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O diário de Renato Russo: a vida como poderia ser

Artista morto automaticamente faz abrir seu baú de obras guardadas – largadas, esquecidas, desprezadas. Basta cumprir um tempo razoável de luto e, pronto, começam os boatos sobre o que vai sair, as coisas inéditas que serão lançadas – e, claro, às vezes nem esperam a missa de sétimo dia para começar a negociar.

Muita coisa é picaretagem de herdeiro querendo ganhar um extra com o obra do artista. Raras são as vezes em que há uma curadoria acima da média.

No caso de Renato Russo, essa questão navega por uma rota meio sombria. O herdeiro do cantor cuida do patrimônio de forma meio abrutalhada – despreza os outros dois membros do Legião Urbana e acha que tudo que remete à banda se deve apenas a Renato.

Já vimos o cantor em holograma, discos póstumos que eram colchas de retalhos da sobra da sobra e shows que deveriam ser homenagem, mas que se transformaram em puro constrangimento – e Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá carregam um tanto de culpa nesse quesito.

Renato Russo durante apresentação em São Paulo, em 1990
Renato Russo durante apresentação em São Paulo, em 1990

Renato Russo era um fã de rock, muito antes de ser músico, compositor, cantor, letrista. Um tanto enciclopédia, outro tanto tiete, Renato forjou a sua carreira em cima do que leu, viu e ouviu. Inventava entrevistas como se ele fosse um superstar cedendo tempo a jornalistas babões.

Moldou sua carreira como a seguir os passos de seus ídolos. Queria ser um rockstar, viver como tal. Mas esqueceu que essa vida também custa caro.

Rendeu-se às drogas e ao álcool. Teve uma vida afetiva e sexual desregrada – ele se definia como um pansexual. Contraiu o vírus da aids, viveu sempre diante do vício de drogas, das mais fracas às mais potentes, sem contar o alcoolismo, doença que o perseguiu a vida toda.

Então, sua obsessão em se tornar um rockstar fez com que deixasse alguns itens prontos para serem publicados postumamente. Nesse ponto, Renato Russo era extremamente organizado – e não só aí, mas na sua coleção de discos, que ordenava por ordem de preferência.

so por hoje_OK 2.inddO primeiro livro que sai sob a suposta chancela “do baú” é “Só Por Hoje E Para Sempre – Diário do Recomeço” (Companhia das Letras), um relato dos 29 dias em que ficou internado numa clínica de reabilitação em 1993.

Vamos ler como era seu cotidiano na clínica, em entradas que mostram um Renato Russo reflexivo. Lemos também suas tarefas, que seguiam os tradicionais 12 passos. Ele responde a questões como “Fazer um relatório focalizando métodos e sentimentos que você utilizou para abster-se do álcool e drogas e quais os resultados”.

Assim, é possível ver um Renato Russo aberto e sem amarras. Se nas letras ele utilizava de imagens e metáforas para desabafar, no diário ele vai na ferida, sem dó. Ele está exposto e, pelo que ele diz, bem pela primeira vez.

Não há grandes revelações, nem escândalos. Seu diário não permitia escapar da reflexão e análise do seu futuro. A doença também está camuflada em pequenas e escondidas entradas.

O livro capta o momento do cantor entre disco mais experimental da banda, “V” (1991), e o último em que trabalhou em totais condições de saúde, “O Descobrimento do Brasil” (1993) – haveria ainda “A Tempestade” (1996), mas Renato já estava abatido pela doença.

Muito do que ele escreve no diário vai aparecer nas letras do disco de 1993. Era o músico buscando respirar. Avaliza ainda que ele busque encontros com suas raízes e sua sexualidade. Em 1994, lança “The Stonewall Celebration Concert”, com gravações de standards e composições americanas, todo em inglês. Um ano depois, sai “Equilíbrio Distante”, gravado todo em italiano. Eram seus dois sonhos, e o diário permite entender que esses discos só saíram por causa de sua passagem pela clínica.

Não é um livro apenas para fãs. Pode encontrar leitores em quem gostaria de conhecer relatos desse tipo – sem contar que Renato Russo escrevia bem. Lembra, em alguns aspectos, “Retrato de um Viciado Quando Jovem” (Companhia das Letras), escrito por Bill Clegg.

A editora promete mais volumes recolhidos do baú de Renato Russo. A conferir. E torcer para que a edição evite capas sentimentaloides, como a deste livro – lembra obras de autoajuda ou de romances melosos baratos.

*****

“Acho que estou com medo de enfrentar minha nova vida – e não tenho escolha. Me vi hoje não querendo voltar à minha vida antiga – não sinto falta das pessoas com quem convivia, não percebo em mim a necessidade de me expressar – meus novos amigos aqui em Vila Serena são minha vida agora. Nunca me interessei muito por outras pessoas (mesmo antes de minha dependência) – isso é um desabafo.”

“Cabe dizer aqui que muitas vezes (a maioria das vezes) eu manipulava a mim mesmo e os outros para obter incentivo, aprovação e elogios, o que para mim não era então prejuízo, já que ficava aliviado e ‘seguro’ com a aprovação de todos. O prejuízo, repito, veio a longo prazo, destruindo (quase totalmente) meu autorrespeito e minha saúde. Só posso resolver isso segundo o programa e trabalhando desligamento emocional e minha autoestima.”

*****

Após a morte de Renato Russo, foi publicada muita picaretagem. Se quiser ler sobre ele, o blog sugere “O Filho da Revolução”, de Carlos Marcelo, e “O Trovador Solitário”, de Arthur Dapieve.

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