Brasil, Entrevista, Ficção

Marcelo Mirisola: “Faltam sangue, vingança, morte na literatura”

Ele foi classificado como uma pessoa de “comportamento inadequado” por Manuel da Costa Pinto, o curador da equipe de escritores brasileiros que viajaram para a Feira do Livro de Frankfurt em 2013. Apesar de receber elogios do crítico, não foi convidado para ir à Alemanha.

Não viajou, mas podemos dizer que não perdeu a chance de, mais uma vez, alertar para o ambiente de “meninos bem comportados” que toma conta do mundo literário.

Não tem receio e modéstia de dizer o que pensa sobre sua obra. Nem sobre o que acha do ambiente fraterno da cultura brasileira.

É autor de uma das grandes obras da literatura contemporânea, “O Azul do Filho Morto” (Editora 34). Escreveu romances, contos, crônicas. Cabeça pensante, cérebro provocador, Marcelo Mirisola faz dele seu personagem. A autoficção, recurso tão em voga atualmente, não existe para ele. Afinal, como diferenciar um do outro? Mais importante: por que diferenciar um do outro?

17500941Após as leituras de “O Azul do Filho Morto” e “Joana a Contragosto” (Record, para quem quiser o impresso, ou KBR, para digital), o blog quis conversar com o autor. Voz autônoma, a literatura precisa passar por ele. Pois um dos poucos que avançam para além dos livros, que fazem das palavras um questionamento constante num ambiente afeito a tapas nas costas.

Na entrevista, ele responde às provocações do Capítulo Dois e não se queixa de comentar perguntas que já foram feitas a ele exaustivamente – inclusive pelo blog. Diz que lê Tolstói hoje e adianta quais são seus próximos livros. Cutuca sem receio do contragolpe.

Antes da entrevista, preciso acrescentar uma imagem que me ronda a cabeça, após ler seus livros e pesquisar para a entrevista. Quando Tim Maia morreu, escrevi o obituário do cantor para o jornal em que trabalhava na época. Não tenho o texto, mas me lembro de ter escrito algo similar: o Brasil iria sentir muita falta de Tim Maia, do artista que contestava o promotor dos seus shows, xingava Roberto Carlos e desfazia mitos. Infelizmente, não aconteceu outro Tim Maia – nem de talento nem de personalidade.

Pois então. O Brasil precisa urgentemente de mais Marcelo Mirisola.

A ele.

*****

O escritor Marcelo Mirisola
O escritor Marcelo Mirisola

Artistas brasileiros são conhecidos por sua camaradagem, serem amigos entre si e por não tecerem críticas a seus pares. Na sua opinião, isso é reflexo do quê?
Reflexo do país onde vivemos. Substitua a palavra “artistas” por despachantes, políticos (com p minúsculo), alcoviteiros, macunaímas, frouxos, jecas. Dá na mesma.

Os autores brasileiros são muito cordiais? Falta conflito na literatura?
Faltam sangue, vingança, morte. Ou você acha que foi coincidência o fato de Euclides da Cunha, o único autor brasileiro citado na vasta obra de Jorge Luís Borges, ter morrido assassinado?

Você tem comportamento inadequado?
Manuel da Costa Pinto, o bedel de Frankfurt, não me chamou para o convescote na Alemanha por conta disso. Às vezes dá vergonha, muita vergonha de ser escritor nesse país de meninos bem comportados, escoteiros do bem, defensores da moral, das etiquetas e dos bons costumes.

Você se irrita ou se incomoda em responder sempre as mesmas perguntas (inclusive as que eu faço a você), sobre suas polêmicas?
De jeito nenhum. Quanto mais eu reafirmar a covardia dos meus “pares”, menos ódio carrego no peito. É bom pra desopilar.

Quem você lê hoje?
Estou lendo e relendo Tolstói.

O que o leva a ele?
Falei sobre ele num texto que escrevi para a revista “Cult”, “Tolstói aqui e agora”. A cada parágrafo de Tolstói, como em nenhum outro autor, abrem-se oceanos metafísicos, conexões guardadas num lugar completamente insuspeito da memória. Chego ao ponto de ter déjà vus no lugar dele, como se eu, vivo aqui e agora, incorporasse o morto, e não o contrário. São enxurradas de coincidências que anulam o tempo-espaço. Por exemplo, na novela “Felicidade Conjugal” (Editora 34), ocorre uma briga de casal cuja “batalha entre duas generosidades” é expressão comum a qualquer relacionamento. Você poderia dizer que o mesmo tema poderia ser abordado por Machado de Assis. Eu diria: mas não com a urgência do chifre da noite retrasada. Faz 155 anos que “Felicidade Conjugal” foi escrita! Resumidamente, Tolstói conduz o leitor, e me conduz o tempo todo, a situações domésticas que, se não foram experimentadas efetivamente, são tão reais na Petersburgo de 1859 como na Alta Mogiana dos anos 1980, ou como aqui e agora, no momento que respondo essa pergunta, de modo que é meia-verdade dizer que leio e releio Tolstói. É muito mais do que isso, eu o acompanho como se fosse um viajante do tempo.

