Brasil, Comentário, Não ficção

A música brega como resistência

“Nos anos 70 era assim: todo mundo pichava todo mundo. Ainda não havia se instalado a ditadura do politicamente correto, quando todos parecem andar sobre ovos. Antigamente, a pichação era ampla, geral e irrestrita. Críticos, artistas, jornalistas, radialistas, apresentadores de TV, ninguém tinha papas na língua.”

clip_image001Esse trecho abre o 10º capítulo de “Eu Não Sou Cachorro, Não” (Record), de Paulo Cesar de Araújo, o jornalista e historiador autor da biografia censurada de Roberto Carlos. Este que é seu primeiro livro tem como subtítulo “Música popular cafona e ditadura militar”.

Misto de ensaio e reportagem, o livro investiga os cantores da chamada música cafona ou brega dos anos 70, que foram jogados de lado pela inteligência brasileira (incluídos artistas e jornalistas), como alienados e autores de música de baixa qualidade.

Paulo Cesar mostra que a verdade é um pouco distinta. Autores como Odair José, Benito di Paula, Nelson Ned, Agnaldo Timóteo, entre outros, foram censurados e debatiam temas em suas letras com mais profundidade até do que a chamada MPB. Timóteo, por exemplo, cantou sobre a sexualidade de forma muito mais aberta do que se canta hoje. Odair José expôs preconceitos e foi ousado ao reinterpretar a história de Maria e José, por exemplo, algo impensável atualmente, tempos em que um certo fundamentalismo dita as reações às obras culturais.

O parágrafo destacado na abertura deste texto é outro ponto que mostra que o Brasil encaretou. Paulo Cesar se refere à forma como os artistas se relacionavam. Havia críticas e elas eram ditas. Hoje, todos são amigos e todos os trabalhos são bons. Perdemos o senso crítico, o debate e a capacidade de pensar. A preferência atualmente é por algo mastigado, processado, sem dubiedade.

O autor esclarece logo no início que o livro não pretende julgar obra e artista. É apenas o relato de sua pesquisa, profunda e ampla da produção musical dos anos 70. É possível comprovar, então, o quanto a MPB se reservou desses artistas ditos bregas, criando uma distância que nunca foi próxima, apesar de estarem do mesmo lado e de terem as mesmas armas. A tal elite da música brasileira desprezou os cafonas, relegando um lugar de pouco alcance – o mesmo foi feito por jornalistas e especialistas que escreveram sobre a música brasileira, como José Ramos Tinhorão e Nelson Motta.

“Eu Não Sou Cachorro, Não”, título buscado na obra de Waldick Soriano, personagem do livro, é daquelas obras essenciais para compreender a época e a herança que vivemos hoje. Não espere mais para ler este livro.

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Sinapses

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