Canadá, Comentário, Ficção, HQ, Inglaterra

HQ mistura crônica pessoal e relato de viagem para retratar a vida na Birmânia

O artista canadense Guy Delisle costuma acompanhar sua mulher, que trabalha na ONG Médicos Sem Fronteiras, pelas andanças pelo mundo. Alguns desses lugares se transformam em HQs, que misturam relatos de viagem e do cotidiano no país estrangeiro.

A Zarabatana lançou quatro desses álbuns de viagem, deliciosos relatos que Delisle compõem com bom humor, crítica social e um olhar para sua vida um tanto sarcástico. O blog, até o ano passado, tinha lido três deles: “Crônicas de Jerusalém”, “Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte” e “Shenzen – Uma Viagem à China”.

15061913Faltava o último, “Crônicas Birmanesas”, lançado em 2009 no Brasil, mas que estava fora de catálogo. No final do ano passado, a editora lançou a segunda edição.

O tom desta viagem à Birmânia – o nome atual, Myanmar, não é reconhecido por vários países – é o mesmo. Vemos Delisle tendo que enfrentar as diferenças culturais e os problemas em cuidar do filho pequeno num país estranho.

Como normalmente o trabalho de sua mulher a leva a países em conflitos ou com graves problemas sociais, Delisle se vê diante também da conversa política, que acontece quase sempre à margem – por conta da repressão ou censura -, nos diálogos com seus guias e companheiros de passeios pela cidade.

Delisle é um ótimo observador e consegue contar muito em pouco espaço, com tiradas bem humoradas. Não se coloca como alguém oriundo do Primeiro Mundo, um ser superior. Pelo contrário. Ele demonstra imensa vontade de mergulhar na cultura e conhecer os países onde passa meses.

Este “Crônicas Birmanesas” é o mais bem humorado da série. Ele ri mais de si, faz de seu papel como pai exemplo do que não se deve fazer, em pequenas gags hilárias. Ao mesmo tempo, é crítico em relação à política local.

Diferentemente de Joe Sacco, que viaja com um propósito – como fez na Palestina e nas Balcãs -, Delisle vai para outros países por conta da mulher, mas transforma essas estadias em relatos de viagem com pitadas jornalísticas.

Essa série de crônicas é das melhores coisas produzidas atualmente, com uma pegada jornalística, aliada a relato de viagem, reflexão pessoal e desenhos bem sacados.

*****

2347718Para continuar na Birmânia (ou Myanmar), vale ler também “Dias na Birmânia” (Companhia das Letras), o primeiro romance de George Orwell, publicado em 1934. Na época colônia britânica, o país asiático era um local propício a golpes internos.

A história que Orwell conta já antecipava os trabalhos ficcionais que viriam depois, como “A Revolução dos Bichos”. O choque cultural, de colonizador e colonizados, impõe ao escritor uma visão crua da vida na Birmânia – e, portanto, retratada com graus de realidade no romance.

John Flory, madereiro britânico, frequenta um clube exclusivo para europeus, todos brancos, que se reúnem diariamente para beber e discutir política. Um dos temas é a proposta de aceitação como sócio do clube do médico local Veraswami.

Membros do clube destilam o racismo próprio do poder, imerso num país pobre, completamente dominado pelo poderio britânico. Dessa faísca, irão emergir disputas com um juiz e o confronto por uma moça que aparece na vida de Flory, este um dos grandes personagens criados por Orwell.

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