Entrevista, Ficção, México

Juan Pablo Villalobos: “Eu vejo a situação do México hoje sem esperança no curto prazo”

Em seu primeiro romance, “Festa no Covil” (2011), o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos deu voz a uma criança para tentar enxergar a realidade do seu país. Criou Tochtli, o garoto narrador que vive trancado numa mansão, filho de um traficante e curioso com o mundo o que o cerca, violento e amoral.

Tochtli, coelho na língua asteca, cerca-se de um mundo de ilusões, como seus hipopótamos anões da Libéria, filmes B e Playstation. Conhece 16 pessoas. Aprende a atirar com o pai e surrar os “maricas”.

42140429Dois anos depois, Villalobos entregou “Se Vivêssemos em um Lugar Normal”, desta vez com um adulto, Orestes, como narrador, procurando seu México ao olhar para sua juventude, nos anos 80. O desencanto, desta vez, é presente. A classe média mexicana queria mais.

Para fechar a trilogia sobre o México, lança “Te Vendo um Cachorro”, agora sob a perspectiva de um idoso de 78 anos. O livro sai no Brasil em setembro, pela Companhia das Letras, editora dos outros dois livros.

Villalobos conversou com o blog para falar de seus personagens, as perspectivas adotadas e a situação do México. Crítico e desesperançoso, o escritor desenha um cenário em que vê uma longa distância entre a vontade política e a realidade do seu país, entregue não somente ao tráfico, mas, principalmente, ao crime de forma geral.

A violência está tão imersa na sociedade mexicana, segundo ele, que, ao escrever o volume final da trilogia, inseriu no romance jovens desaparecidos, antes mesmo de acontecer a tragédia de Ayotzinapa, cidade dos 43 estudantes que foram mortos no fim do ano passado. “Esse era um tema que estava na discussão da sociedade mexicana, pois o que aconteceu com os estudantes não foi uma coisa que saiu de lugar nenhum. Era algo que já aconteceu em outras ocasiões, mas que não tinha sido tão cruel e tão besta”, disse na entrevista ao blog.

O mexicano mora atualmente em Barcelona, após passar uma temporada no Brasil. Nesse período, escreveu um romance em português, “No Estilo de Jalisco” (Realejo/Bateia), publicado durante a Copa do Mundo de 2014. Fanático por futebol, esperava com ansiedade a partida do Barcelona contra o Bayern, pelas semifinais da Liga dos Campeões, época em que a entrevista foi feita. Não considerava a eliminação do time de Messi, como de fato não aconteceu.

Para exemplificar seu fanatismo pelo futebol, lançou: “O futebol é a coisa mais importante entre as coisas que não têm importância”.

O autor irá participar do Fli-BH no dia 28, na mesa A Literatura e a Cidade, com Luiz Ruffato e Leida Reis. É uma boa chance de ouvir uma das vozes mais críticas e criativas da literatura contemporânea.

Como você pode comprovar na entrevista a seguir.

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O escritor mexicano Juan Pablo Villalobos | Foto: The Mexican Londoner
O escritor mexicano Juan Pablo Villalobos | Foto: The Mexican Londoner

“Alguém devia inventar um livro que dissesse o que está acontecendo neste momento”, diz Tochtli em “Festa no Covil”. Você escreveu o livro para dar essa resposta?
Essa frase tem a ver com um dos temas do livro, a relação entre a ficção e a realidade. Quando eu escrevi o romance, estava muito preocupado com o que acontecia no México, em 2006. Foi um ano muito violento, e infelizmente esses tempos ainda continuam. O México ficou numa situação de violência permanente. Mas em 2006 eu achava que era uma coisa sazonal, que iria passar. E eu me lembro de estar escrevendo o livro e olhar, a cada manhã, nos jornais e em tudo o que eu lia, histórias de pessoas que cortavam a cabeça de outras, de cadáveres que apareciam decepados, assassinatos, tudo o que também acontece no livro. Mas eu não queria contar essa realidade por uma perspectiva “clássica”. Foi por isso que optei pela perspectiva da criança. E é lógico que Tochtli coloca às vezes questões que parecem absurdas, como essa frase. Pois é impossível ter um livro que conte a realidade.

