Brasil, Comentário, Memórias

Ainda estou aqui

Sim, ainda estou aqui.

Uso o título do novo livro de Marcelo Rubens Paiva para abrir o post que marca a volta às atividades do blog depois de um pequeno recesso.

livro_ainda_estou_aquiNesse hiato, o ritmo de leitura diminuiu, e os livros ficaram restritos a dois: “Ainda Estou Aqui” (Alfaguara) e “O Vento que Arrasa” (CosacNaify), da argentina Selva Almada.

Deixemos o belo livro de Almada para outra oportunidade. Assim como a atual leitura do blog, “Fantasma Sai de Cena”, de Philip Roth, reflete um pouco o momento pelo qual passa o autor do blog, o livro de Marcelo Rubens Paiva também encontra eco nesta nova fase.

Claro, nem de longe posso comparar com o que aconteceu e o que acontece com o autor do livro, temas destas memórias, a saber: a reconstituição da morte de seu pai, Rubens Paiva, pela ditadura, e a doença que atualmente acomete sua mãe, Eunice Paiva – Alzheimer.

Mas a forma como ele trata dos assuntos, sem o vitimismo que tanto é caro ao Brasil hoje – da política ao futebol -, me fez encontrar no Marcelo Rubens Paiva um pouco da resistência que hoje me custa tanto.

O livro caminha pelos dois temas – a morte do pai e a vida da mãe. Com os documentos liberados pelo governo federal, foi possível traçar o caminho de Rubens Paiva, da sua retirada de casa ao corpo desaparecido. Falta de informações, segredos e mentiras marcaram a rota da família.

A mãe de MRP se redescobre profissionalmente e se transforma em uma advogada atuante, principalmente nas questões indígenas. Mas o ponto principal do livro é tratar da doença que a domina atualmente.

O escritor descreve consultas, situações em que a doença se torna determinante – lembranças que não vem, esquecimentos que a fazem vulnerável. Sem provocar piedade, o livro é uma potente forma de fazer a memória vir à tona.

Se em “Feliz Ano Velho” (Alfaguara, relançado) Marcelo Rubens Paiva traduzia sua juventude vista sobre uma cadeira de rodas, agora, 30 anos depois, estamos diante de um homem maduro, membro de uma família que sobreviveu a tragédias e que continua a contar sua história.

O livro pode até ser comovente, e é em vários momentos, mas o que lemos é um relato de coragem e persistência, num país que pouco respeitava a liberdade e que ainda procura se livrar de um passado nefasto.

*****

“Naquela tarde que pegamos o atestado de óbito, em 1996, vi minha mãe então chorar como nunca fizera antes. Era um urro. Não tinha lágrimas. Como se um monstro invisível saísse de sua boca: uma alma. Um urro grave, longo, ininterrupto. Como se há muito ela quisesse expelir. Pela primeira vez, me deixou falar, sem me interromper. Pela primeira vez, na minha frente, chorou tudo o que havia segurado, tudo o que reprimiu, tudo o que quis. Foi um choro de vinte e cinco anos em minutos. O rompimento de uma represa.”

 

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2 comentários em “Ainda estou aqui”

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