Comentário, Ficção, Japão

O Japão por meio do sexo e da morte, sem ensaios e preliminares

Dois livros escritos por autores japoneses na primeira metade do século 20 são capazes de transformar a obra de Haruki Murakami em algo similar aos títulos de YA (jovens adultos). “Vita Sexualis”, de Ogai Mori, e “Declínio de um Homem”, de Osamu Dazai, levam a um extremo mais contundente temas que são caros aos três. A saber, sexo, deslocamento na sociedade, morte.

Os dois livros foram lançados pela Estação Liberdade e seguem o padrão de qualidade da editora para os títulos traduzidos do japonês: notas explicativas, que ajudam a entender o contexto, e os marcadores, que reproduzem as capas.

capa-vita-sexualisLançado em 1909, “Vita Sexualis” chegou a ser proibido de circular no Japão devido ao conteúdo sexual. Mori foi reprimido pessoalmente pelo ministro da Guerra japonês. O impressionante é que não há no livro descrições explícitas – estamos apenas no campo das sugestões, sem exposição.

Acompanhamos o desenvolvimento sexual de Shizuka Kanai, espécie de alter ego do autor, por meio de suas experiências, desde sua juventude.

Só que não lemos sobre atos, mas sobre costumes, valores, libido e reflexão que vai além do sexo. Como no trecho abaixo.

“Não há nada mais fácil que explicar religião como se fosse um desejo sexual. É comum alguém dizer que está casado com Cristo. Entre as freiras louvadas como santas, muitas são as que, na prática, estavam apenas demonstrando seu desejo sexual na direção do perverse. E, entre aqueles que se tornaram mártires, há tanto sadists quando masochists. Colocando-se as lentes da lascívia, veremos que a força-motriz por trás de toda a ação humana reside tão somente no desejo sexual.”

É o Japão do início do século 20, que começa a enfrentar o choque de civilizações.

1424863293Choque esse que já se encontra em estado avançado quando Dazai lançou seu “Declínio de um Homem”, em 1948. Neste, o leitor vai mergulhar na vida de Yozo, em três cadernos que captam fases do desenvolvimento do personagem.

Aqui, o tema gira em torno do deslocamento, uma espécie de sentimento de inadequação com a sociedade em que Yozo vive. Ele que se disfarça de palhaço, como a formar um escudo que o protege da interação – ele insiste em não ser descoberto.

Esse é o papel que lhe cabe no primeiro caderno, focado no período escolar de Yozo. Ser o palhaço da turma significa para ele muito mais um passaporte para o deixarem quieto do que para a aceitação no grupo – o que ele não quer.

Os dois cadernos seguintes captam Yozo na universidade e na vida adulta. A depressão do personagem se aprofunda, espelho do autor, que se matou às vésperas de completar 39 anos.

O personagem perde um pouco do humor ingênuo, quase imperceptível, do primeiro caderno. As digressões aumentam e envolvem, além de sexo, política. A morte surge no horizonte.

É o terceiro caderno que termina de delinear Yozo. Bebidas e drogas acabam por degradar o personagem, já tomado pela depressão.

A relação insinuada no início deste texto com a obra de Murakami se baseia nos assuntos pertinentes entre esses autores japoneses. O autor de “Norwegian Wood” imprime um tom mais moderno, uma representação do Japão contemporâneo em seus personagens, e seria essa a diferença mais contundente com os temas de Dazai e Mori.

Sexo, solidão e depressão rondam esses autores. Mas o que lemos em “Vita Sexualis” e “Declínio de um Homem”, em volumes mais enxutos e descrições precisas, carrega mais potência e profundidade do que os catataus de Murakami.

Não há pretensão em reduzir o trabalho de Murakami, mas quando se lê os dois livros que motivaram este texto fica claro como Mori e Dazai diziam muito  em espaço muito mais enxuto. Somos expostos a um vigor sem prolixidades, sem digressões exaustivas, invencionices. É um jab certeiro, sem ensaios e preliminares.

“Na manhã seguinte, quando acordei e levantei num salto, eu voltara a ser o palhaço leviano. É que os covardes temem até mesmo a felicidade. Machucam-se com algodão. Podem se ferir com a própria felicidade. Impaciente para deixá-la logo, antes que isso acontecesse, abri ao meu redor minha cortina de fumaça farsante”

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