Entrevista, Estados Unidos, Relatos de viagem

Viagem pelos caminhos mais perigosos do planeta

Muitos já viajaram pelo mundo, deram voltas ao redor do globo, conheceram lugares exóticos. Mas Carl Hoffman se enveredou por uma viagem pelo mundo que o difere daqueles que embarcam em aviões com passaportes: ele preferiu conhecer o mundo por meio dos mais perigosos trens, ônibus, aviões e barcos.

“Era uma viagem bruta, que me despojava de tudo até a medula, e me despia das ansiedades restantes. Quando viajamos, imaginamos deixar para trás o que éramos antes. Mas a fome, o cansaço, as dores e os sofrimentos da vida num assento de ônibus apenas nos mostram quem de fato somos – nunca se escapa de si mesmo. E isso não é pouca coisa.”

Hoffman assim avalia sua empreitada enquanto viaja num ônibus de Rio Branco a Porto Velho. Ele planejava viajar num barco que navega no rio Amazonas e costuma provocar acidentes em que poucos sobrevivem.

42111589Esse relato, como outros 11, estão no livro “Expresso Lunático” (Record), que o jornalista norte-americano escreveu após percorrer América Latina, Ásia e África, numa viagem em que buscou os meios de transporte mais perigosos para se locomover.

Jatos de fabricação cubana, rotas de embarcações que costumam afundam, ferrovias famosas por seus acidentes, a viagem de Hoffman é meticulosa: somente os caminhos mais perigosos entram no trajeto. Para o colaborador da “National Geographic Traveler”, somente assim é possível conhecer o mundo real. Tem como guia o escritor britânico Lawrence Osborne, autor de “The Naked Tourist”:

“Viajar é em si um conceito obsoleto (…) a viagem tem sido abrangentemente substituída pelo turismo (…) e o viajante moderno não tem mais para onde ir”.

Hoffman vai cruzar selvas dominadas por guerrilhas, enfrentar as variações climáticas mais extremas do planeta, experimentar todo tipo de comida típica (como a sopa de intestino que comeu na Indonésia) e conhecer os mais estranhos e comuns tipos pelo mundo. Por exemplo:

“Tomara o trem em Bamako não apenas pela péssima fama, mas porque me conduziria a Dacar, local de onde, seis anos antes, um navio chamado MV Le Joola zarpara – viagem que resultaria no segundo pior desastre marítimo da história (…) Não era possível matar 1.800 pessoas sem ser notado, mesmo no Senegal.”

Este livro está a milhares de quilômetros de distância de um modelo tipo “Comer, Rezar, Amar”. Hoffman não fez a viagem porque precisava se encontrar, se redescobrir. Nada disso. Ele viajou porque quis viajar, e isso transpira pelas páginas. Nada de achados, de filosofia barata. O que lemos é um relato cru, vigoroso, sem amarras e mensagens morais por trás.

Senegal, Mali, China, Mongólia, Bangladesh, Índia, Afeganistão, Indonésia, Quênia, Tanzânia, Brasil e Equador são alguns dos países visitados por Hoffman. Para acompanhá-lo num trecho da viagem no Peru, Hoffman chamou sua filha de 17 anos. Ela ficou com o pai por cinco dias: “Eu gostaria que ela pudesse ter ficado mais tempo, pois poderíamos ter mergulhado mais profundamente no mundo juntos. Para abrir os olhos de seus filhos, para lhes dar experiências que nunca vão esquecer – o que poderia ser melhor que isso?”, disse Hoffman em entrevista ao blog.

Carl Hoffman em uma travessia no Equador | Foto: Arquivo pessoal
Carl Hoffman em uma travessia no Equador | Foto: Arquivo pessoal
Na conversa, Hoffman fala sobre a viagem, os encontros e desafios que teve e sobre seu novo livro, “Savage Harvest” – a Record, procurada, não se manifestou sobre esse lançamento.

*****

No livro, você escreve que paga para saciar sua curiosidade sobre o mundo. Após o fim da jornada, você acha que o preço valeu a pena?
Sim, claro. Foi uma jornada notável em todos os sentidos. Ficar em casa, acomodado em sua bolha, o que você ganha com isso? Você não pode conhecer o mundo, compreendê-lo, senti-lo, sem vê-lo e senti-lo e conhecê-lo em primeira mão. Mesmo lendo – e leitura é a próxima melhor coisa, uma coisa maravilhosa – não é suficiente. E qual foi o preço? Às vezes, um leve desconforto, um pouco de incerteza sobre onde minha cabeça iria deitar na noite seguinte. Isso não é nada, essas coisas não são custos, são benefícios.

Você acha que o título do livro dá o tom da sua viagem?
Não, foi só uma hipérbole. Não havia nenhuma loucura presente, a menos que seja loucura viajar para tentar entender o mundo. O que eu fiz que de loucura? Não saltei picos nem de aviões, não escalei montanha nem mergulhei em rios selvagens. Somente comprei bilhetes de ônibus regulares, barcos, trens e aviões, assim como todas as pessoas normais pelo mundo. O livro não é somente uma história sobre uma aventura louca, mas uma história sobre a graça, hospitalidade e beleza que encontrei em tantas pessoas, mesmo mergulhadas na pobreza.

