Comentário, Itália, Memórias

“É Isto Um Homem?”, a impossibilidade de escrever sobre a obra de Primo Levi

82367Dias atrás, quando lia “É Isto um Homem?” (Rocco), de Primo Levi, topei com um texto de uma crítica literária em uma rede social. Dizia ela que, após ler o livro do italiano, não conseguiu escrever sobre ele – algo mais ou menos assim.

Bem, eu estava com uma leitura em progresso e já havia percebido algo semelhante. Não porque já se escreveu muito sobre uma das obras mais importantes a respeito da 2ª Guerra Mundial e o holocausto judaico. Até porque não é esse o objetivo do blog, se prender apenas a uma avaliação do livro – muito do que escrevo aqui passa mais pela experiência da leitura do que por uma avaliação crítica.

Então, o impacto é grande que não vejo como desenvolver muito mais do que isto sobre o livro, uma memória do período que Levi passou num campo de concentração na Polônia, testemunho frio e distante. Uma forma, talvez, de expurgar o que viu e viveu.

Não, não dá para escrever sobre ele. Destaco apenas alguns trechos do livro.

*****

“Falamos de muitas coisas naquelas horas; fizemos muitas coisas; mas é melhor que não permaneçam na memória.”

“Justamente porque o Campo não é uma grande engrenagem para nos transformar em animais que não devemos nos transformar em animais; até num lugar como este, pode-se sobreviver, para relatar a verdade, para dar nosso depoimento; e, para viver, é essencial esforçar-nos para salvar ao menos a estrutura, a forma da civilização. Sim, somos escravos, despojados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos resta uma opção. Devemos nos esforçar por defendê-la a todo custo, justamente porque é a última: a opção de recusar nosso consentimento. (…) Devemos marchar eretos, sem arrastar os pés, não em homenagem à disciplina prussiana, e sim para continuarmos vivos, para não começarmos a morrer.”

“Nasce então, dentro de mim, uma pensa desolada, como certas mágoas da infância que ficam vagamente em nossa memória; uma dor não temperada pelo sentido da realidade ou a intromissão de circunstâncias estranhas, uma dor dessas que fazem chorar as crianças. Melhor, então, que eu torne mais uma vez à tona, que abra bem os olhos; preciso estar certo de que acordei, acordei mesmo.”

“Agora, todo o mundo está raspando com a colher o fundo da gamela para aproveitar as últimas partículas de sopa; daí, uma barulheira metálica indicando que o dia acabou. Pouco a pouco faz-se silêncio. Do meu beliche, no terceiro andar, vejo e ouço o velho Kuhn rezando em voz alta, com o boné na mão, meneando o busto violentamente. Kuhn agradece a Deus porque não foi escolhido. Insensato! Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem 20 anos e depois de amanhã irá para o gás e bem sabe disso, e fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem falar, sem pensar? Não sabe, Kuhn, que da próxima vez será a sua vez? Não compreende que aconteceu, hoje, uma abominação que nenhuma reza propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação, nada que o homem possa fazer, chegará nunca a reparar? Se eu fosse Deus, cuspiria fora a reza de Kuhn.”

“Aqui é assim. Sabem como é que a gente diz ‘nunca’, na gíria do Campo? Morgen früh: amanhã de manhã.”

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