Brasil, Notas de leitura, Poesia

Notas de leitura – sobre a poesia

Não sou um grande leitor de poesia, mas tenho poetas que fazem parte da minha formação – Walt Whitman, Fernando Pessoa, Eliot, Drummond. Li “Uivo”, de Ginsberg, “As Flores do Mal”, de Baudelaire, e “Canto Geral”, de Neruda.

Recentemente, descobri Adonis e Wislawa Szymborska. Espero com alguma ansiedade a poesia completa de Sylvia Plath. Cheguei a comprar alguns livretos de poetas que vendiam suas cópias em bares, na juventude passada em São Paulo – confesso que muito mais como apoio do que interesse.

Não posso dizer que sou um leitor ávido de poesia, mas li nas últimas semanas três poetas, três livros enviados por autores e editoras. Estão comentados a seguir.

*****

download“A Ruptura” (Reformatório)*, de Robson Gamaliel
De todos, é o mais experimental. Usa a página como elemento complementar de sua poesia. Os versos estão justificados das mais diversas formas, o que faz com que a leitura dance ao longo das páginas. Seu tema ronda as quebras, o rompimento.

Os poemas são irregulares, há grandes achados intercalados com soluções ingênuas, sem força – resultado talvez dos 27 anos do poeta e de este ser seu livro de estreia. Se ainda não está pronto, o autor demonstra que não está distante de alcançar a maturidade.

“Ontem, falei que amava e hoje acordei
ontem, mudei meu modo de ser e hoje mudei novamente
ontem, entreguei-me a prazeres sem forma e hoje me vejo
como ontem
fragmentado
juntado os pedaços do hoje sou eu”

download“Diálogos e Sermões de Frei Eusébio do Amor Perfeito” (Reformatório)*, de Mafra Carbonieri
O frei é uma das personas inventadas pelo poeta, uma das grandes figuras da literatura brasileira – como professor, tem o crédito de ter sido o primeiro a incluir Fernando Pessoa em um plano de curso.

Neste “Diálogos e Sermões”, o poeta encarna o religioso para mirar em temas tão diversos como política, com uma verve afiada, e reverenciar suas influências, a saber, Gregório de Matos, João Cabral de Melo Neto, Shakespeare, Poe e os heterônimos de Pessoa.

Lembra as obras da editora Degustar, que se dedica a livros clássicos que tratam da libertinagem e do erotismo, escritos por autores como Pietro Aretino

“Vede o mosteiro.
Não há voto secreto na cela ou na capela.
Nem escárnio no confessionário.
Nenhum esqueleto nas dobras do reposteiro.
Nenhum sicário.

Mas não sou frade.
Eu sou minha palavra. Eu dou a minha palavra.
Mas que importa a palavra num mundo sem sentido?
No princípio era o verbo. Verbo pronominal.
Escorpião que se volta sobre si mesmo.”

espasmo-388x593“Espasmo” (Multifoco)**, de Leonardo Grossi Alvarenga
A inspiração fica escancarada na epígrafe do livro, versos de Charles Bukowski. A recusa ao uso de maiúsculas, também presente na obra do escritor maldito, domina os poemas.

A poesia de Grossi é visceral, com tudo de bom e ruim que o adjetivo pode conter. A sinceridade impressa nos versos às vezes se embaralha com uma rima pobre.

A sensação é que Grossi preferiu pecar pelo excesso, sem se preocupar com formas e linguagem. Sua poesia é urgente, requer amadurecimento, mas mostra um autor que já sabe qual caminho trilhar.

“carrego um semblante de emoções que desconheço
o tempo me impediu de demonstrar indiferença
trago no rosto, como cicatrizes de uma doença
rugas que perpetuam sorrisos e sinais de apreço”

*****

* Livros enviados pela editora
** Livro enviado pelo autor

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Sinapse: para ler sobre poesia no blog

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