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Por dentro de “As Quatro Estações” – O livro do disco

O Legião Urbana e Renato Russo estão vivendo uma espécie de revisitação. Involuntária ou não, essa volta ao trabalho da banda, desta vez por meio dos livros, ajuda a entender a importância dela na época em que surgiu e como seu legado ainda surte efeito, seja em quem descobriu o grupo recentemente, seja no fã de longa data.

Na verdade, a banda nunca deixou de ser revista. Seus discos continuam vendendo, assim como continuam a sair versões remasterizadas. Renato Russo já apareceu em holograma. Suas músicas foram levadas à orquestra no Rock in Rio.

Sem contar a questão judicial, que coloca em disputa os outros dois integrantes do grupo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, e o filho de Renato Russo, que controla com mão de ferro e desproporcional a herança.

Da leva mais recente de livros que englobam o universo da banda, saíram “Memórias de um Legionário” (Mauad), de Dado Villa-Lobos, e “Só Por Hoje e Para Sempre” (Companhia das Letras), os diários de Renato Russo escritos numa clínica de reabilitação.

aa0b1996-4b58-46a1-9a09-719f05d442eeO mais interessante do conjunto é “As Quatro Estações” (Cobogó), parte da coleção O Livro do Disco da editora, que já lançou semelhantes de The Velvet Underground, Sonic Youth e Tom Zé, entre outros.

O volume trata do disco lançado em 1989 e que se tornaria o de maior sucesso da banda – são desse álbum hits como “Há Tempos”, “Pais e Filhos” e “Meninos e Meninas”. Escrito pelo jornalista e pesquisador Mariano Marovatto, o ensaio sobre “As Quatro Estações” recoloca o álbum em discussão.

Marovatto vai às origens da banda, passa rapidamente pelos discos anteriores e esmiuça seu alvo, faixa a faixa. Para entender cada etapa, o pesquisador mostra como a história da banda até então vai se incorporando ao disco, definindo a sonoridade e a poética – o rompimento com Brasília, o budismo, drogas, sucesso.

Em meio às digressões sobre a música, insere elementos pessoais, como a primeira vez em que teve contato com o disco, ainda na sua infância.

Bem pesquisado, o texto flui naturalmente e leva o leitor a revisitar o próprio passado – fã ou não, impossível ter vivido os anos 80 e 90 sem ter passado pela banda. Fatos marcantes da história do Legião Urbana, como o envolvimento de Renato Russo com drogas e álcool e o show em Brasília em 1987, ajudam a pontuar a concepção do álbum.

Para os fãs, uma informação das mais provocadoras é aquela em que conta ter recebido de Dado uma caixa com dezenas de CDs gravados durante as sessões em estúdio da banda. Para quem não é fã, resta a pesquisa sobre um disco que vendeu mais de 1 milhão e que de alguma forma marcou uma geração.

Marovatto é poeta também, autor de “Casa” e “Mulheres Feias sobre Patins” (ambos 7Letras). Pesquisou, para o volume “Poética” (Companhia das Letras), de Ana Cristina César, textos inéditos. Ele conversou com o blog sobre sua pesquisa para “As Quatro Estações” e a herança da banda. 

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O escritor e pesquisador Mariano Marovatto
O escritor e pesquisador Mariano Marovatto | Foto: Anastasia Lu

É possível contextualizar o nascimento de “As Quatro Estações”?
A geração que surgiu por conta dos festivais da canção na TV brasileira nos anos 60 passou a responder desde então não só às necessidades líricas de cada indivíduo brasileiro, mas também no seu modo de encarar o país. Forjou o intelecto e a educação sentimental de muita gente esse grupo coeso de Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo, Gal, Bethânia, Nara etc. Depois do AI-5, a TV, a política e “forças maiores” não deram chance para que cantores e compositores se unissem novamente e se transformassem em “formadores de opinião” com havia acontecido poucos anos antes. Há sim grandes movimentos de um artista só nos anos 70, como Raul, Rita em carreira solo, Secos & Molhados e alguns outros. A classe musical voltou a pensar de forma conjunta novamente nos anos 80. De fato, essa turma se reuniu muito mais por conta do dinheiro das gravadoras (que descobriram a mina de dinheiro que era o rock pós-punk brasileiro), do que, como aconteceu outrora, por conta da efervescência contracultural. Os tempos eram outros.

