Colaboração, Comentário, Ficção, França

Uma peça de neurose racial

Por Dolores Mendes

Um livro inexplicável. Assim a crítica se referia a “Camp de Saints” em 1973, quando seu autor, Jean Raspail, decidiu investir numa ideia até então ficcional de que um dia milhões de estropiados dos países subdesenvolvidos embarcariam em velhos navios para bater às portas do paraíso do homem branco: a Europa.

147820O romance, que em português chama-se “O Campo dos Santos” (Ediouro, fora de catálogo), faz referência ao Apocalipse de São João Evangelista no Novo Testamento – em Portugal, o livro recebeu o título de “Mortos: Duzentos Milhões – Todos Nós”.

No texto, São João narra revelações que foram feitas a ele após a morte de Cristo e traz em suas “visões proféticas” a liberação da ira de Deus.

 

“Quando a primeira trombeta soa, um dilúvio de granizo e fogo destrói um terço da Terra. Com a segunda trombeta, um terço das criaturas que vivem no mar são destruídos. Na terceira, uma estrela cai do céu, eliminando as águas. Uma quarta destrói um terço do sol, a lua e as estrelas. Na quinta, enxames de gafanhotos e escorpiões caem sobre os homens e os torturam durante cinco meses. A sexta trombeta soa e um terço dos homens são exterminados.”

Raspail foi duramente criticado por escrever um livro com ares de tragédia, em que milhões de refugiados deixam suas pátrias, cansados da miséria para tentar vida nova em países europeus. O governo francês, o maior ameaçado, tenta manter no mar os esfomeados, mandando-lhes comida e remédio. As outras nações ignoram o assunto e os políticos não sabem o que fazer diante da ameaça de invasão. O povo se desespera e a imprensa rapidamente se veste de um nacionalismo pequeno burguês indescritível.

As críticas feitas a Raspail davam conta de que “Camp des Saints” não era uma antologia comum de opiniões ruins, mas uma autêntica peça de neurose racial com base no estudo de registo lexical associando a figura do exterior com a de excrementos ou ratos ou monstros.

Mas o autor não se intimidou. Em 2011, ele disse em entrevista ao jornal “Le Fígaro”: “ É um livro inexplicável, escrito há quase 40 anos, quando o problema da imigração não existia mais, não sei o que me passou pela cabeça, mas não retiro nada. Nem um pingo. Estou muito contente por ter escrito esse romance no auge da vida e crenças. Esse livro é impetuoso, desesperado, sem dúvida, eu não poderia repetir hoje, mas eu provavelmente teria a mesma raiva. É um livro para além de todos os meus outros escritos”.

O jornalista e historiador Henri Amouroux , citado pelo próprio Jean Raspail, teria exclamado depois de ler o romance: “Oh, meu Deus, eu nunca vi um profeta em minha vida, você é o primeiro!”.

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