Comentário, Crônicas, Israel, Itália, Memórias

Esqueça o hipsterismo do norueguês Knausgard. Leia Etgar Keret e Natalia Ginzburg

Blog pequeno, sem ligações com editoras, seja comerciais ou fraternas, garante uma certa independência. Ao mesmo tempo em que eu não recebo livros, fico à vontade para ler o que eu quiser.

Nem é intenção do blog se tornar um desses canais que vivem a falar dos mesmo livros, exibindo montanhas de títulos que mais servem de propaganda do que para a leitura. Nem disfarçar independência e escrever apenas sobre livros de poucas editoras – sempre as mesmas nas postagens.

Estamos bem, o blog e eu, do jeito que caminhamos. Leio o que quero. Às vezes, é um livro recém-lançado, outras vezes, são livros em catálogo. Vez ou outra, um autor ou editora se interessa pelo trabalho do blog e, por iniciativa própria, envia um exemplar. Leio sempre e indico ao leitor do blog o mimo recebido.

Leio o que quero significa ler títulos de editoras diversas, não só das grandes e que dominam o mercado. Leio independentes, autores que estão ligados a casas pequenas, leio o que me interessa. Muito blog se posta como independente, mas uma passada rápida pelos textos mostra resenhas de livros de somente duas ou três editoras. Sei.

Enfim, tudo isso para dizer que o blog não caiu no hipsterismo e não leu os livros do norueguês Karl Ove Knausgard. Sua série memorialística Minha Luta virou fenômeno no mundo inteiro, e o Brasil mergulhou de olhos fechados.

Dos seis livros previstos, três já foram lançados. Não é leitura fácil. Cada livro tem em média 500-600 páginas, o que daria, ao final, um tijolaço de quase 4.000 páginas. Independentemente do tamanho, a questão é que não vale todo esse barulho.

Não consegui passar da centésima página do primeiro volume, “A Morte do Pai” (Companhia das Letras). É chato. Enfadonho.

Pedro Nava fez muito melhor na série de sete livros memorialísticos. Aposte nele e esqueça todo o hipsterismo em volta do norueguês.

Na verdade, o objetivo deste post é indicar dois livros que fazem muito mais pela memória do que a viagem pretensiosa de Knausgard. Ainda que de formatos e gêneros diferentes, esses dois títulos traduzem a memória em literatura. Mais. São muitíssimo bem escritos.

42888121O primeiro é “Sete Anos Bons” (Rocco), do israelense Etgar Keret. O livro é uma coletânea de crônicas em que o autor faz um recorte de sua vida, os sete anos do título, do nascimento do seu filho à morte do pai, após um período longo de tratamento médico.

Poucos escrevem tão bem quanto Keret atualmente. Bem humorado, conciso, com domínio da técnica – o que se percebe com o muito que ele oferece em tão pouco espaço -, o israelense não se farta de rir de si mesmo, de tratar de política no meio de uma relato familiar, de relembrar os percalços vividos por seu pai e das dificuldades de cuidar do seu filho recém-nascido.

O leitor acompanha esses sete anos por viagens para promover seus livros e deslocamentos para hospitais e escolas. Estamos no cotidiano do escritor, com caminho aberto para refletir sobre a guerra no Oriente Médio, antissemitismo e antissionismo, relatos encharcados de diálogos deliciosos entre pai e filho.

É um livro curto (191 páginas), para ser lido de uma vez só, pois impossível parar.

“E apenas uma semana atrás, em uma festa literária na Polônia, alguém na plateia perguntou-me se eu não tinha vergonha de ser judeu. Dei uma resposta lógica e racional que não era nem um pouco emocional. A plateia, que ouvira com atenção, aplaudiu. Mais tarde, porém, em meu quarto de hotel, tive dificuldade para dormir.”

*****

pequenasO segundo livro que trata de memórias é “As Pequenas Virtudes” (Cosac Naify), de Natalia Ginzburg. O trabalho memorialístico da escritora italiano é embaçado às vezes pela ficção, outras pelo tom ensaístico.

Neste volume, assumidamente não ficcional – é a primeira vez que a autora adota o pronome eu -, Natalia caminha pelo ensaio e a autobiografia. São 11 textos, que tratam do ofício do escritor, da guerra, da família.

Um dos pontos altos é o perfil que escreveu do italiano Cesare Pavese, “Retrato de um Amigo”, que deve ser lido e relido. Fora dos padrões de um texto biográfico, Natalia abre inúmeras portas para a criação literária.

Cada peça do volume cativa o leitor por meios dos escaninhos que Natalia resolve mexer. O tom melancólico domina seus textos, regados pela desilusão de quem acabara de ultrapassar a 2ª Guerra e todo o horror causado.

O livro é de 1962 e a reflexão do pós-guerra incomoda. Pois há sossego onde talvez não deveria haver. Natalia oferece uma interpretação soberba da vida. Por isso, o excesso de trechos selecionados a seguir.

“Não nos curaremos nunca desta guerra. É inútil. Jamais seremos gente tranquila, gente que pensa e estuda e modela sua vida em paz. Vejam o que aconteceu com nossas casas. Vejam o que aconteceu com a gente. Nunca vamos ser gente sossegada.”

“Há certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. Nossa existência se desenvolve segundo leis antigas e imutáveis, segundo uma cadência própria, uniforme e antiga. Os sonhos nunca se realizam, e assim que os vemos em frangalhos compreendemos subitamente que as alegrias maiores de nossa vida estão fora da realidade. Assim que os vemos em pedaços, nos consumimos de saudade pelo tempo em que ferviam em nós. Nossa sorte transcorre nessa alternância de esperanças e nostalgias.”

“Na época, eu tinha fé num futuro fácil e feliz, rico de desejos satisfeitos, de experiências e de conquistas em comum. Mas aquele era o tempo melhor da minha vida, e só agora, que me escapou para sempre, só agora eu sei.”

“A natureza essencial da cidade é a melancolia: o rio, perdendo-se na distância, evapora num horizonte de névoas violáceas que faz pensar no pôr do sol, ainda que seja meio-dia; e em toda parte se respira aquele mesmo cheiro abafado e laborioso de fuligem e se escuta um apito de trem.”

“Se lhe recordo aquele nosso antigo passeio pela via Nazionale, ele diz que se lembra, mas eu sei que está mentindo e não se lembra de anda; às vezes me pergunto se éramos nós, aquelas duas pessoas, quase vinte anos atrás pela via Nazionale; duas pessoas que conversaram tão gentilmente, civilizadamente, no sol que se punha; que talvez tenham falado um pouco de tudo, e de nada; dois amáveis conversadores, dois jovens intelectuais a passeio; tão jovens, tão educados, tão distraídos, tão dispostos a fazer um do outro um juízo distraidamente benévolo; tão dispostos a despedir-se um do outro para sempre, naquele pôr do sol, naquela esquina de rua.”

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Sinapses

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