Comentário, Ficção, Portugal

A delicada despedida ao pai em “Morreste-me”

morreste-me280Lançado recentemente no Brasil, “Morreste-me” (Dublinense) é o primeiro trabalho do português José Luís Peixoto, autor de “Livro” (Companhia das Letras). A novela, que poderia ser uma carta – lembra muito, em formato e tentativa, de “Cartas a D.” (Cosac), de André Gorz -, foi lançada em 2000, quando ele tinha 23 anos, e faz parte de uma série de títulos de autores portugueses que a editora irá publicar.

Peixoto escreve sobre a morte do pai, as últimas horas num hospital até a despedida. A carga emocional é grande, com memórias e o vislumbre da vida sem seu pai. Comoveu a todos que ouviram a leitura do livro na Flip-2012, o que torna incompreensível o fato de só agora, 15 anos depois do lançamento, chegar ao Brasil.

O texto é delicado, carrega um pouco de melancolia, mas escapa de ser um relato em que a emoção é a única personagem – como o título já indica. Peixoto entrega o fim, mas com tal firmeza na escolha das palavras e no trato da linguagem que a única coisa que nos resta é ler e reler.

Assim como o livro é curto (62 páginas num formato pequeno), este texto também o é. Pois o caminho só indica a leitura de “Morreste-me”.

*****

“E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.”

“E falta justiça à insistência desta manhã, falta justiça ao artificial desta primavera, a esta luz fina. O ar finge-se respirável, a lezíria finge-se infinita na asfixia deste lugar pequeno e emparedado. E este lugar que era mundo, agora, vazio oco quer ser mundo ainda. E, realmente, tudo se mantém suspenso. Tudo quer e tenta ser igual. Todos parecem acreditar. Sem ti, as pessoas ainda vão para onde iam, ainda seguem as mesmas linhas invisíveis. Mas eu sei, pai. Perderam-se as leis contigo. Perdeu-se a ordem que trazias. Pai.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s