Chile, Entrevista, Ficção

Lina Meruane: a cegueira como forma de reativar memórias

b6dbd16e-dadc-4a3c-a0d3-b234b0dbcc0bO livro começa com as páginas brancas. A leitura é plena, sem perturbação. Aos poucos, as páginas se escurecem, até chegar ao final num cinza tão escuro que força o leitor a buscar mais luz para concluir a leitura.

“Sangue no Olho” (Cosac Naify), da chilena Lina Meruane, surpreende com um projeto gráfico único e ousado. Busca, de certa forma, refletir o grave problema da protagonista do livro, Lucina, que enfrenta uma doença na visão que pode levá-la à cegueira.

A força do livro, claro, não se sustenta somente no lance esperto do projeto. O leitor se vê diante de um grande exemplo da moderna literatura latino-americana, principalmente a chilena. O efeito gráfico reforça o drama literário, mas o livro não perderia força se fosse editado no formato padrão – mas, com esse projeto, induz o leitor a vestir os olhos da narradora.

Lina atualmente mora nos Estados Unidos, onde leciona na Universidade de Nova York. Escreveu o livro em Berlim, o que permitiu imprimir uma certa distância do seu universo atual. Na trama, Lucina, que usa o pseudônimo de Lina, mora em Nova York e viaja ao Chile, para se reencontrar com sua família, antes de enfrentar uma cirurgia que poderá corrigir o problema de visão.

Enquanto isso, na viagem, utiliza a memória para poder enxergar o passado, reviver as lembranças de um Chile já distante da narradora. Ela que está prestes a se mudar para o apartamento do namorado, Ignacio, mas que se vê diante da ameaça que a incomoda desde sempre: a cegueira. Seus olhos estão cheios de sangue.

O Chile já não é o país da ditadura militar de Pinochet, mas, para Lucina, é o local onde a classe média ainda enfrenta problemas típicos: frustrações, pai ausente, mãe controladora, vida estagnada. Para rever tudo isso, ela não precisa dos seus olhos – e o receio de pousar em Santiago revela um certo arrependimento. E desperta um tom de despedida.

Temerosa a cada diagnóstico, mergulha em audiobooks, um meio de aprender a ficar cega, como diz a narradora. Tenta viver como se estivesse entregue a uma situação já definida, ainda que a esperança esteja a rondá-la a cada consulta com o dr. Lekz, o “biógrafo de suas retinas”, como classificou o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos na orelha do livro. Esperança que ela, no íntimo, tenta desmontar.

Estamos diante de uma escritora inquieta, que lança perguntas e não se preocupa em respondê-las. Trata sua personagem, que seria inspirada na escritora, sem relevá-la a um papel de submissão, no confronta com a doença. Exige provas constantes do amor de Ignacio, como a testá-lo para um futuro sombrio, em que a visão poderá ser o ponto de desequilíbrio.

Lina Meruane é uma autora que já experimentou outros gêneros – escreveu peças, ensaios, crônicas, contos e um ensaio visual, em vídeo. No Brasil, estava inédita até este lançamento, que foi logo seguido de um conto, “Ai” (e-galáxia), publicado no formato digital (leia mais ao final do post).

No ano passado, escreveu um ensaio sobre a Aids, “Viral Voyages – Tracing Aids in Latin America”, em que relaciona a doença, sua representação literária e os debates em torno da globalização. Também escreveu “Volverse Palestina” (Random House, sem tradução para o português), em que alterna ensaio e crônica para tratar da questão da volta aos territórios ocupados – ela que tem descendência palestina.

E é uma pena que somente agora foi traduzida para o português. Precisamos de mais Lina Meruane.

