Brasil, Entrevista, Não ficção

Belo Horizonte recontada por escritores e poetas

Ele é jornalista, acadêmico, poeta e ensaísta. Agora, tornou-se cartógrafo. Seu objeto de trabalho não se reduz a mapear ruas e localidades apenas. Fabrício Marques prepara um livro que vai mostrar como e onde escritores moravam e interagiam com uma Belo Horizonte compreendida entre os 1940 e o início do século 21.

Inicialmente chamado de “Cartógrafos da Vertigem Urbana”, o livro ganhou novo nome: “Uma Cidade se Inventa – Belo Horizonte na Visão de Seus Escritores”. Vai reunir fotos, infografias e textos, além de lançar perguntas: Como a capital mineira está presente na obra de escritores e poetas? Quais os lugares percorridos e como eles foram transcritos para as obras?

Essa geografia literária de Belo Horizonte capta autores consagrados e nomes que ainda permanecem misteriosos. São “lugares” a serem descobertos, como a irmã de Lygia Clark, que escreveu um livro memorialístico em 1978. Há Fernando Sabino e Cyro dos Anjos. Silviano Santiago e Pedro Nava.

O livro está na fase de edição e deve ser lançado em setembro. Parte financiada por lei de incentivos, parte pela editora e livraria Scriptum, uma brava que resiste em meio ao processo que torna todas as livrarias iguais e insiste em bancar projetos como este.

Marques conversou com o blog para falar do projeto e dar alguns detalhes de sua pesquisa. Para quem quiser saber mais e acompanhar o processo de finalização, o projeto tem blog e página no Facebook, com atualizações semanais.

*****

O jornalista Fabrício Marques | Foto: Lice Marques
O jornalista Fabrício Marques | Foto: Lice Marques

Pergunta básica: como surgiu a ideia de mapear a cidade por meio dos escritores?
Tudo começou em 2006, quando o o jornal “O Tempo” publicou uma série de reportagens cujo núcleo era um passeio afetivo e geográfico de escritores por Belo Horizonte. O gancho, então, eram algumas efemérides, como os 40 anos do “Suplemento Literário de Minas Gerais” e os 50 anos da geração Complemento, que revelou Silviano Santiago, por exemplo. Nessa época, percebi que tinha um material que poderia crescer e virar um livro-reportagem. Entre 2012 e 2013, ganhei uma bolsa da Fundação Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, e continuei a pesquisa, aumentando consideravelmente o número de fontes – hoje, já chega a mais de 70 entrevistados, fora a pesquisa em fontes primárias. Finalmente, no ano passado foram aprovadas também na LMIC a produção e a publicação do livro.

O que esse mapeamento diz sobre a cidade?
A imagem construída pelos escritores, em torno da cidade, é vária, e, às vezes, contraditória. Vai do lirismo de “O Amanuense Belmiro”, de Cyro dos Anjos, passando pela angústia de “Encontro Marcado”, de Fernando Sabino, ou pela paixão visceral pela cidade de Pedro Nava e o tédio de Drummond, até chegar à relação violenta dos jovens poetas das décadas de 1980-1990. O professor Wander Melo Miranda, que organizou “A Cidade Escrita” (1997), volume que reúne textos de autores que ambientaram suas criações na cidade, observa que “no geral, há uma certa concepção de cidade que mistura campo e metrópole, sem se resolver pelas formas de sociabilidade próprias a cada um desses espaços. Mas, recentemente, é a imagem da metrópole que parece estar se impondo”.

O projeto também vai percorrer os caminhos de personagens?
O recorte é restrito aos escritores que viveram algum tempo na cidade, mesmo não tendo nascido aqui. Também se restringe às publicações entre os anos de 1940 até os dias atuais. Nesse contexto, considera tanto o caminho dos escritores como de seus personagens, também. Assim, interessa tanto o roteiro de Fernando Sabino como o de Eduardo Marciano (o protagonista de “O Encontro Marcado”), por exemplo.

Belo Horizonte é considerada uma capital provinciana, por parte de seus moradores e visitantes. Esse é o perfil da cidade que sai dos escritores?
Os lugares míticos para os escritores são o viaduto de Santa Tereza, o Parque Municipal, a rua da Bahia, o bairro da Floresta, a rua Erê do amanuense Belmiro, a praça da Liberdade, a Savassi, o Baixo Belô (Guaicurus e arredores), a Lagoinha e a Pampulha, pois são espaços preferenciais por onde circulam escritores e seus personagens.
Podemos dizer que a visão dos escritores, de modo geral, até mesmo na escolha privilegiada desses lugares, trai um certo provincianismo. Mas ele é, por assim dizer, decantado pelo olhar original lançado por cada autor para a cidade ou detalhes dela.

