Argentina, Entrevista, Ficção

Há vida após um reality show? “Carne de Canhão”, do argentino Agustín Arosteguy, responde

Agustín Arosteguy é um escritor argentino que chegou ao Brasil por meio de uma história de amor.

Nasceu numa pequena cidade da província de Buenos Aires, Balcarce, de 40 mil habitantes, cuja única referência é ser a cidade natal do piloto Juan Manuel Fangio. Estudou e morou em Buenos Aires e La Plata.

carnecanhao_capa_web-ffc8d5ceee483ed454f06d3aa241372e-480-0Até aí, a história se parece com a de Miguel, protagonista de “Carne de Canhão” (Mórula), primeiro romance do escritor. As vidas do criador e de sua criatura se distanciam a partir desse momento.

Arosteguy foi fazer mestrado na Espanha, apaixonou-se por uma carioca, veio para o Brasil para morar no Rio de Janeiro, onde ficou até conseguir uma vaga de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, sua morada atual.

Já Miguel viajou para Buenos Aires e entrou em um reality show que pretendia filmar todos os passos do seu dia, até chegar a um apoteótico e chocante final.

A história de Miguel surgiu cotidianamente. Arosteguy a ouviu como uma anedota que um irmão de um amigo contou uma vez. “Essa história ficou na minha cabeça por muito tempo, até que decidi escrever”, diz o escritor, em entrevista ao blog.

O romance intercala a história de Miguel com textos em primeira pessoa, como um diário de confissões, de um personagem que não sabemos quem é – Miguel, o autor? Para completar a estrutura, cada capítulo abre com uma sugestão musical, um link para um vídeo que, segundo o escritor, caberia para aquela leitura.

A aventura de Miguel passa longe do receio de um garoto de interior que vai à capital para estudar e trabalhar. Pequeno, ouvia o avô repetir seus anacronismos e servia bolo para as visitas da mãe. Mas queria ganhar o mundo.

Da pequena Balcarce à gigante Buenos Aires, para o rapaz, foi um passo natural, até mesmo se enveredar por um trabalho na TV que mudaria sua vida para sempre.

O texto aprofunda a questão de identidade e origem para criar condições de enfrentar o assombro da perda de privacidade. O grande salto do livro é não entrar em debates filosóficos e digressões – os fatos se incumbem de responder às questões que vão surgindo.

Arosteguy, na conversa com o blog, fala sobre reality show, cinema, música e de seus próximos trabalhos, como o romance gráfico que terá três partes.

*****

O escritor argentino Agustín Arosteguy
O escritor argentino Agustín Arosteguy

Miguel não teve medo de Buenos Aires. Por que você acha que o personagem era um destemido?
Eu acho que Miguel queria ser famoso, se entregar ao mundo da fama e também esquecer sua família, sua origem. E Buenos Aires, para Miguel, foi isso, o trampolim para alcançar o sucesso.

A história de Miguel lembra dois filmes da década de 90, “O Show de Truman” e “EdTV”, mas sem o sentimentalismo. A realidade do seu personagem foi mais crua. Falta isso ao que chamamos de reality show – a realidade – ou a fantasia é o objetivo desses programas?
Eu penso que esse tipo de programa vende fantasia, uma fantasia apoiada no marketing, uma fantasia que é facilmente reproduzível em grande escala. Não importam os protagonistas, só a reprodução e venda, o consumo massivo disso. O que é curioso para mim, pois mesmo tendo esse objetivo, com essa proposta tão plana e efêmera, os programas tiveram tanto sucesso, tantas pessoas querendo fazer parte. É como se todos estivessem fazendo parte de uma mentira enorme e só alguns, eu inclusive, não sabiam de toda essa armação. E aí concordo com a relação que você encontrou com esses dois filmes.

O que você chama de armação?
Com armação quero dizer toda essa parafernália que é construída para fazer um produto televisivo. Isso vai desde as pessoas que pensam a ideia, os produtores que topam botar grana, o canal que topa inclui-lo na sua programação, as pessoas que querem participar, os familiares dessas pessoas que ficam torcendo por elas, os meios de comunicação que exploram esses programas, o merchandising que esses programas produzem.

E a questão da fantasia, como se encaixa na sua visão?
Esses programas estão tão incorporados, tão assimilados que nem percebemos os limites. Eu, pessoalmente, gosto muito da fantasia, do mundo fantástico e de tudo o que está relacionado com ele. Por isso, acho tão chocante, tão violenta a proposta dos realities. Até fico triste ao ver que a fantasia virou um produto massivo. Para mim, a fantasia é um alimento diário para minha vida, que me dá forças para acordar a cada dia, amar às pessoas, querer ter filhos. Para mim, tudo isso passa pela fantasia, por criar mundos dentro do mundo. Penso que o amor está baseado na fantasia, sem ela ninguém conseguiria ficar com uma única pessoa.

Que críticas podemos fazer aos realities atualmente? Já estão incorporados ao cotidiano, como na história de Miguel, que passamos a vê-los como extensão das nossas vidas?
Críticas, acho que podemos fazer muitas. Mas a primeira e talvez a mais importante, para mim, é o lugar que o ser humano ocupa neles. O lugar que como seres humanos ocupamos nesse tipo de programa fica muito distorcido, tergiversado.

Nos falta espontaneidade?
Espontaneidade e também ingenuidade. Essas duas palavras são consideradas negativas ou possuem conotaçao negativa. Se uma pessoa tem essas duas qualidades, é um alvo fácil. A pergunta me fez lembrar de um filme que me impactou muito.

Qual?
Em espanhol se chamou: “Eterno resplandor de una mente sin recuerdos”. Gosto muito desse filme.

