Comentário, HQ, Suíça

“Pílulas Azuis”: sobre como fazer uma obra-prima

A editora Nemo vem fazendo um trabalho muito interessante na publicação de HQs adultas. Recentemente, escrevi sobre três títulos imperdíveis, daqueles que mesmo os que não são muito afeitos ao gênero deveriam ler: “O Muro”, “O Mundo de Aisha” e “Uma Metamorfose Iraniana”.

pilulas-azuis-frederik-peeters-editora-nemoAgora, por indicação do escritor Ricardo Lísias, fui ler “Pílulas Azuis”, do suíço Frederik Peeters, autor também de “Castelo de Areia” (Tordesilhas) e da série “Aama” (Nemo). Aliás, recomendo um texto que Lísias escreveu para a revista eletrônica “Peixe Elétrico”, que trata da HQ, além de outros temas.

Este “Pílulas Azuis” reforça o ótimo de trabalho de seleção da Nemo. Dificilmente outra HQ irá superar este lançamento em 2015.

A HQ carrega tons autobiográficos ao contar a história de Peeters, quadrinista que conhece Cati e por quem logo se apaixona. Ele fica sabendo que sua namorada tem um filho pequeno e ambos carregam o vírus da Aids.

Toda em p&b, com traços que alternam closes e ambientação, a HQ mergulha na relação do casal. A doença vai guiar o relacionamento. Medo, remédios para mãe e filho, visitas ao médico – um especialista com posições que chocam quem não está familiarizado com a condição -, sexo, paternidade, futuro, Peeters vai tratando desses temas com intensa realidade, sem reduzir as dúvidas dos personagens.

20150808124201691176uSem discurso, “Pílulas Azuis” também usa a história para tratar do preconceito com o portador do vírus e de como é possível conviver e viver – basta tomar certos cuidados que tudo é possível, como atesta o médico.

Ao longo da trama, a relação dos dois vai amadurecendo, ao mesmo tempo em que vão lidando com a doença com mais intimidade. Chegarão a ter um filho, como casais que não têm que conviver com o vírus.

Ao final, Peeters faz um post-scriptum com sua família, a mulher, o filho, agora com 16 anos, e a filha mais nova, de 9 anos. Como num documentário, respondem perguntas de Peeters e falam da doença, das relações sociais e do impacto da HQ na vida deles.

Delicada, mas vigorosa ao retratar um cenário tão real sem piedade gratuita, Peeters entrega uma obra potente, corajosa e que merece um lugar entre as grandes HQs já feitas.

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