Brasil, Entrevista, Não ficção

Eike Batista e o delírio coletivo de seus negócios: Malu Gaspar explica a queda do Grupo X

Duas crianças se cruzam no corredor da escola. Uma se recusa a olhar para a outra, sua amiga, e passa de cabeça baixa. A rejeitada tenta imaginar o motivo e vai atrás para perguntar. Descobre que é um motivo bobo e voltam a ser amigas.

Cena comum em qualquer época, cidade ou escola. Mas isso aconteceu num ambiente profissional, entre executivos muitíssimo bem pagos, que administravam bilhões de reais de investimentos.

Aconteceu nos corredores do edifício onde funcionava o Grupo X, do empresário Eike Batista. E ajuda a ilustrar como funcionavam as relações profissionais de um conglomerado que se pretendeu o maior do Brasil, com investimentos que abarcavam petróleo, mineração, geração de energia, logística e até restaurantes.

Eike Batista alimentou também o sonho de ser o homem mais rico do mundo. Sonho que naufragou juntamente com as projeções de suas empresas X, todas envolvidas em levantamentos frágeis, que iludiram investidores e afundaram o Grupo X em dívidas.

livro_3CtIakA jornalista Malu Gastar pesquisou por mais de dez anos os negócios de Eike Batista nos veículos onde trabalhou – “Exame”, “Veja” e “Folha”. E escreveu uma reportagem de fôlego, “Tudo ou Nada – A Verdadeira História do Grupo X” (Record), um catatau de 545 páginas que investiga as razões do fracasso do conglomerado.

Fracasso que, como mostram as páginas, veio da figura de alguém que vendeu o que não tinha para financiar empreendimentos. Foi dos poucos que conseguiu investimentos milionários para negócios que nem plantas tinham. Muito menos plano de negócios, projeção de retorno, rendimentos.

Convenceu bancos, economistas e analistas respeitáveis de que seus números estavam corretos. A realidade foi diferente. O petróleo não vingou. A mineração também não. A energia não saiu do projeto. O Grupo X se viu em meio a dívidas e sem condições de pagá-las.

Em meio à história dos negócios, Malu Gaspar mostra como funcionavam os bastidores, o ambiente entre executivos de salários e bônus milionários, que se comportavam como adolescentes no colégio. Bajulação, deslumbramento, segredinhos, um ambiente que mais parecia uma partida de Banco Imobiliário.

O que assusta ao ler a minuciosa descrição de encontros, reuniões e reações é que são executivos de bancos, dirigentes do alto escalão de empresas, economistas influentes no mercado, especialistas com formação sólida que se deixaram levar por um sonho ufanista, ilusório e muito particular. Por exemplo, Paulo Mendonça, apelidado de Dr. Oil, responsável pelos negócios de petróleo do grupo. Conseguiu até o último momento não revelar as verdadeiras estatísticas das explorações das plataformas. Foi a ruína da OLX.

O livro de Malu Gaspar é daquelas reportagens atemporais, que sobrevivem ao passar do tempo e das atualizações dos fatos. Bem apurado e pesquisado, “Tudo ou Nada” tem ainda outro mérito: é extremamente bem escrito, com uma narrativa fluente que leva o leitor a se envolver com a história de forma compulsiva. Sem truques narrativos, ela conduz a reportagem com leveza.

A jornalista conversou com o blog, que recomenda a leitura de “Tudo ou Nada”, livro já encomendado para virar filme em 2017, por meio da Morena Filmes.

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A jornalista Malu Gaspar | Foto: Ale Silva/Jornal do Brasil
A jornalista Malu Gaspar | Foto: Ale Silva/Jornal do Brasil

Você abre o livro com o exemplo do que aconteceu no Canadá. Para o leitor leigo, que não acompanha o noticiário econômico com mais afinco, poderia ser um relato da recente queda do Grupo X. Os métodos e os erros que Eike Batista cometeu nos investimentos anteriores se repetiram, em outra escala, no Brasil. Quem deveria ter aprendido mais com esses erros: Eike ou os investidores?
O fracasso da TVX [a empresa montada para explorar ouro no Canadá] deixou lições importantes, que poderiam ter sido assimiladas tanto pelos investidores como pelo próprio Eike Batista. Os acionistas da empresa canadense aprenderam da pior maneira que os projetos de Eike eram apenas planos, sem fundamento sólido. Diante da escalada das empresas X, poderiam ter ficado atentos para a chance de o enredo se repetir. Havia, no entanto, vários fatores a nublar o entendimento dos investidores. O caso TVX havia acontecido havia alguns anos, num setor pouco conhecido da grande maioria, como o ouro, e num pais sem muita ligação com o Brasil. Para os brasileiros, os detalhes do fim melancólico da empresa nunca ficaram claros. Até hoje, Eike diz que voltou do Canadá com US$ 1 bilhão para investir no Brasil – o que não aconteceu. Já o empresário perdeu a chance de aprender com os próprios erros. Poderia ter reconhecido que errara ao querer operar sozinho uma companhia complexa, algo que nunca fizera e não sabia fazer. Também poderia admitir que se endividara demais e de forma imprudente, ou que apostara em negócios demais ao mesmo tempo. Caso o fizesse, teria tido chance melhor de corrigir o rumo quando o Grupo X começou a ascender. No entanto, não o fez. Limitou-se a empurrar a responsabilidade para fatores externos, executivos ou interesses políticos espúrios. Exatamente como tem feito hoje.