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Atualização – 13h, 10/6
A tradutora do conto “Ai”, Mariana Sanchez, compartilhou no Facebook esta entrevista e aproveitou para lembrar que, sim, Lina Meruane já havia sido publicada no Brasil. Em 2012, ela traduziu o conto “Lâminas de Barbear” para a revista “Arte & Letra Estórias”.
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A autora conversou com o blog e falou sobre literatura chilena, cegueira e a inspiração para suas histórias. Leia a seguir.

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A escritora chilena Lina Meruane | Foto: Daniel Mordzinski
A escritora chilena Lina Meruane | Foto: Daniel Mordzinski

O que você achou da edição brasileira, com as páginas que se escurecem à medida que o livro avança?
Achei um lance de gênio da Gabriela Castro [designer da Cosac Naify], que é quem teve a ideia. Reproduzir, pela concepção do livro, a dificuldade de ler por meio do escurecimento da página é exatamente o que propus: escrever um romance negro, literalmente negro. O que aconteceu comigo enquanto eu estava escrevendo foi uma coisa muito diferente, porque o meu romance é extremamente visual, a memória de alguém que perde a vista continua sendo visual por um longo tempo, para reconstruir o que vê. Então, o projeto contribuiu para o tema, mas não na escrita do romance.

A literatura chilena está conseguindo abrir espaço, com novos nomes, como Alejandro Zambra e você. No Brasil, vários autores chilenos, de diversas gerações, tiveram livros publicados nos últimos anos, como Hernán Rivera Letelier, José Donoso, Jorge Edwards e María Luisa Bombal. O que mudou na literatura chilena?
Eu acho que é um momento interessante. Não que não fosse antes, como nas épocas de Bombal e Donoso, mas houve um momento escuro no Chile, o período da ditadura, e esse tempo estava em compasso de espera, em que escritores foram calados, exceto Donoso, que viveu grande parte da ditadura fora do Chile e, portanto, tinha outros espaços. A ditadura impediu a criação de uma geração, pelo menos na narrativa, que foi extremamente vanguardista ou convencional em excesso. Há muito bons trabalhos em ambas as extremidades, mas são pouco conhecidos porque ou são muito difíceis de colocar em circulação, por sua complexidade, ou porque muito parecidos com outras literaturas ao aderir a uma convenção.

Você vê alguma conexão entre as gerações?
Tenho a impressão, mas é difícil dizer, porque é uma sensação cega no presente e não sei como isso vai se desdobrar, de que os meus contemporâneos são muitos mais diversificados em estilos e temas. Isso é significativo e importante, ter mais pessoas que escrevem, leem, pensam criticamente sobre a literatura, discutem, reconsideram. E é essencial ter escritores com olhares diferentes, que estão criando muitos pontos de vista para o fazer literário chileno. Infelizmente, por enquanto, não há movimento ou tradução suficiente para toda essa literatura. Enquanto uns se estabelecem, outros estão à espera. Eu espero que as traduções e leituras se multipliquem.

Incomoda a pergunta se o livro é baseado na sua vida?
Isso não me incomoda, quero dizer, logo percebi que a leitura é uma maneira de acreditar que tudo é sempre baseado na vida do autor. Isso aconteceu com todos os meus livros, por mais que as perguntas se repetissem. Felizmente, os meus livros têm sido ficcionais, caso contrário, eu estaria morta.

Por que usar seu nome na composição da personagem?
Eu estava interessada em trabalhar com expectativas de leitura que assumissem que tudo é real, embora o livro seja anunciado como ficção. É verdade que o livro começa com uma cena autobiográfica, e usar o meu nome reforça a ideia de que o romance é autobiográfico, mas não é feito como um desejo confessional, e sim com um objetivo: um nome não é apenas um rumo, pode ser um buraco negro, uma armadilha. Eu usei o nome como um gancho para agarrar o leitor e levá-lo para uma questão mais sinistra e talvez improvável, que surge mais tarde.

