se condensado em um conto.

De qualquer forma, o que Eco escreve é sempre algo a ser acompanhado. Sarcástico, cruel com a realidade da comunicação, o autor italiano é rara voz pensante, sem medo de ir contra a corrente. O importante, para Eco, é instigar, provocar.

*****

“Pense numa entrevista, claro que imaginária, com um dos autores que estão competindo, e, se a história for de amor, arranque alguma lembrança do primeiro amor do autor ou da autora, ou quem sabe alguma maldade a respeito dos concorrentes. Faça do maldito livro uma coisa humana que mesmo a dona de casa consiga entender, e assim não terá remorsos se não o ler; aliás, quem é que lê os livros que os jornais resenham, em geral nem o resenhista, isso quando o próprio autor o lê, porque, olhando certos livros, a gente às vezes acha que nem ele leu.”

“Imaginem só se algum dia essa magistrado de Rimini resolve meter o nariz nos negócios do Comendador também. Portanto, o nosso editor vai ficar satisfeito de ver que se pode lançar uma sombra de suspeita sobre um juiz intrometido. Percebam que hoje, para contra-atacar uma acusação que não é necessário provar o contrário, basta deslegitimar o acusador.”

“Em geral, até para um jornal de verdade, a solução mais prudente é ir para o lado do sentimental, entrevistar os parentes. Se prestarem atenção, é isso o que os telejornais fazem, quando vão bater na porta da mãe cujo filho de dez anos foi posto no ácido: o que a senhora sentiu com a morte do seu filho? Os olhos das pessoas se enchem de lágrimas e elas ficam satisfeitas. Existe uma ótima palavra alemã, Schadenfreude, satisfação pessoal com a infelicidade alheia. É esse sentimento que o jornal deve respeitar e alimentar.”

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