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A história da Shakespeare and Company em dois livros

Há quem vá a Paris para fazer compras. Ou conhecer seus cartões postais. Há também quem viaje para comer em seus restaurantes e bistrôs, ficar nos cafés como se fosse um escritor na década de 20. Visitar museus ou simplesmente flanar pelas ruas e pontes.

Em comum, todos esses irão fazer um passeio: conhecer a Shakespeare and Company, a talvez mais famosa livraria do mundo.

Fundada em 1919 pela norte-americana Sylvia Beach, a livraria foi ponto de escritores na época. Reuniu gente como Hemingway e Fitzgerald, mas seu maior trunfo foi ter publicada a primeira edição de “Ulysses”, de James Joyce. Vários editores britânicos recusaram a obra, mas Sylvia Beach acreditou na força literária e na inovação que o escritor irlandês impunha em suas páginas (ao final do post, comento a biografia da livraria escrita por sua fundadora).

A livraria existiu como concebida até 1941, quando um militar nazista quis comprar a última cópia de “Finnegan’s Wake”, de Joyce. Sylvia Beach (1887-1962) se recusou a negociar com o alemão e escondeu todo o acervo, para nunca mais abrir. Em 1964, o norte-americano George Whitman (1913-2011), que abrira um sebo em 1951, adotou o nome com a benção da fundadora – a nova versão existe até hoje.

Hoje, a Shakespeare and Co. é uma instituição parisiense e, também, ponto turístico.

2150535É essa livraria que recebeu uma espécie de tributo. Em “Um Livro por Dia – Minha Temporada Parisiense na Shakespeare and Company” (Casa da Palavra), o jornalista canadense Jeremy Mercer escreveu um relato do período em que foi hóspede da livraria – ele foi um “tumbleweed”, jovens escritores que são acolhidos na livraria para morar lá enquanto trabalham em novos livros.

George Whitman impunha algumas regras para esses aspirantes, como ajudar no trabalho da livraria e ler um livro por dia. Além disso, administrava o negócio de forma amadora, não aceitava cartões, deixava-se roubar e confiava as finanças aos seus hóspedes. Sua filha, Sylvia, homenagem à fundadora da livraria, foi a responsável pela modernização, com a criação do site, implantação de vendas online e uma maior preocupação da loja como negócio – isso anos depois de ter rompido relações com o pai.

O título brasileiro engana o leitor mais afoito – o original é “Time Was Soft There”. Quem espera por páginas narrando as leituras de Mercer vai se dar mal. O livro é uma reportagem sobre os pouco mais de seis meses em que morou na livraria. Mercer narra essa convivência e descreve os personagens que lá vivem. É um grande estudo de personalidades de pessoas deslocadas, vivendo um sonho quase hippie, comunitário, mas cercado da esperança de ser um novo Hemingway ou James Joyce.

Ele também tenta entender o que levou Whitman a refundar a Shakespeare and Co. – a inspiração foi a livraria City Lights, criada por Lawrence Ferlinghetti, em São Francisco – e criar o programa de residentes, ainda que de modo bem informal. Além disso, narra a transformação da loja em atração turística, frequentada por pessoas interessadas nas fotos.

O “The New York Times” lembrou, no obituário de Whitman (1913-2011), a paixão que tinha pelo negócio. “Eu queria uma livraria porque o negócio do livro é o negócio da vida”, disse em uma entrevista o livreiro. Whitman que não tinha nenhuma ligação com o poeta Walt Whitman, apesar de muitos acharem e perguntarem nas visitas.

Mercer era um repórter policial consagrado que fugiu para Paris por causa de uma reportagem, com pouco dinheiro. Somente lá foi descobrir a possibilidade de morar na livraria, plano que acatou imediatamente.

O jornalista conversou com o blog para contar como foi a experiência na Shakespeare and Company.