No final do ano passado, você disse que estava finalizando uma coletânea de seus contos pela e-galáxia e de crônicas pela Oito e Meio. Qual a situação desses dois livros?
“Tropical Fanho”, que é a seleção de crônicas, sairá em agosto pela Oito e Meio. E “Rinha de Gente”, que é o filé mignon dos meus contos, sairá no final de outubro pela e-galáxia.

Você está escrevendo ou planejando algum novo livro – romance, contos?
Sim. Mas não quero falar nada sobre isso agora.

Como você avalia sua obra? 
Tenho três livros geniais, “Bangalô”, “Joana a Contragosto” e ” O Azul do Filho Morto”. Outros cinco títulos bem acima da média, e outra meia dúzia mais ou menos.

3080874Como você vê o cenário literário brasileiro e como seu primeiro romance, “O Azul do Filho Morto”, se encaixa nessa história?
Nossos “intelectuais” mais capacitados foram sequestrados pelos irmãos $alles. Quem não se vendeu para os banqueiros entregou-se para as Rouanets, Paccs (Programa Avançado de Cultura Contemporânea) e demais leis de incentivo. Fora isso, temos o Jabuti e todos os prêmios viciados. Por exemplo. Pegue os últimos dez anos do [prêmio] Portugal Telecom, cruze o nome dos jurados com o nome dos ganhadores desse concurso. Faça isso também com os autores que ganharam Pacc, Jabuti e bolsa Petrobras. Se a maioria não tem uma relação estreita com as empresas estatais e privadas que promovem e divulgam esses prêmios, e não passou direta ou indiretamente (leia-se mediadores, jurados e/ou curadores) pela Flip e pelo Festival de Ouro Preto, Feiras de Frankfurt e Paris, se não há um consórcio viciado entre essas “instituições”, eu lhe entrego meus ovos numa bandeja de ouro. Onde tem compadrio, burocracia e, sobretudo, acomodação, a arte não viceja. Artista no Brasil trabalha, ou melhor, atua de olho em planilhas, objetivos pré-estabelecidos e contrapartidas sociais para boi dormir. Isto é, no atacado, demagogia, e no varejo, agenda. Eu conheço escritor cuja obra é a agenda, são os contatos. Subvenção é antônimo de subversão. Não há liberdade. Tá todo mundo gessado, preso nesse círculo de troca de interesses.  O cenário é de penúria moral e intelectual. O livro, coitadinho do livro, é apenas o reflexo desse país em branco e preto. A próxima edição da revista “Piauí” vem para colorir.

Chegar ao auge é uma bobagem ou você enxerga esse ponto na sua carreira – seja um ponto já alcançado ou a ser obtido?
Meu próximo livro, acho que é o tal do “auge” a que você se refere – mas não quero falar muito sobre isso, agora não.

Pensando em “O Banquete” [livro em que dá vida a desenhos de mulheres criadas por Caco Galhardo], quem hoje mereceria uma história escrita por Marcelo Mirisola?
Apóstolo Valdemiro Chapeludo. Ele é meu próximo muso. Conseguiu rivalizar com a Marisete. Tô tratando disso…

Depois de você ter se isolado no litoral catarinense, parece que virou moda escritor ir para um retiro desse tipo para escrever. Você também deixou a barba crescer naquela época para conseguir escrever? Saiu sangue?
A diferença é que naquela época, 1990, eu vivi isolado mesmo. Sem tevê, sem telefone, internet era ficção científica, e a Cia das Letras não editava Jô Soares e nerds barbudos.

No Wikiquote, espécie de Wikipedia para citações, você é dono de um verbete. Só aparece uma única frase: “O inferno é Hebe Camargo de lingerie, estou convicto”. Essa é a citação pela qual você gostaria de ser lembrado? Se não, qual seria?
Bem, vai que não é apenas uma citação…  E se for verdade?  Será terrível ser recebido pela Hebe no inferno, muito pior do que ser dono de uma singela frase no Wikiquote.

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