O grupo que criou a revista “Complemento”: Teotônio dos Santos Júnior (esq), Maurício Gomes Leite, Silviano Santiago, Ary Xavier, Ezequiel Neves (Zeca Jagger), Pierre Santos e Heitor Martins, em foto de 1955| Foto:  Arquivo Pessoal/Silviano Santiago
O grupo que criou a revista “Complemento”: Teotônio dos Santos Júnior (esq), Maurício Gomes Leite, Silviano Santiago, Ary Xavier, Ezequiel Neves, Pierre Santos e Heitor Martins, em foto de 1955| Foto: Arquivo Pessoal/Silviano Santiago

O que mais o surpreendeu na pesquisa até agora?
Descobri um grande número de autores interessantes, como Beatriz de Almeida Magalhães, com dois livros que situam a trama na capital mineira (“Sentimental com Filtro” e “Caso Oblíquo”). Mas, sem dúvida, a descoberta que causou mais impacto foi o “Baticum”, de Sônia Lins (1919-2003), que vem a ser a irmã de Lygia Clark. Ela lançou o livro em 1978, pela editora Pedra Q Ronca, do Waly Salomão. Em 2003, saiu uma segunda edição, pelo Museu Abílio Barreto. Trata-se de uma visão memorialística da infância da autora, na Belo Horizonte dos anos 1920 e 1930. É uma prosa poética-surrealista-experimental que merece ser devidamente apreciada.

O projeto vai contar com fotos e infografias. Há planos de lançar o projeto numa versão multimídia, numa plataforma digital, ou em e-book?
Num primeiro momento, vamos lançar a versão impressa. No blog Cartógrafos da Vertigem Urbana, tenho publicado semanalmente informações sobre o projeto. Com certeza, em um segundo momento algo nesse sentido poderá ser feito, com o propósito de alcançar mais leitores.

Muitas cidades possuem roteiros turísticos baseados na vida de seus escritores – caso de Buenos Aires e as rotas de Borges. O projeto pode caminhar para a valorização dos autores que viveram em BH?
Emílio Moura, Ildeu Brandão, Libério Neves, Adão Ventura e Wander Piroli; Cyro dos Anjos, Manoel Lobato e Sebastião Nunes; Jaime Prado Gouvêa, Francisco de Morais Mendes e Paulinho Assunção. Veja que timaço a gente pode escalar com escritores de diversas gerações e tendências e que, normalmente, não têm a devida ressonância na mídia e mesmo em estudos acadêmicos. Que cidade produziu tantos (e nem estou citando Drummond e outros mais consagrados) autores em um período historicamente curto? Uma das contribuições do livro pode ser no sentido de tornar público os roteiros pessoal e ficcional dos escritores. E, claro, um resultado disso pode ser o poder público, tanto o municipal como o estadual, redescobrir a importância cultural, histórica, literária e patrimonial da BH revelada pelos escritores, a partir dessas referências que aparecem na obra deles.

BH é uma cidade literária? O que diziam os escritores sobre a cidade?
Inaugurada oficialmente em 12 de dezembro de 1897, a capital mineira foi desde seu início cenário e personagem de escritores de variadas tendências e gerações. Raríssimas são as cidades que, desde sua fundação, exibem construções literárias e poéticas paralelamente ao seu desenvolvimento cotidiano. Já no início de sua história, Avelino Fóscolo publica o romance “A Capital”. De lá para cá, são mais de cem anos de ligação íntima com a prosa e a poesia de diversos autores. Compilei mais de cem “versões” da cidade por seus escritores. Darcy Ribeiro, estudando medicina em Belo Horiozonte, chama a praça Sete de “umbigo feio da cidade”. Em muitos, há a nostalgia melancólica de uma cidade que não existe mais, como anotou Paulo Mendes Campos: “Em vinte anos eliminaram a minha cidade e edificaram uma cidade estranha”. Para o leitor, talvez será importante encontrar, em um mesmo livro, uma espécie de perfil de Belo Horizonte por meio do olhar de autores como  Affonso Romano de Sant’Anna, Autran Dourado, Luiz Vilela, Ricardo Aleixo, Sérgio Sant’Anna e Silviano Santiago, alguns dos entrevistados do projeto.

Algum escritor não deixou rastro de sua passagem ou moradia na cidade?
Algo curioso é que muitos autores não citam explicitamente a cidade em sua obra, como o poeta Adão Ventura (1946-2004), que veio de Santo Antônio do Itambé, distrito do Serro, para BH. Contudo, ainda assim, se pensarmos que toda criação é um embate entre o acaso e a necessidade, de certo modo, “o lugar da criação” aparece de algum modo, mesmo por negação. Interessante que você fale em rastro, essa é uma palavra usada conceitualmente por Derrida. Todos nós deixamos rastros, e perceber como a cidade aparece na obra dos autores, tal como tentei fazer em minha pesquisa, é uma forma de entender essa mesma cidade. Pela soma das memórias dos depoimentos, podemos eventualmente construir uma “grande memória” da cidade.

Anúncios

3 thoughts on “Belo Horizonte recontada por escritores e poetas”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s