Que mundo surgiu para você após a viagem?
Eu vejo o mundo maior do que nunca, rico e complexo, mas também o vejo como acessível. Nós temos muita sorte neste momento da história, podemos ir a qualquer lugar em um tempo muito curto por um custo muito pequeno. Em uma manhã, podemos tomar um café no Rio e alguns dias depois podemos estar montados em camelos, com beduínos no Empty Quarter [o maior deserto de areia do mundo, na península arábica] ou viajar durante a noite em um trem na África. E tão pouco do mundo está fora dos limites por causa de conflitos. Outra coisa importante é que as ideias tradicionais de fronteiras são cada vez menos importantes. As pessoas estão em movimento, em todo o mundo. Indianos em Dubai, hondurenhos nos Estados Unidos, norte-africanos por toda a  Europa, eu vi essas pessoas, andei com elas durante a minha viagem para escrever o livro, pessoas que, no passado, talvez nunca tenham deixado sua pequena aldeia, mas que agora estão se movendo, mudando, seguindo a economia global de uma forma que não existia antes.

Você basicamente viajou por países do mundo em desenvolvimento. O que você esperava encontrar?
Eu pensei que haveria mais caos e perigo do que houve, realmente. Não encontrei muito. De qualquer forma, sua tolerância sobe. O que parece caótico no primeiro momento se torna na segunda vez algo natural, já esperado, comum. Acho que para mim o mais difícil não foi o caos, mas apenas topar com multidões, multidões contínuas, e a incapacidade de ter meu próprio espaço, e a solidão tranquila que vem com ele. Isso é riqueza – espaço.

Carl Hoffman no norte do Afeganistão | Foto: Arquivo pessoal
Carl Hoffman no norte do Afeganistão | Foto: Arquivo pessoal
Qual lugar o surpreendeu?
Nenhum lugar me surpreendeu muito. Fiquei surpreendido, sim, pela forma como as pessoas são generosas e curiosas em todos os lugares por onde passei. E, talvez, eu tenha ficado surpreso pela guerra que enfrentei constantemente entre estar nas multidões e querer ficar sozinho, entre ser atraído pelas pessoas e ter uma íntima e necessária solidão.

Você passou por lugares que o assustaram?
O único lugar que estava no meio do conflito era o Afeganistão, mas eu viajei pelo norte, que é – ou era então – bastante pacífico, aberto e acessível. Ainda assim, a guerra e seus efeitos estão visíveis em toda parte, e isso parece mais triste do que qualquer outra coisa. Triste porque você não é totalmente livre para ir a qualquer lugar e conhecer alguém, e tantas pessoas sofrem tanto. E, no entanto, mesmo no meio do sofrimento existe alegria e amor, o que é sempre encorajador.

84615780Após o seu livro, o que é possível fazer ainda com os relatos de viagens? Quais possibilidades restaram?
Após “Expresso Lunático”, comecei a trabalhar em outro livro, “Savage Harvest: A Tale of Cannibals, Colonialism and Michael Rockefeller’s Tragic Quest for Primitive Art” [o livro foi publicado em março de 2014 nos Estados Unidos]. Michael Rockefeller era o filho de 23 anos de Nelson Rockefeller, ex-governador de Nova York e herdeiro de uma das maiores fortunas do planeta, que desapareceu em uma região muito remota da Nova Guiné, que hoje é a Papua indonésia, em novembro de 1961. É uma maravilhosa e complexa história que exigiu viver com um grupo de antigos caçadores de cabeças e canibais em uma vila distante no meio de 26 mil quilômetros quadrados de pântano. Na verdade, foi muito mais desafiador do que qualquer coisa que eu fiz em “Expresso Lunático”.

Para você, quais os grandes autores de relatos de viagens?
Ah, são tantos. Eu amo Wilfred Thesiger, Tobias Schneebaum, V.S. Naipaul e Peter Fleming, e as grandes narrativas de navegação de Bernard Moitessier e Francis Chichester. De autores mais modernos, gosto do trabalho de Lawrence Osborne.

Você recomendaria esta viagem?
Todos devem decolar e mergulhar no mundo, se puderem

E agora, para onde você vai? O que você vai fazer?
Estou promovendo “Savage Harvest”. Em breve, vou viajar por algumas semanas para para a remota ilha de Pitcairn [território britânico ultramarino na Polinésia], onde os amotinados do [navio britânico] Bounty sumiram [no final do século 18]. Pensando em um outro livro…

*****

“Nas semanas que vinham adiante, aceleraria algo que começara, gradualmente, quilômetros antes. Procederia exatamente como meus parceiros de viagens e anfitriões. Se bebessem água da torneira em Mumbai, Kolkota e Bangladesh, também o faria. Se comprassem chá num ambulante na esquina, também o faria. Se comessem com os dedos, e mesmo que me fornecessem utensílios, comeria com os dedos. Ao agir dessa maneira, encorajava um derramamento de generosidade e curiosidade que nunca parou de me surpreender. Isso me abria portas e fazia com que me acolhessem. Partilhar da comida, do desconforto e dos riscos deles os fascinava e lhes dava uma poderosa confiança.”

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2 comentários em “Viagem pelos caminhos mais perigosos do planeta”

  1. Boa demais, Ricardo. Entrevista gostosa de ler, autor com ideias interessantes e relatos insólitos – ficou muito legal incluir trechos do livro no meio da entrevista. Dá vontade de sair correndo comprar o livro.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ele escreve muito bem. E as histórias que ele conta seriam hilárias se não fossem realidade. A gente nem tem ideia do que existe no mundo, e o livro é o relato desse lado da vida, uma viagem que praticamente ninguém quer fazer.

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