“

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança”, no Brasil.
Esse!! Esse filme é foda!! Aí você vê que o ser humano não tem escrúpulos nem limites, nem nada
. Mesmo que esse filme não seja sobre reality show, para mim é muito paradigmático. Sempre lembro de um amigo que parafraseava um filosofo e dizia: “Nós não somos nada”. 
Ou somos fantasia, e até isso agora nos está sendo roubado.

Cena de "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança"
Cena de “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança”

Miguel passou dos anacronismos do avô para uma participação extrema em um show. O personagem salta de um passado felliniano, como escrito na orelha do livro por Márcio Menezes, para um futuro sem privacidade. Como esses dois universos refletem na formação do personagem?
Eu queria muito mostrar uma transformação, um contraste forte. De certa forma, eu queria evidenciar e denunciar até as mudanças que provocam as cidades. Então, nesse sentido, os dois universos tinham que estar presentes.
 Esse antagonismo, digamos assim, era o que eu mais queria mostrar
. Penso que todos nós temos muitos universos em constante conflito. Eu queria que Miguel refletisse a contradição humana, essa força invisível e visível da cidade
.

A narrativa é interrompida a cada capítulo por trechos de reflexões em primeira pessoa. O que levou a inserir esses textos?
Esses trechos em primeira pessoa são muito importantes 
e têm a ver com a pergunta anterior. Minha intenção com eles foi, por um lado, fazer o contraponto com a história central do livro e, por outro, mostrar a mudança gradual do personagem
, desde uma perspectiva mais pessoal e intima.

Além das reflexões, a cada capítulo, você coloca o link de uma música. Como você montou essa playlist?
Com a playlist, eu quis colocar mais uma linha narrativa. Então, pensei na lista como se fosse uma trilha para um filme, 
mas também o que quis trazer foi o seguinte: por que um romance não pode ter trilha sonora? Eu pensei em cada música desde o clima de capítulo. Primeiro, veio o capítulo, e depois a música que na minha opinião mais bem dialogava com o que estava sendo narrado.

A leitura não sugere silêncio, concentração?
Eu não concordo muito com isso. Pelo menos comigo acontece muito de lembrar de livros quando volto a escutar a música que eu estava ouvindo no momento de lê-los. É uma pergunta interessante. Há pessoas que só conseguem ler em silêncio, 
mas isso eu acho que é uma questão de formato, de costume, sabe?
 Ninguém se perde porque o filme ou peça tem música, né?

As músicas que estão no livro são canções que você gosta, que refletem o seu gosto?
Não necessariamente.

Por exemplo, “I Grieve”, do Peter Gabriel. É uma música que você gosta, ouve e por isso quis colocar no livro ou é uma música que se encaixava naquele capítulo?

Eu pensei nas músicas como acompanhamento sentimental de Miguel
, mas está claro que eu gosto delas e das bandas. Mas a seleção foi baseada noutra premissa: refletir o que Miguel estava passando 
para mim a cada música. Desde a canção que abre e até a que encerra o romance, todas se encaixam perfeitamente
. Eu fiz o exercício de ler cada capítulo primeiro sem música e depois com ela. 
Em algumas vezes, tive que mudar porque a música não era a certa
. Esteticamente, queria deixar a música como trilha e não incorporar nomes de músicas no texto
 escrito. Eu também fiz um exercício, depois de ler o capítulo com e sem a música, de só ouvir as músicas. Isso foi bacana para sentir que as músicas certas eram as escolhidas e não outras.

Quem são suas principais influências?
Influências tenho muitas e bem variadas. Entre 
escritores, embora admire muitos considerados clássicos, gosto muitos dos contemporâneos. Por exemplo, da Argentina, Pablo Ramos, Florencia Abbate, Beatriz Sarlo e
 Mario Mactas, um jornalista que eu adoro. Atualmente, estou fascinado com a literatura brasileira atual, conhecendo muita gente boa.

Por exemplo?
Márcio André, Mariel Reis, Maria Ester Maciel, Santiago Nazarian, Luiz Biajoni, Marília Garcia. 
Acho Ricardo Lísias foda!

Sobre seu romance gráfico, está em que fase?
O romance gráfico está na fase de desenho
. Somos em três pessoas e 
conseguimos acabar a história. O desenhista fez testes de personagem, 
que ficaram massa, assim como o rascunho da primeira parte da história.

Pode dizer do que se trata?

A primeira parte se trata de um cara que tem como ídolo o Rubén Peucelle (argentino que praticava luta livre) 
e que imagina que vai acontecer uma catástrofe em Buenos Aires. Mais que imagina, ele tem certeza
 e, então, começa a falar com as pessoas sobre isso e todos o rejeitam
, falando que ele está maluco
. Não falo mais detalhes porque ainda estamos na fase de elaboração.

Já tem editora?

Ainda não procuramos. Primeiro, queremos ter o romance terminado e depois buscar.

E tem algum projeto de romance?
Estou na fase de revisão do meu primeiro romance em português. Estou muito feliz até agora, e 
tenho um pouco de receio de falar dele.
 Posso dizer que o chimarrão tem um lugar muito importante.

*****

“Miguel ficou com a mente carregada de uma miríade de sensações, pensamentos, lembranças. Apoiava a cabeça na porta por medo de que caísse. De repente suas lembranças o levaram à adolescência. Valendo-se de cheiros e sabores, tentou voltar no tempo o máximo que pudesse, mas ficou aflito porque não conseguiu recordar muito daqueles anos distantes. Tudo aparecia como uma massa compacta a amorfa, sem começo nem fins precisos.”

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