Lina Meruane
Lina Meruane: “Percebi que a leitura é uma maneira de acreditar que tudo é sempre baseado na vida do autor”

A chamada autoficção encontrou na América Latina vários autores dispostos a enfrentar o gênero, como Julián Herbert e Guadalupe Nettel, além de Zambra. Você se insere nesse gênero ou descarta qualquer rótulo?
Penso que o gênero é muito mais um recurso, e, na verdade, muito antigo – Cervantes, Sterne e Machado de Assis o usaram também. Desde então, muitos escritores têm usado esse recurso, mas não de maneira definitiva ou dominante. Guadalupe Nettel só usou em um romance, enquanto Alan Pauls o faz repetidamente. Eu usei esse recurso como um piscar de olhos, uma breve aparição em um romance de tribunal político. Eu não rejeito o rótulo, mas não pretendo ter mais Linas Meruanes em meus livros.

Você leu sobre a cegueira antes de escrever o livro? O que a despertou o interesse pelo assunto?
Meu interesse pela cegueira vem de longa data, posso dizer que o medo de perder a visão está instalado desde a minha infância e aparece em outros livros anteriores a este. Há sempre um cego rondando nas minhas páginas. E ao longo dos anos tenho notado a presença do cego em vários de livros. A literatura mundial é fundada com dois poderosos cegos, Édipo, o rei que fura os olhos para literalizar sua falta de visão na realidade, e Tiresis, o cego visionário que tem o poder de ver tudo sem olhos. Aí já está tudo dito, a relação entre o olho e o poder, entre o olho e o poder masculino sempre prestes a afundar, mas ainda se segue falando sobre o cego e muito pouco sobre as cegas, que é indicativo da ansiedade que essa perda produz, em comparação com o pouco que parecemos nos preocupar com outras perdas possíveis. Há um sintoma nessa questão, e penso que Clarice Lispector registrou de uma forma muito bonita em seu conto “Amor” [presente em “Laços de Família”], em que a protagonista, viajando em um ônibus, vê um homem cego esperando no ponto, mascando um chiclete, e esse olhar produz nela medo e também uma espécie de epifania.

“Sangue no Olho” faz com que o Chile seja uma espécie de exílio, enquanto Nova York foi a casa escolhida por Lucina. Como essa mudança de perspectiva influenciou a composição dos personagens e seu desenvolvimento?
Gostaria, antes, de matizar. Sou obcecada pelas palavras. Exílio é uma daquelas palavras com muita carga política, uma palavra que significa fuga, punição, a impossibilidade de retorno. É um estado de emergência. No caso de Lucina, ela não deixou o Chile por razões políticas, porque ela vive em um período posterior ao drama da ditadura. Ela pode voltar e de fato retorna só para ver a sua cidade de outra maneira, por conta da cegueira. Há muitas dores nessa decisão, a idéia de que o Chile é um país ainda enfermo da ditadura, um país em certo sentido cego para o qual ela mira com um olho nublado e raivoso. Nova York é uma espécie de espaço utópico, mas a utopia não durou muito, quase nada, não é o lugar sonhado. E eu acho que o olhar sobre esses dois espaços é muito crítico, ao contrário de muitas pessoas que passam por aqui [Nova York]. Eu não idealizei esta cidade e nem este país, que em muitos aspectos parece feroz com os seus cidadãos e que tem uma história de conexões muito perversas. Você não pode esquecer que os Estados Unidos conceberam e apoiaram o golpe militar de 1973, e no Chile foi implementado o modelo neoliberal para testar a mão dura militar.