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Jeremy Mercer e George Whitman em frente à livraria
Jeremy Mercer e George Whitman em frente à livraria

Como a vivência na livraria ajudou você a escrever?
A livraria me ajudou a entender o rico universo da literatura e o quanto audacioso você tem que ser para querer adicionar um outro livro a ele. Pense naquele momento em que você entra em uma livraria: quantos livros existem, quantos livros você quer ler. Isso pode ser opressivo. Então, imagine viver entre esses livros. Me deu profundo respeito não apenas a escritores, mas aos leitores. Quando você escreve um livro, está dizendo que alguém deveria ler o que você escreveu em vez de todos os outros livros, que alguém deve compartilhar parte de sua vida com suas palavras em vez das de outros grandes escritores

Dez anos após o lançamento do livro, como você avalia aquele período?
Foi fundamental para a minha vida. As pessoas que conheci em Paris se tornaram alguns dos meus amigos mais próximos e maiores inspirações. Vamos colocar desta forma: antes de ir para Paris, eu nem sequer tinha imaginação suficiente para pensar que um mundo como aquele era possível. Cada coisa maravilhosa (e não tão maravilhosa) que me aconteceu nos últimos 15 anos tem origem na livraria: o meu tempo na China, Grécia, Nova York, Londres, Ilhas Maurício, Índia etc. A livraria é como um tornado de pessoas e ideias; se você estiver preso nele, não terá ideia de onde ele irá largar você.

E hoje, qual sua visão de George Whitman?
Eu vejo George como um grande homem, mas eu também acho que a grandeza é muitas vezes obtida à custa de outras qualidades. No caso de George, ele abriu a livraria para milhares de pessoas e as inspirou a viver melhor, a ter vidas mais conscientes. No entanto, por se dedicar a essa vida turbulenta, ele foi incapaz de se concentrar em coisas como a família e também perdeu a capacidade de fazer conexões profundas com as pessoas. Em termos de família, ele perdeu sua mulher, Felicity, e o contato com sua filha por quase dez anos, em parte porque ele não estava disposto a sacrificar seu tempo na livraria para eles [Sylvia, sua filha, voltou a falar com pai em 2002 e assumiu a livraria em seguida]. Seus relacionamentos superficiais. Imagine uma situação em que todos os dias dezenas de pessoas chegam para viver com você e dizem o quão fantástico você é ou que querem ser seu parceiro. Com essa constante adulação, muitas vezes ele não pôde tomar as medidas necessárias para criar vínculos mais profundos. Por que passar por um momento difícil com uma pessoa ou pedir perdão depois de uma discussão quando existem 20 outras pessoas fazendo fila para adorá-lo?

É possível comparar as duas livrarias? O obituário de Whitman feito pelo Guardian diz que ele foi o mais famoso livreiro. Concorda?
Eu diria que ele é o terceiro mais famoso livreiro da língua inglesa do século 20.
1. Sylvia Beach, da original Shakespeare and Company
2. Lawrence Ferlinghetti, da City Lights em São Francisco. Fez muito mais para apoiar comunidade literária e foi ícone poético
3. George Whitman

James Joyce, Sylvia Beach e sua companheira, Adrienne Monnier, no interior da Shakespeare and Co.
James Joyce, Sylvia Beach e Adrienne Monnier, no interior da Shakespeare and Co.

Sylvia Beach era um nome que vivia na nova versão da livraria?
Ela foi o centro do círculo geração perdida, de Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, e outros. Foi Hemingway que “libertou” a livraria após a 2ª Guerra Mundial. Mas o que realmente faz Sylvia famosa é que ela levantou o dinheiro para publicar “Ulysses”, de James Joyce, e foi sua defensora. George conhecia a lenda Sylvia Beach e foi vê-la quando chegou a Paris. Ele acabou comprando um pouco de sua coleção de livros para seu sebo chamado Le Mistral e, em seguida, mais tarde, com a sua permissão, rebatizou sua livraria como Shakespeare and Company. Mais tarde, ele batizou sua filha de Sylvia Beach Whitman em homenagem a ela.

A primeira edição de "Ulysses", publicada pela Shakespeare and Co.
A primeira edição de “Ulisses”, publicada pela Shakespeare and Co.

