Brasil, Entrevista, Memórias

JB: “Descarto afetação e picaretagens, como chamar uma comida de gourmet”

Feira existe em quase toda grande cidade, e na maior parte das vezes tem o mesmo perfil. Hortifrútis frescos, carnes, secos e molhados, pasteis e uma espécie de minimercado. Com pequenas variações, essa é a composição básica.

O que pouco gente sabe é o que acontece atrás das barracas. Da chegada dos produtos à cidade, passando pela preparação das bancas até o transcorrer do dia, esse é um universo tão próprio quanto desconhecido.

Mas Julio Bernardo, conhecido como JB ou Julinho e que comanda o blog Boteco do JB, deu um jeito nisso. Ele cresceu numa família de feirantes, na Lapa, zona oeste de São Paulo. Seu pai tinha uma banca de frango e miúdos de boi – era bucheiro – em Osasco. Conviveu nesse universo até depois de o pai ter trocado o negócio por um entreposto. JB continuou a tocar a banca na feira. Depois, largou o negócio e abriu um restaurante que funcionava como bufê, sem balança e com forno a lenha.

13721_ggEm “Dias de Feira” (Companhia das Letras), JB conta as memórias da época da feira, do tempo em que cresceu vendo a família trabalhar na barraca. Relata os afetos com seus pais de forma tocante. E descreve como funciona o universo particular das feiras.

Ficamos sabendo como funciona a hierarquia nas feiras, como se definem as posições dos bucheiros, pasteleiros e demais bancas. Quem pode cometer um deslize e quem não pode – e qual o preço a ser pago pelo erro. Tem bom humor, mas também muita crueza.

Drogas, muita bebida, bandidos e gente honesta, tudo isso misturado num ambiente competitivo e que é gerido por regras próprias. O livro não esconde nada. Muito menos os truques que alguns feirantes usam para enganar a freguesia.

Já no ambiente digital, seus textos são dominados por incursões por bares e restaurantes de São Paulo, onde busca bons sabores e receitas que considera perfeitas.

Os posts do blog carregam uma certa acidez, assim como nos perfis que mantém no Facebook, Instagram [@botecodojb] e YouTube – publicados quando encontra a receita e o local certos ou faz referência a outros que não funcionam.

As críticas já o fazem ser um dos mais polêmicos da rede. Alguns chefs o temem, outros devolvem a provocação. O fato é que todos os leem.

Ele está preparando um novo livro, este de crônicas etílicas. Frequentemente, posta imagens e comentários nas contas das redes sociais sobre os lugares, pratos e drinques – ele faz suas refeições fora de casa praticamente todos os dias.

JB conversou com o blog. Falou dos seus pais, das feiras e do seu lado polêmico – mas quem o conhece diz que ele é tímido e afável. Com o blog, foi extremamente atencioso. A seguir, a entrevista.

*****

Julio Bernardo, autor de "Dias de Feira"
Julio Bernardo, autor de “Dias de Feira”

O livro tem duas partes distintas. Na primeira, você foca nas feiras livres, nos personagens que você conheceu e o ambiente nesses lugares. Depois, seu foco é a família. Foi um desenvolvimento natural do livro ou foi algo planejado?
Foi super natural. A única coisa mais planejada foi o começo, pela necessidade de introduzir o leitor ao universo da feira livre. Depois, a escrita fluiu.

O cineasta Domingos de Oliveira disse certa vez que escrever é como enfiar uma faca no peito. Como foi escrever o livro para você?
Escrever esse livro foi um doloroso processo de resgate de memória. Estou com a faca encravada no peito até agora [o livro foi lançado em maio de 2014].

Você conta casos comprometedores entre os feirantes, como uso de drogas, tráfico, pequenos crimes e alcoolismo. Você teve algum receio em revelar esses fatos? Sofreu pressão?
Liguei o botão de foda-se e toquei o barco. Deu certo. Em nenhum momento sofri pressão alguma.

Você também não escondeu o problema dos seus pais com o alcoolismo. Como foi tratar dessa memória e colocá-la no livro?
Foi terapêutico. Relembrar de algumas passagens da vida dos meus pais me ajudou a entender melhor o porquê de eu beber tanto também.

Você ainda vai à feira? O que mudou nas feiras de hoje?
Tem feira na rua da casa onde moro. Vou toda semana. A grande mudança é que ela se adaptou ao tamanho das atuais famílias, bem menores. Exemplo: se eu tentasse comprar só duas laranjas nos anos 80, provável que o fruteiro nem me vendesse.

Qual o perfil de uma feira boa? O que ela deve ter e o que não pode ter?
Feira boa tem que ter fartura, frescor e bons preços. Não pode ser caro, de jeito nenhum. A feira é livre e do povo.

Feira ainda é o melhor lugar para fazer compras?
Depende muito do que você quer comprar e da feira em que se vai. Mas uma boa feira dá um cacete hortifrutigranjeiro em qualquer mercado, até hoje.

Banca de frutas em feira livre
Banca de frutas em feira livre

Você tem uma conta bem movimentada no Instagram, com quase 10 mil seguidores, além do blog. Qual sua relação com as redes sociais? O que vê de bom e ruim?
O meio pelo qual mais gosto de me manifestar é o blog. Vejo as outras mídias como sua extensão, mas me relaciono bem com todas, gosto delas. Acho que não existe mídia ruim, apenas mídia mal usada.

Numa entrevista à “Trip”, você disse que gosta de escrever sobre culinária, mas não se vê como crítico. Hoje, sobre quem você gosta de escrever?
Sim, me vejo mais como cronista culinário. Nunca foi minha idéia ser crítico gastronômico. E sempre preferi escrever sobre coisas, não sobre pessoas.

Suas opiniões sobre programas de TV, restaurantes da moda e chefs lhe rendem muita preocupação? Recebe ameaças, desafios? Ou você gosta de um bate-boca?
Preocupação alguma. O que importa para mim é o processo da escrita, sempre. Já recebi ameaças, sim, é a vida. Perdi a conta dos lugares onde não posso voltar, mas a verdade é que nem quero voltar mesmo… e não, não gosto de bater boca.

Quando você sai para almoçar ou jantar, o que você procura?
Procuro transformar a alimentação do corpo em alimento do espírito. Quando isso acontece, é mágico.

E o que você descarta?
Descarto afetação e picaretagens, como chamar uma comida de gourmet, ou usar ingredientes estranhos com técnica supostamente contemporânea, para se aproveitar da falta de parâmetro dos outros. Aqui não.

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3 thoughts on “JB: “Descarto afetação e picaretagens, como chamar uma comida de gourmet””

  1. Não li o livro “ainda”, mas vou procurar nas livrarias pois achei o tema superinteressante, mais notadamente sobre os bastidores, pois sou um “feirólogo” e não vou deixar passar esta.

    Curtido por 1 pessoa

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