José Saramago em cena do documentário "Janela da Alma"
José Saramago em cena do documentário “Janela da Alma”

Você assistiu a um documentário brasileiro chamado “Janela da Alma”? Ele reúne depoimentos de pessoas com problemas na visão, como Saramago, Wim Wenders e Eugen Bavcar, que falam sobre essa questão influenciou suas vidas e seus trabalhos. Como a cegueira influencia as decisões de Lucina?
Eu conheço, mas não tive chance de vê-lo. Eu li sobre o filme e sobre toda a jornada da Bavcar, o fotógrafo cego que parece uma figura paradoxal, mas não é o único fotógrafo cego. Me fascina a oportunidade de trabalhar com esses limites tão específicos, me parece algo, como dizer, oulipiano,as regras de escrita praticadas por Georges Perec e Italo Calvino, para citar dois mestres da experiência criativa [referência a Oulipo, corrente literária que pregava a liberdade da escrita mas que ao mesmo tempo impunha limites a cada experiência]. Lucina, até certo ponto, compreende as suas limitações muito rapidamente e aprende a trabalhar com elas.

A morte é um tema importante em seu conto “Ai”. Você trabalhou em uma pesquisa sobre a Aids. Como as doenças e a finitude despertam em você o desejo de transformá-las em histórias?
A morte é uma das grandes crises e toda crise gera história. Mas é difícil dizer como você passa da crise para a história em si. No caso do “Ai”, o foco da história é um caso real ocorrido no Chile, há muitos anos. Eu li sobre esse caso em uma pequena notícia, apenas duas ou três linhas, sobre uma família de funerários que, paradoxalmente, se recusavam a enterrar sua filha. Eu recortei a nota e guardei, e depois de algum tempo perdi o papel, mas algo de importante ficou para mim porque muitos anos mais tarde, quando recebi a encomenda de um conto, o que veio à minha mente era aquela cena. Eu comecei escrever a história e ela se tornou algo mais. A morte é sempre uma desculpa para falar de outras coisas que também são importantes para nós.

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“Não era possível, disse. Não havia bancos de olhos porque ninguém doava olhos mortos. Acreditava-se, disse Lekz, que a memória residia neles, que os olhos eram um prolongamento do cérebro, o cérebro despontando  pelo rosto para beliscar a realidade. Algumas pessoas pensavam  que os olhos eram depósitos de memória, disse, e outras pessoas ainda acreditavam que ali se escondia a alma. É minha única oportunidade, interrompi, ele estava perdendo um tempo que me era precioso; minha oportunidade, e também a sua, doutor. Fiquei de pé, apertei os olhos para que ele sentisse que eu o olhava, que não ia aceitar senão um sim imediato. Lekz me olhou com escândalo, tremeram-lhe os lábios cheios de palavras que ele não se atrevia sequer a pensar. Afundou, um pouco acovardado, na cadeira. Eu percebia seus dedos tamborilando em algum lugar.”

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AiO conto “Ai”, publicado exclusivamente em formato digital, foi escrito sob encomenda para a revista norte-americana “Bomb” e depois publicado na antologia chilena “Mujeres Que Cuentan”, em 2010 (inédito no Brasil).

Escrito em um único parágrafo, o conto é o relato da mãe de Aitana. Logo descobrimos que a filha está morta. Seus pais trabalham numa funerária e a mãe reluta em enterrar a filha, enquanto relembra os últimos passos de Aitana.

A reflexão dolorosa da mãe de Aitana percorre os temas caros a Lina, como a visão, a morte e a vida real. O conto é estupendo, com um final que nos faz querer mais e mais Lina Meruane. Que as editoras prestem atenção.

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“Cada vez que eu me via naqueles olhos vazios que minhas mãos fechavam eu começava a tremer, pedia para não ser a última a morrer, mas a primeira: que não precisasse te enterrar. Aitana, eu te dizia a sós no galpão, nós, mães, não fomos feitas para enterrar nossas filhas. Quanto tempo repeti isso a você com as janelas abertas? Quantos dias com suas noites, enquanto o frio congelava nossos ossos? Quanto tempo passamos você e eu ali antes de chegar a polícia? Não me lembro. Não lembro de nada, foi como uma longa e gelada noite que não terminaria nunca, uma noite de dias e noites em que eu pensava tanta coisa diferente que parecia não pensar em nada. E não dormia. E não comia.”

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