Brasil, Comentário, Crônicas

A São Paulo de Bortolotto

10551047_10153140591137905_7903959109163287605_nMário Bortolotto é uma espécie de faz-tudo das artes. Ator, músico, escritor, dramaturgo, diretor, administrador de teatro e dono de bar. Tudo junto, tudo que ajuda a ilustrar o personagem que se criou em torno do dono do perfil.

A coletânea “Esse Tal de Amor e Outros Sentimentos Cruéis” (Reformatório)* ilumina mais o autor. O conjunto traz crônicas, contos e coleções de aforismos, que misturam vida pessoal com seus próprios personagens e a vida madrugada adentro de São Paulo.

Os temas fincam a bandeira num tipo: solitário, que vive na noite, bebe monstruosamente, gosta de música e livros e tem o porto seguro nos amigos. Outros ficam no entorno, com pequenas variações – ele tenta vender regularmente a imagem de perdedor, o loser americano, como o texto biográfico explica na orelha: “De madrugada, quando não está no bar, gosta de ficar sentado na cozinha jogando Playstation e bebendo uísque”.

É irregular. A primeira parte traz os melhores textos, que alcança o auge com suas versões sobre o pai (“Zé Branco”), a mãe (“Dona Maria”) e o tio (“Tio Miguel”) – coisa bonita, que corta na carne, seja autobiográfica ou não.

Depois, perde a mão e cai em crônicas amorosas e de sonhos que não justificam a intensidade da primeira parte. Os textos ficam pueris, esvaziados da carga emocional que tanto precisam, tratando-se da obra do autor. Injeta um “coitadismo” desnecessário.

Da mesma forma, os aforismos, textos e diálogos curtos espalhados pelo livro parecem mais um monólogo de mesa de bar, com o dono da palavra já alterado. Alguns se pretendem piadas, mas não funcionam.

Se você descartar os textos mais sentimentais e esses aforismos, vai encontrar personagens saborosos, como o dono da loja de discos em sua Londrina natal, uma bela homenagem, na medida.

O texto de Bortolotto é uma mistura de Bukowski com Reinaldo Moraes – na temática, não na prosa – e falta a ele essa identidade que os outros dois autores possuem. Encontrar esse rumo é o que falta, pois as histórias ele já tem.

Uma revisão também cairia bem, a propósito.

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* O livro foi enviado ao blog pela editora

 

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