Como foi possível poucos perceberem o que viria acontecer com o Grupo X?
O Grupo X foi um caso clássico de bolha financeira. Numa bolha, todos parecem embarcar numa espécie de delírio coletivo. Havia, aqui e ali, quem apontasse os problemas e as chances de fracasso. Mas o Brasil vivia um momento mágico, com o crescente apetite por commoditites e a extrema liquidez dos investidores dos países desenvolvidos, que haviam ganhado muito dinheiro com a bolha imobiliária e precisavam apostar em ativos nos países emergentes. Todos queriam aplicar dinheiro aqui, e Eike sabia jogar o jogo do mercado. Por seu carisma e senso de oportunidade, ele moldou seus projetos aos desejos dos investidores e soube vendê-los muito bem. Foi, nisso, ajudado pelos banqueiros, pela mídia e pelos políticos, que aderiram ao seu projeto e tiraram bastante proveito dele – até que a bolha estourou.

O empresário Eike Batista nos tempos de bonança
O empresário Eike Batista nos tempos de bonança

A desconfiança a Eike Batista está presente em alguns personagens, como o ex-presidente Lula – pelo menos, durante seu mandato. Depois, a desconfiança se tornou entusiasmo. O que justificou a mudança de comportamento? Faltou assessoramento, pois o quadro já estava todo desenhado para o fracasso no curto prazo?
Houve despreparo, por certo. O empresário também foi muito persistente e hábil no marketing pessoal. Contribuiu, ainda, boa dose de ganância. Antes de se firmar como unanimidade, porém, Eike Batista era um outsider, um playboy. Ele lutou muito para mudar essa imagem, e, aos poucos, foi conseguindo. No entanto, o mito do Midas, do empreendedor serial e genial que multiplica dinheiro, só se consolidou mesmo depois que ele conseguiu vender parte de sua mineradora para a Anglo American, por US$ 5,5 bilhões, tornando-se o homem mais rico do pais e o sétimo mais rico do mundo. Ali, muita gente ganhou muito dinheiro. E todos correram a comprar ações de suas empresas, esperando lucrar junto com ele nos próximos negócios. A bolha se tornou irresistível – e Eike virou o representante de um novo estilo de empreendedorismo, de um Brasil que ganhava protagonismo no mundo. Tornou-se um ídolo dos jovens brasileiros. Era difícil, naquele momento, remar contra a corrente.

Uma das coisas que mais impressiona no livro é o comportamento de altos executivos, que pareciam garotos tentando agradar ao mais forte da turma. Alguns atos chegam a ser infantis, como deixar de cumprimentar no corredor. Como explicar esse comportamento, essa bajulação? 
Quando há muito dinheiro e poder envolvido, as pessoas se transformam. Ali, com tanta coisa em jogo, as disputas naturais em qualquer empresa ou grupo social se exacerbaram. Muitas vezes, era o próprio Eike quem estimulava o dissenso. Não foram poucas as vezes em que ele mesmo entrou em conflito com seus executivos.

Paulo Mendonça, o dr. Oil, é um dos personagens mais intrigantes da história. Conseguiu postergar a queda do grupo sem praticamente grandes problemas. Por que Eike não interferiu antes? De onde ele (Mendonça) conseguiu tirar uma confiança tão cega?
Para mim, uma das razões porque Eike confiou tanto no dr. Oil e continuou turbinando a escalada de promessas mentirosas foi o fato de ele estar tão encantado com seu próprio poder de multiplicacão do dinheiro que não conseguia admitir que as coisas poderiam não ser como ele mesmo apregoava. Outro motivo, bastante óbvio, tinha a ver com o fato de que rever seus planos e adaptá-los a uma nova realidade, mais modesta, presumia perder muito dinheiro. Dono de uma personalidade megalômala e acostumado a ser salvo na última hora pelo pai, por sócios ou pelo governo, ele preferiu tentar até o final. Como bom jogador que era, foi para o tudo ou nada – daí o titulo do livro. Quando se deu conta de que a salvação não viria, já era tarde demais.

Eike cometeu vários crimes previstos pela CVM, como divulgar informações sigilosas – sem contar a possível informação passada a Luma de Oliveira, fato que está sendo apurado. O Brasil é condescendente com Eike ou as leis brasileiras são frouxas?
A regulação do mercado financeiro no Brasil é frouxa, leniente. Vários dos episódios descritos no livro teriam acarretado severas punições caso tivessem ocorrido em um pais onde as instituições responsáveis pelo mercado fossem mais atuantes e fortes. No Brasil, elas não funcionam e, portanto, não são levadas a sério. Ao longo da apuração, várias vezes pude constatar que, não apenas no Grupo X, mas, nos bancos e na maior parte das empresas de capital aberto, executivos cometem crimes confiando que não serão pegos. Eles sabem que têm as melhores chances. No caso de Eike Batista, por exemplo, a Comissão de Valores Mobiliários, o xerife do mercado, só produziu os primeiros processos acusatórios depois que o Grupo X entrou em franca decadência.

