Comentário, França, HQ

Cartunista faz viagem à infância na HQ “O Árabe do Futuro”

untitledEstamos diante de uma história autobiográfica, que busca nas diferenças culturais entre Ocidente e Oriente uma forma de refletir, mais até do que retratar, a vida de um garoto, filho de francesa com um sírio, que na sua infância viveu entre os dois mundos.

Na HQ “O Árabe do Futuro – Uma Juventude no Oriente Médio (1978-1984)” (Intrínseca), o cartunista Riad Sattouf traça uma viagem à sua infância e coloca nas páginas o conflito que, claro, vai passar pela religião.

Este é o primeiro volume de suas memórias, que focam no encontro de seus pais na Paris dos anos 70 e seus primeiros seis anos de vida. Período marcado por uma intensa troca de moradas, de países e de culturas. Da França para a Líbia para a Síria, entre idas e voltas, todas elas retratadas por um olhar de alguém que não teria uma memória tão vívida, mas que consegue captar os dilemas da família, principalmente do seu pai.

Sattouf foi colaborador do “Charlie Hebdo” e é considerado como um dos grandes nomes dos quadrinhos franceses – ele deixou o jornal seis meses antes do ataque terrorista à Redação. Desenhou para o semanário humorístico a série “La Vie Secrète des Jeunes” (A vida secreta dos jovens) por oito anos.

Seu pai era obcecado pelo panarabismo, por uma educação que, em sua avaliação, seria a única saída para o mundo árabe, o que o fez não enxergar as ditaduras de Hafez al-Assad, na Síria, e Muamar Kadafi, na Líbia – tudo isso retratado com incrível bom humor.

650_1200O garoto enfrenta o preconceito por conta de seus longos cabelos loiros, não compreendidos por colegas de escola e familiares, e sua cultura ocidental. Implicâncias típicas da idade, que acontecem em qualquer parte do mundo.

Sattouf retira então do seu duplo a carga de ter que interpretar os fatos da época, as decisões e consequências. Nos desenhos, o garoto é um personagem, sem questionar o que o pai fazia. Deixa para o leitor interpretar e tirar suas conclusões.

503639-970x600-1Impressiona a passividade da mãe neste primeiro volume. Francesa, deixou-se entregar à obsessão do parceiro sírio, de não enxergar os problemas vividos na Líbia e na Síria – moradias gratuitas, tomadas por outros logo que os moradores deixam a casa para fazer compras, opressão, falta de comida, rivalidade familiar. A ver como a figura da mãe irá se comportar nos volumes posteriores – o segundo volume já foi lançado na França e percorre de 1984-1985.

Ao final, sobra a sensação de uma crônica familiar retratada por quadrinhos, muitíssimo bem humorada e que escapa do julgamento. Lembra muito o trabalho de Guy Delisle, quadrinista canadense que também utiliza o bom humor para refletir suas viagens pelo mundo.

“O Árabe do Futuro” se torna então um daqueles livros que precisam ser lidos.

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