E por que a escolha de “As Quatro Estações” para a coleção?
Apesar da genialidade dos Titãs, os maiores inventores da geração, na minha humilde opinião, do som consistente dos Paralamas e outros tantos, em 1989, nas rádios de todo o país, Renato marca o seu território cantando: “Parece cocaína, mas é só tristeza / talvez tua cidade / muitos temores nascem do cansaço e da solidão / descompasso e desperdício / herdeiros são agora da virtude que perdemos. / Há tempos tive um sonho. Não me lembro”, e por aí vai. Há tempos não se ouvia nada tão liricamente vertiginoso de forma tão cuidadosamente cantada. Só pela primeira faixa do disco, “As Quatro Estações” já seria incontornável. O álbum é ao mesmo tempo o auge e o revés de toda a discografia do rock dos anos 80.

Você recua no tempo para falar dos problemas de saúde do Renato Russo, de fatos que marcaram o período da formação da banda e dos três primeiros discos. Sentiu necessidade desse recuo para falar do disco? Em que medida o que você recuperou foi determinante para chegar a “As Quatro Estações”?
A epifisiólise que Renato teve na adolescência foi, apesar da dor (e por conta dela também), um momento de reflexão e formação intelectual que se tornou extremamente definidor para o resto de sua vida. Praticamente um ano sem se mover em casa fez com que ele lesse os livros e escutasse os discos necessários, premeditasse e “estrategizasse” como deveria ser sua carreira de cantor, compositor e líder das multidões. Depois da doença ele cunhou o apelido Russo, formou o Aborto Elétrico, virou em seguida o trovador solitário e, com esses primeiros passos concluídos, criou a Legião Urbana, numa sequência de quatro anos, como se aquilo tivesse sido a sua própria universidade. Falar desse primeiro momento foi importantíssimo para afirmar que Renato, desde o início, não estava de brincadeira. Ele queria desde sempre ser o Renato Russo. Já falar dos três primeiros discos foi necessário para que se entendesse o modo de funcionamento e de criação da banda (e de Renato) até então e que n'”As Quatro Estações” foi descartado de propósito. Como ele mesmo disse “eu precisava tirar Brasília do meu sistema”. O disco é uma quebra – a mais relevante quebra de paradigmas da banda – e era necessário explicar em relação a exatamente o que Dado, Bonfá e Renato estavam indo contra.

A banda Legião Urbana em apresentação
A banda Legião Urbana em apresentação | Foto: Ricardo Junqueira

Você acrescentou informações pessoais para compor o ensaio – a primeira vez que ouviu o disco, as letras que chegavam quando era criança. O livro então se transforma um pouco num relato memorialístico. O disco provocou essa interlocução entre gêneros ou esse era o plano?
É impossível falar de canção sem recobrar o que ela produz em você. Como disse, a canção responde aos nossos lirismos – e da forma mais plena e instantânea. Cada uma de todas as canções do mundo tem lugar na história de alguém. Toda canção é uma memória, toda memória é uma história para contar. Vide o documentário “Canções”, do Eduardo Coutinho, por exemplo. A Legião Urbana, além de fazer parte do lirismo de muita gente, é parte da história cultural brasileira. Foi impossível fugir do meu próprio testemunho. E foi um jeito de dizer que eu gosto mesmo [ele enfatiza] da cabeça e da voz do Renato e da forma como a Legião desenvolveu o seu jeito de tocar.

Como foi para você voltar à infância e escrever sobre o disco?
Foi um prazer. Voltar à infância é o que a gente sempre tenta fazer quando está criando, né? E foi bacana recobrar as memórias e perceber que a Legião Urbana estava lá sempre, mesmo quando alheia à minha própria vontade.

O livro faz parte de uma coleção que retrata álbuns fundamentais para a música. Do Brasil, esse é o quarto, depois de Tom Zé, Jorge Ben Jor e O Rappa. Quais outros álbuns você incluiria nessa lista?
Eu acho que todo mundo deveria escrever um ensaio sobre seu disco predileto, partindo de suas próprias referências e estímulos. Então, nesse modo de pensar, caberiam todos os discos brasileiros possíveis. Eu, de acordo com minhas escolhas afetivas, adoraria que tivesse algum do Caetano, um disco do Zumbi do Mato (que quando digo que é a banda mais importante dos anos 90-2000 do Rio de Janeiro as pessoas acham graça, mas eu estou falando sério), um dos discos do Arrigo [Barnabé], o “Canções Praieiras” do Dorival [Caymmi], o primeiro LP de Tonico e Tinoco e alguns outros. Se ninguém escrever um desses, corre o risco de eu mesmo ir lá e fazer outro!

CapaLU4Você ainda ouve “As Quatro Estações”? Qual sua relação com ele?
Ouço, claro. Agora, minha relação com ele é a mais cúmplice possível depois desse livro. O disco me acompanhou em uma série de momentos importantes da vida e vai até o fim comigo. Assim como os Beatles, o Caetano e outros mais.