Ao longo da apuração do livro, você sofreu pressão direta e/ou indireta para não relatar algum fato?
Não recebi pressão nenhuma de ninguém – nem da editora, nem dos personagens envolvidos.

Seu livro é uma reportagem de fôlego bem longo, principalmente no Brasil – raros são os livros com mais de 500 páginas de apuração num espaço de tempo relativamente curto. O que a levou a entrar nessa empreitada? O que mais chamou sua atenção no personagem?
Para além do personagem incrível para qualquer contador de histórias – o homem mais rico do Brasil, casado com uma rainha de bateria, que havia se embrenhado em busca de ouro na Amazônia, guardava carros na sala, usava peruca, era bajulado por celebridades -, o que mais me moveu foi o paralelismo entre sua trajetória e a trajetória do Brasil. Sabia que, contando a história da ascensão e queda do Eike, eu estaria contando a história recente do nosso capitalismo, com suas virtudes, seus acertos e erros. Havia, ainda, a necessidade pessoal de consolidar uma reportagem econômica que fosse além do que se costuma fazer por aqui. Queria mostrar em detalhes como são nos bastidores as intrincadas relações entre os donos do dinheiro e os detentores do poder.

Eike Batista e a presidente Dilma Rousseff inauguram poço que se revelou um fiasco | Foto: Ricardo Moraes/Reuters
Eike Batista e a presidente Dilma Rousseff inauguram poço que se revelou um fiasco | Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Eike não falou ao livro, mas você já teve contato com ele durante seu trabalho como jornalista? Qual sua impressão?
Desde que cheguei ao Rio de Janeiro, em 2005, produzi diversas reportagens sobre Eike Batista e o Grupo X para “Exame” e “Veja”. Conheci muitos executivos e pessoas ligadas a ele. E estive com o próprio diversas vezes, em entrevistas, almoços, cafés da manhã. Sem contar os telefonemas eventuais para apurar alguma informação. Nunca duvidei do seu poder de convencimento e de vender sonhos aos investidores, mas minhas matérias sempre tiveram um tom critico e bastante cético. Talvez por isso ele tenha optado por não dar entrevista, apesar de eu tê-lo procurado insistentemente.

O que Eike ainda precisa responder?
Até o ano passado, Eike devia R$ 1 bilhão aos bancos. Ainda assim, continua vivendo uma vida de padrão alto, sem ter fonte de renda conhecida. A pergunta que eu gostaria que ele respondesse é de onde vem o dinheiro que o sustenta.

Qual seria uma autocrítica que a imprensa brasileira poderia fazer?
Com algumas exceções, a imprensa brasileira incensou Eike Batista, comprou integralmente seu discurso e ajudou a turbinar seu marketing de representante do Brasil no mundo. Com frequência, tratou seus projetos como realidade e não investigou a fundo o que se passava nas empresas X. Para os jornalistas, também, há muito o que aprender com o caso Eike.

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“Pelo menos quanto à Mendonça, os mimos surtiram efeito. O português andava exultante. Desfrutava do novo status com gosto e retribuía a atenção do chefe com atos de bajulação explícita. Logo que a OGX começou a realizar seus testes, apareceu na sala de Eike com uma pipeta cheia de lama preta, dizendo: ‘Mr. Batista, aqui está seu óleo!’. Foi um sucesso. De uma outra vez, quando o patrão voltou ao escritório cheio de esparadrapos no rosto, depois de uns dias de ausência para se submeter a uma cirurgia plástica, Dr. Oil comentou, para surpresa dos colegas, que o empresário ficara ainda mais bonito com os curativos. E, quando chegou de uma viagem a Roma, surgiu no escritório com duas garrafas de vinho compradas na capital italiana, especialmente para Eike. ‘Em cada rua de Roma eu me lembrava de você, Mr. Batista!'”

“‘Tivemos que fechar o poço, Dr. Eike, porque vazou gás bem na hora da perfuração. Era muita pressão. Podia acontecer um acidente. Não houve tempo nem de recolher dados sobre os indícios de hidrocarbonetos. Não tenho como fornecer nenhuma estimativa de reserva.’ O empresário não se conformou. Queria ter um poço no pré-sal e seria aquele. ‘Mas não é possível nem especular?’ ‘Mesmo se eu lhe desse um número, Dr. Eike, estaria especulando tanto que seria um dado inútil, não significaria nada’, argumentou o gerente de exploração. ‘Pode me dar um valor hipotético, uma variação’, insistiu o chefe. ‘Bem, não sei…’, ponderou o outro, hesitante. ‘Se conseguirmos reabrir o poço sem novos vazamentos, pode até variar de 150 a 600 milhões de barris.’ ‘Boa! 600 milhões! 600 milhões de barris!’ Daquele momento em diante, para Eike, o poço teria 600 milhões de barris. Sua animação era tanta que o batizou de OGX-63, seu número da sorte, e correu para dar a notícia à presidente Dilma Rousseff.”

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