Alemanha, Brasil, Ficção, Notas de leitura

Notas de leitura

sendbinary_alta“Histórias do sr. Keuner” (Editora 34), de Bertolt Brecht
Personagem criado pelo dramaturgo alemão, o sr. K, como é chamado nos microcontos e pequenas histórias, é dos mais argutos e irônicos observadores da vida. Nada passa incólume ao seu senso crítico, muitas vezes mordaz, de encarar fatos e vícios do cotidiano. As histórias se reduzem a meia página, raramente passam de uma, espaço mais do que suficiente para Brecht montar um painel filosófico e satírico da sociedade da época – 1926 a 1956, o período em que o sr. K esteve vivo. Para muitos, o personagem era uma espécie de alter ego de Brecht. A edição brasileira traz 102 histórias, traduzidas por Paulo César de Souza. Ao final, sobra a sensação de que a coletânea é o melhor manual sobre o ser humano.

“O sr. Wirr considerava o ser humano sublime e os jornais incorrigíveis, enquanto o sr. Keuner considerava o ser humano mesquinho e os jornais corrigíveis. ‘Tudo pode se tornar melhor’, dizia o sr. Keuner, ‘menos o homem.”
(de “O sr. Keuner e os jornais”)

Celular“Celular – 13 Histórias à Maneira Antiga” (Cosac Naify), de Ingo Schulze
O primeiro livro que li do autor alemão foi “Adam e Evelyn”, que me levou a correr atrás de outros títulos do escritor. Saudado como um dos grandes escritores contemporâneos da Alemanha, Schulze é assim retratado por Marcelo Backes, tradutor da edição brasileira: “Ingo Schulze arranca lirismo do cotidiano e extrai seu humor melancólico daquilo que aparentemente é mais banal. E o faz de forma tão brilhante, que hoje se diz na Alemanha que tudo vale a pena ser contado, desde que seja contado por Schulze”. Os 13 contos refletem a separação das Alemanhas, ainda que escritos e retratados na nação unificada. Tal como Ocidente e Oriente, realidade e ficção estão em debate nas narrativas, a provocar fronteiras e questioná-las – como em “Incidente no Cairo”, um relato de viagem de Schulze que vira uma história de amor. O preferido do blog é “Calcutá”, história de um engenheiro desempregado que se torna do lar e tem que caçar um rato que o atormenta em casa – ele próprio um rato trancafiado em casa.

capa_flores_artificiais“Flores Artificiais” (Companhia das Letras), de Luiz Ruffato
Eu me esforço para apreciar a obra do escritor mineiro, mas seus livros não me encantam. Li “Eles Eram Muitos Cavalos” (Companhia das Letras), ultrapassado com esforço. Convidado para a Fli-BH, Ruffato é dos mais bem avaliados escritores em atividade, segundo a crítica. Dei mais uma chance a ele e fui ler “Flores Artificiais”. A história me convenceu a ser mais paciente: o escritor Luiz Ruffato recebe a correspondência de um ex-funcionário do Banco Mundial, que viajou pelo mundo e recolheu histórias e dramas. Ruffato então transforma o texto do desconhecido em um livro dentro do livro. Apesar da premissa interessante, que questiona as fronteiras, a leitura se revelou arrastada, um exercício que se fez apenas isso, um exercício. Para mim, Ruffato, assim como Bernardo Carvalho, é um autor ainda impenetrável.

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