E qual é a realidade possível em um livro?
Essa questão tem a ver com o desprezo que alguns personagens mostram pela cultura e a cultura do livro. Esse é o desprezo que o pai transmite para o filho – os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida. E aí que a frase que você citou se relaciona com o livro, pois os livros não tratam de coisas que importam. E é uma crítica ao que observo hoje na sociedade, que é essa percepção de que os livros não servem e que as pessoas estão procurando apenas um saber prático, que permitem às pessoas ter um trabalho e ganhar dinheiro.

5+Companhia+das+Letras+webAinda em “Festa do Covil”, seu narrador diz: “O México é um país nefasto”. Hoje, como você o México?
O país entrou nessa situação de violência no começo do ano 2000 e ainda não saiu, infelizmente. O problema é cada vez mais grave. É um problema muito complexo, que não tem a ver simplesmente com a questão do tráfico. Não é uma questão que possa ser resolvida com o Exército ou a polícia, porque tem a ver com questões muito mais profundas, como acesso a oportunidades reais de desenvolvimento para pessoas, educação, falta de emprego, saúde, corrupção, injustiça. Se você coloca tudo isso junto, gera um cenário em que o tráfico penetra facilmente em todos os setores da sociedade. É muito real que esse negócio e a oportunidade de fazer dinheiro fácil sejam a opção para muitas pessoas. E é terrível, pois isso acontece com os jovens. Eles, em vez de estudar, sabem que é melhor entrar no negócio de lavar dinheiro ou diretamente no tráfico, um caminho mais rápido e fácil para ter “sucesso”. Eu vejo a situação do México hoje sem esperança no curto prazo.

Entrevistei Julián Herbert, que disse sobre o México: “O país está passando por uma crise institucional que vai além dos cartéis de drogas, porque o retorno ao poder do PRI (o partido hegemônico tradicional) trouxe novos atores e mecanismos de poder e controle mais complexos à cena”. Você concorda? Os cartéis são hoje secundários entre os problemas do país?
Eles fazem parte, mas não são o principal problema do país. O fato é que os cartéis já existem há muito tempo, mas o nível do problema agora é muito mais grave porque, nos últimos anos, foi criado um mercado interno de consumo de droga. Também houve brigas entre os vários cartéis para controlar os territórios. Somado à estratégia do governo, de declarar guerra contra os cartéis, tudo isso junto fez com que esses grupos começassem a brigar entre eles e se desmembrar. Imagine uma pessoa que é afastada do cartel, ela vai fazer o quê? Vai voltar a estudar? Abrir um restaurante, procurar um emprego? Não, ela fica no mundo do crime e vai procurar outros “nichos”. Se não vai traficar, vai sequestrar, roubar, fazer extorsão. É isso que está acontecendo no México nos últimos anos. Tem tanto criminoso que ficou fora do negócio das drogas que outros crimes têm ganhado importância. É uma situação incontrolável.

Em seus dois livros, você dá voz a personagens mais jovens. Como foi encontrar a linguagem, principalmente de Tochtli?
Na “Festa no Covil”, eu procurei uma voz que me desse a oportunidade de contar a história sem moralismos. O achado da voz infantil me permitia justamente falar desses temas tão graves sem ter que julgá-los. Que era o que eu não queria, colocar um julgamento moral nos fatos que aconteciam no romance. Além dessa perspectiva amoral, eu gostei também do fato de ela poder ser, até certo ponto, humorística, ou absurda. E basicamente o mecanismo dessa voz narrativa funciona porque o Tochtli não é somente um menino, mas é um garoto que mora trancado numa casa, com pouquíssima experiência com a realidade. Comparado com outras crianças, ele não conhece nada da realidade, pois elas vão para a escola, têm amigos, moram numa cidade. Ele não, ele mora numa casa trancada, não sabe o que é a sociedade, o mundo. Então, ele tem uma perspectiva da realidade totalmente distorcida. E o efeito humorístico vem da tentativa de entender a realidade e não conseguir, entender tudo errado.