Mesmo não sendo a original, qual o papel da livraria hoje em Paris? É apenas um ponto turístico, um local para escritores ou uma livraria ainda com vigor?
A livraria mudou desde a morte de George. Não é mais o carnaval de excêntricos e aspirantes a escritores. Em vez disso, há um número menor de pessoas que podem dormir e escrever, pessoas que são geralmente selecionadas com antecedência. Ninguém mais pode simplesmente aparecer na porta e pedir por uma cama. Sylvia Whitman faz um grande trabalho para a comunidade literária parisiense: ela dirige um grande festival, publica uma revista e, claro, faz um trabalho glorioso de continuar a tradição da livraria. Teria sido uma loucura tentar replicar o que George tinha feito. Sylvia fez uma Shakespeare and Company própria, mas sendo fiel ao seu espírito. Na verdade, em muitos aspectos, a Shakespeare and Company de Sylvia Whitman está mais perto de Shakespeare de Sylvia Beach do que a do seu pai.

Quantos livros você leu na sua temporada como tumbleweed? Quais foram suas principais descobertas como leitor?
Eu li cerca de 110 livros em pouco mais de seis meses. Eu não consegui manter a regra de um livro por dia porque eu li alguns romances mais longos, como “O Idiota” (Dostoiévski), “Suave É A Noite” (Fitzgerald), “Anna Karenina” (Tolstói), mais uma biografia muito grossa de Napoleão. Eu precisaria ler um monte de livros finos para manter o plano de um livro por dia.

Hoje, a livraria tem site e loja online. Era o caminho natural e obrigatório?
Sim, após a morte de George, esse era o caminho necessário para a livraria entrar no mundo moderno. A livraria tinha uma série de problemas quando George estava vivo – saídas de emergência inadequadas, condições sanitárias precárias etc – e tudo isso tinha que ser corrigido. Além disso, George tolerava um monte de roubo e não aceitava cartões de crédito. Sylvia obviamente não poderia tomar a mesma atitude de “laissez faire” em relação ao dinheiro para administrar a livraria como um negócio.

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“Um jovem franzino chegou em seguida e comprou um exemplar de “O Amor nos Tempos do Cólera”, felizmente pagando em dinheiro. Fiquei apenas ligeiramente desconcertado quando pediu que o livro fosse carimbado. Recordei-me de Eve no dia do chá, encontrei a almofada e pressionei o logotipo de um Shakespeare de olhos doces na sua página. Quando saiu, um casal jovem entrou na loja. A mulher carregava um guia de viagem e examinava a página.
– Esta é a Shakespeare and Company. Eles publicaram “Ulisses” aqui e o proprietário é filho do poeta Walt Whitman – disse ela com autoridade.
O homem apenas olhava, entediado. Decidi que deveria corrigi-la, mas o casal saiu imediatamente para ver a atração seguinte, a segunda árvore mais velha de Paris, que era mantida de pé por escoras de concreto em um parque ao lado da livraria.”

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A livraria na escrita de Sylvia Beach

SaCBiografia da versão original da livraria, “Shakespeare and Company – Uma Livraria na Paris do Entre-Guerras” (Casa da Palavra), de Sylvia Beach, é peça fundamental para conhecer a casa que foi o centro das atenções do mundo literário na capital francesa no início do século 20.

O livro traz a história da loja e o trabalho para editar Joyce, além de relatar como era a Paris da época – Sylvia Beach e a livraria foram personagens de “Paris é uma Festa”, de Hemingway. É um relato delicioso, capaz de transportar o leitor à pequena loja na rue de l’Odéon, além de possibilitar um mergulho histórico na época. Se você gosta de livro e boas histórias, vá atrás deste.

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“Como livreira e bibliotecária, eu talvez prestasse mais atenção aos títulos do que as outras pessoas, que simplesmente vão entrando livro adentro sem antes tocar a campainha. Na minha opinião, os títulos de Hemingway deveriam ganhar o primeiro prêmio em qualquer concurso. Cada um deles é um poema, e o misterioso poder que exercem sobre os leitores contribui para o sucesso de Hemingway. Seus títulos têm vida própria e vêm sempre enriquecer o vocabulário norte-americano.”

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