Entre parêntesis

Entre colorir um livro e ler Daniel Galera, prefiro colorir

15067558Não é o tema do blog, mas eu queria escrever sobre os tais livros de colorir. Confesso que não entendo tanta celeuma causada pelo assunto. Por que incomoda tanta gente o fato de as pessoas comprarem livros para colorir em casa?

Uma reportagem publicada na “Folha” forçou a barra ao colocar o título “Livros de colorir levam amor e ódio ao mercado editorial”, tentando inflar uma polêmica por si só vazia. Tanto o texto não trazia amor como também não revelava ódio.

Foi possível, sim, perceber certa hipocrisia de gente que está ganhando dinheiro com esses livros. Falam de educação deficiente. E jogam impressões que não passam de disso, sem nenhuma base ou pesquisas. Como a dita por uma editora, que afirmou: “Esses livros atingem quem lê no máximo um livro por ano”.

Gostaria de saber de onde ela tirou essa informação. Me parece puro “elitismo intelectual”, disfarçado de preconceito e falta de informação.

O dono da Livraria Cultura foi mais direto ao se referir à “moda passageira”: “Oxalá mude. Amanhã será livro de sudoku. Passatempo um pouco mais inteligente, não?”. Então, por que ele não tira da página principal da loja online o espaço dedicado exclusivamente aos livros para colorir? Tem um hotsite exclusivo para esse passatempo, com vendas até de lápis de cor.

Inteligente ele, não? Ironizar é fácil quando se ganha muito dinheiro com isso, né Pedro Herz?

A polêmica se viu cercada pelo fato de que esses livros são chamados de livros. Ora, chame do que quiser, caderno de atividades, passatempo, livro, brochura. Os principais rankings de mais vendidos não listam esses livros – a exceção é o Publishnews, referência no setor, que na última semana divulgou sua listagem. Entre os dez principais no índice geral, seis são títulos para colorir.

Esses livros são encaixados na categoria não ficção – o que não faz muito sentido. Mas me parece que se apoiar num ranking de mais vendidos não muda a ordem das coisas. Quem está ganhando dinheiro vai continuar ganhando, esteja o título em um lista ou não – afinal, essas listas servem mais ao mercado do que ao leitor. Ou alguém sai para uma livraria com a lista dos mais vendidos debaixo do braço para escolher o que comprar?

Falam de maioridade intelectual. Puff, que bobagem. Vocês já viram os livros que mais vendem, descontando os de colorir? Não é essa moda que vai piorar a vida intelectual do brasileiro.

Fico com o psicanalista Jorge Forbes, citado na reportagem: “As pessoas não se infantilizaram. Elas estão angustiadas. Ora, colorir deixa a cabeça solta. É como ir ao concerto ou fazer tricô feito as mulheres de antigamente.”

Se ninguém se preocupa com os milhares que leem John Green, pornô soft, Daniel Galera, distopias juvenis, sagas infindáveis e Nicholas Spark, por que criam caso com os tais livros para colorir? Por que não perder tempo questionando o nível de literatura que é consumida hoje? Por que não discutir o oba-oba que escritores medíocres recebem da imprensa e do mundo literário?

Será que é porque esses títulos são chamados de livros? É uma palavra santificada, por acaso? Se eles forem chamados de caderno de atividades, podemos deixar de nos preocupar com quem gosta de pintar?

Não comprei livro para colorir, mas conheço muita gente que que comprou – gente que lê e que não lê, gente que lê pouco e muito. Mas confesso que se eu entrar numa livraria e tiver somente duas opções, um livro para colorir e outro do Daniel Galera, vou levar o de colorir.

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5 comentários em “Entre colorir um livro e ler Daniel Galera, prefiro colorir”

  1. Que postagem polêmica.
    Não posso avaliar o que o Daniel Galera escreve porque ainda não li nenhum livro dele.
    Mas concordo com você em achar desnecessário esse auê todo que as pessoas fazem porque outras se interessam por um livro de colorir. Qual que é problema? Deixem as pessoas serem felizes ou pelo menos buscarem uma forma de liberar todo o estresse do dia-a-dia.

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  2. Acho que é necessário relativizar o impacto que essas “modinhas” exercem no público em geral. Por um ponto é até legal porque dá uma chacoalhada no mercado e incentiva vários perfis de público a procurar e descobrir outras coisas. Uma coisa que chama a atenção é o fato de esse tipo de livro já existir há milênios (normalmente ficavam encostadas em algum quanto nas lojas) como as mandalas, por exemplo, e numa boa jogada comercial a aposta por livros dessa proposta faz sucesso, se constituindo como “novidade irresistivel” para um público bem amplo. Mas o que são os best-sellers senão a repetição de livros com as propostas mais batidas há tempos, né? Só muda o formato mas a essência é a mesma. Abraços!

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    1. É isso mesmo, Mozart. Nada de novo, portanto, a polêmica se torna vazia e preconceituosa. Melhor deixar as pessoas fazerem o que elas quiserem, mas parece que vigiá-las é um bom negócio. E, no fundo, está tudo mundo ganhando dinheiro com isso.

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