Uma das críticas feitas ao álbum na época do lançamento é que o disco consolidava Renato Russo como um messias. Suas músicas seriam cantadas a partir de então por um público cada vez mais fiel e devoto. Como você avalia essa relação, do messianismo com aquelas músicas?
É um disco que fala de amor e de busca espiritual e que mistura os dois assuntos de um jeito quase impossível de reverter. E o que todo mundo busca é o amor e essa “paz espiritual”, né? Porque disseram há 2.000 anos, e tornam a repetir diariamente, que são esses dois assuntos que resolvem todos os problemas dos seres humanos. O problema é que tudo tem seu fim, que tudo muda, que as angústias podem não cessar, que, como diria Buda via Renato, “toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”. O messias é sempre um charlatão no fim das contas porque o apocalipse não vem porque na realidade, ele acontece todos os dias. Se tivesse suprido todas as necessidades messiânicas com “As Quatro Estações”, o grupo teria dito “missão cumprida” e acabaria ali. Mas depois veio o “V”, desdizendo, analiticamente, sobriamente, tudo aquilo que o Renato discursou n'”As Quatro Estações”. Inclusive a coleção deveria ter um disco sobre o “V”, aliás.

Renato Russo gostava de lembrar que o álbum parecia uma coletânea de singles – praticamente todas as músicas tocaram nas rádios. Como você vê o disco hoje? Ele envelheceu bem?
Envelheceu muito bem porque não se repetiu, não seguiu ordens de ninguém, foi feito com extrema autenticidade.

E a banda, como você vê hoje, depois de quase 20 anos do fim?
O Dado e o Bonfá envelheceram bem, pelas escolhas possíveis que foram feitas depois da morte do Renato. Fizeram o melhor que poderia ter sido feito, e continuam fazendo. E a banda ficará aí para sempre.

“Pais e Filhos” e “Monte Castelo” fizeram bem ou mal para o disco? Pergunto isso por conta do refrão distorcido da primeira e a letra romântica da segunda. Além disso, eram músicas sempre muito pedidas por fãs e ouvintes de forma geral.
Fizeram bem e fizeram o disco vender muito. Imaginemos “As Quatro Estações” sem essas canções. Impossível, perderia muito da sua identidade. São belíssimos exemplos de canções extremamente populares com um conteúdo extremamente instigante. Os refrões são redentores, mas cada ouvinte tem um verso predileto nessas canções que corresponde exatamente a alguma ânsia do seu lirismo. Esse é o grande lance.

Dos CDs que você recebeu do Dado, há material que pode ser lançado?
Logo depois do lançamento de “Uma Outra Estação”, Dado e Bonfá falaram abertamente da ideia de recuperar o material inédito de estúdio da banda. Não sei como está esse assunto hoje em dia, juridicamente falando. Tem muito outtake bonito, muita demo historicamente importante, mas grande parte do material inédito e bem acabado já foi lançado no próprio “Uma Outra Estação”. Existe uma versão estranhíssima de “Juízo Final” que sobrou do “Dois”, por exemplo que vale ser recobrada. Vamos aguardar os próximos movimentos da dupla.

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“Os quatro primeiros discos da Legião Urbana funcionam como pares. Se ‘Que País É Este’ é a afirmação do no future apresentado em ‘Legião Urbana’, ‘As Quatro Estações’ é a maturação dos apontamentos surgidos no repertório carioca de ‘Dois. O quarto disco, no conceito de Renato, fecha um ciclo de quatro estações distintas. O budismo, muito caro ao discurso do álbum e que também serve ao texto deste livro, afirma no seu tatibitate que, assim como na natureza, os homens passam por quatro diferentes períodos, compatíveis com as estações: formação, existência, declínio e vazio, ou seja, primavera, verão, outono e inverno.”

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5 thoughts on “Por dentro de “As Quatro Estações” – O livro do disco”

  1. Entrevista excelente, parabéns. “As Quatro Estações” é irretocável. “Parece cocaína/ mas é só tristeza/ talvez tua cidade” é um abre-alas sinistro para o cancioneiro brasileiro.

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  2. Acharia muito interessante um livro sobre o álbum “V”, que é um dos melhores na minha opinião. Gostaria de conhecer a história por trás de Metal Contra As Nuvens por exemplo. Para mim o Quatro Estações traz aquela sensação de acharmos muitos “hits” em um disco só e pensar como isso foi possível. Muito boa entrevista.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado, Rodrigo. Outros amigos falaram a mesma coisa para mim, que o V também merecia um livro – o próprio autor respondeu sobre isso. E, realmente, pensar que um disco tem 11 músicas e praticamente todas foram hits é algo impensável hoje.

      Curtido por 1 pessoa

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