E como foi trabalhar com a linguagem de Orestes?
No caso de Orestes, é diferente, pois não é somente a voz de um adolescente, mas uma voz que lembra o que aconteceu nos anos 80. Ele tem 38 anos e recorda o que aconteceu há 25, quando tinha 13, 14 anos. Na minha cabeça, eu tinha o projeto de escrever um romance em que a voz fosse sentimentalmente adolescente e intelectualmente adulta. Por isso que ele utiliza uma linguagem meio enrolada, que é até uma paródia do falar dos políticos, aparentemente inteligente, mas que não tem nada por trás. E a chave para entender a voz do Orestes é que, assim como Tochtli tenta entender a realidade e não consegue, Orestes já entendeu como funciona a realidade do México e não gostoiu. A narração do romance é como uma rebeldia contra essa realidade. Por isso que é sarcástico e recorre a insultos para contar a história. A ira acumulada nesses anos em que descobriu como funcionam o país, a economia, a política e o sistema de justiça faz com que essa voz seja muito raivosa.

Como “Te Vendo Um Cachorro” completa essa trilogia?
O livro trata de um velho chamado Téo, um aposentado de 78 anos que mora num prédio decadente, no centro da Cidade do México, com valor de aluguel congelado, onde só vivem aposentados. O romance conta a história da vida desse personagem e da comunidade dos vizinhos. E tem a ver com a história da política do México dos últimos 80 anos, contada através de Téo, e com a história da arte, pois um dos personagens é um pintor maldito e esquecido da arte mexicana, amigo do protagonista. E trata também dos desaparecidos, apesar de eu ter escrito o livro antes do caso dos 43 estudantes de Ayotzinapa. Esse era um tema que estava na discussão da sociedade mexicana, pois o que aconteceu com os estudantes não foi uma coisa que saiu de lugar nenhum. Era algo que já aconteceu em outras ocasiões, mas que não tinha sido tão cruel e tão besta como no caso dos 43 estudantes. Então, o romance é sobre como se constrói uma memória histórica e como nesse caso a história da arte deixa alguns artistas condenados ao ostracismo.

Parentes dos estudantes mortos protestam na Cidade do México | Foto:  Yuri Cortez/AFP
Parentes dos estudantes mortos protestam na Cidade do México | Foto: Yuri Cortez/AFP

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“Os cultos sabem muito sobre os livros, mas não sabem nada da vida. Nos livros ninguém explica como escolher os nomes dos hipopótamos anões da Libéria. A maioria dos livros fala de coisas que não interessam a ninguém e que não servem para nada.”
(“Festa no Covil”)

“A vida era assim, este maldito país especialista em desabrigar ilusões era assim. Mas a miséria generalizada poderia se transformar na fortuna de poucos, dos que soubessem interpretar os sinais, como eu, que conseguia não morrer de fome graças ao simples método de explorar a ingenuidade tecnológica das pessoas.”
(“Se Vivêssemos em um Lugar Normal”)

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3 comentários em “Juan Pablo Villalobos: “Eu vejo a situação do México hoje sem esperança no curto prazo””

  1. Excelente, Balla!
    Gostei mais do “Festa no Covil” do que do “Se Vivêssemos em um Lugar Normal”, que li recentemente. Em todo caso, minha impressão é que, embora os livros dele falem sobre o México e sobre problemas enraizados por lá, o Villalobos consegue traduzir um sentimento de frustração e desesperança bem latino-americano. No “Se Vivêssemos…”, por exemplo, o Orestes podia muito bem ser um João ou Kleberson que o livro não ia perder em conteúdo, exceto talvez pelas quesadillas

    Curtido por 1 pessoa

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