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Notas de leitura

Capa_Confabulario“Confabulário” (Arte e Letra)*, de Juan José Arreola
Lançado por uma pequena editora de Curitiba, o livro do escritor mexicano ergue-se como o único exemplar em português da obra de um autor que influenciou e foi elogiado por Cortázar, Borges e Juan Rulfo. Os contos presentes nesta coletânea fazem parte da fase madura, como o próprio Arreola os classifica na sua apresentação. Estamos diante de um inventor que não poupa a imaginação, que explora ao máximo a linguagem, a brincar com imagens e fatos – o medo de um aracnídeo, no conto “A Aranha”, é um exemplo do que quanto ele pode fazer com tão pouco. O leitor se depara com crônicas, fábulas e minicontos, sempre a se surpreender com o ritmo imposto por Arreola. É uma pequena pérola que parece estar perdida em meio à montanha de bobagens que chegam à livrarias. Único senão: o livro merece uma revisão um pouco mais cuidadosa. O escritor usa frases muito longas, e induziu a revisão ao erro, que colocou vírgulas onde não podiam estar.

3144828“Velórios” (Cosac Naify), de Rodrigo M. F. de Andrade
O livro nasceu para não existir. Lançado em 1936 pelo jornalista e advogado, foi retirado de circulação pelo próprio autor um ano depois, quando assumiu o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan, hoje, Iphan). Foi seu primeiro diretor, cargo que ocupou até 1967. Achava que seu trabalho não poderia se misturar à produção artística – caso raro de ética, incompatível no mundo atual, em que multiplicam-se casos de sobreposição de interesses. O livro só foi relançado, então, cinco anos após sua morte, em 1974. Ficou assim, somente com a versão da José Olympio, por 30 anos, até que a Cosac recuperou os oito contos de “Velórios” e acrescentou uma fortuna crítica assinada por nomes como Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda e Manuel Bandeira. Os contos têm, o que fica claro pelo título, um único tema: a morte. A permear, um certo humor negro, uma queda por segredos que não ficariam destoados da obra Nelson Rodrigues. Temos viúvas a querer vinganças escandalosas e outras que pretendem apenas fugir e deixar outras a cuidar dos mortos. Há a beleza de “Quando a Minha Avó Morreu”, que Pedro Nava considerava um texto autobiográfico. O texto é tão bem escrito que o leitor não precisa de mais do que duas ou três linhas para saber onde se passa a ação, se no Rio de Janeiro ou em Minas Gerais. Está tudo lá, escondido nas palavras cuidadosamente escolhidas e colocadas em linha, como um trabalho de artesão.

22871307“O Olho” (Alfaguara), de Vladimir Nabokov
Neste seu quarto romance, o escritor russo-americano explora os reflexos na sua prosa. O jovem russo Smurov está na Berlim dos anos 20 e precisa cuidar de dois meninos de uma família da alta sociedade. Ele se envolve com mulheres, mas só vai encontrar problemas quando tem um caso com uma casada. O marido descobre e o humilha. Smurov decide se matar. A partir daí, não sabemos mais se estamos diante do jovem que fracassou na tentativa de suicídio ou se o mundo onde agora está Smurov reflete a vida humana. Esse jogo envolve o leitor e o faz questionar se o que lê são as memórias, a descrição de um mundo sobrenatural ou somente um fracassado na Berlim pré-Grande Guerra.

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* O livro foi enviado pela editora

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