Brasil, Comentário, Ficção

Ricardo Lísias dita o próximo passo da literatura brasileira

Ler o nome de Ricardo Lísias em qualquer texto, crítica ou reportagem, é certeza de que ele estará associado ao termo autoficção. Seus dois últimos romances, “O Céu dos Suicidas” e “Divórcio” (ambos Alfaguara), invocavam com esse gênero, apesar de o próprio autor dizer, em entrevistas, que não enxergava dessa forma.

Em entrevista ao blog, em 2013, Lísias disse que achava uma “pena que as pessoas acreditem que a ‘realidade’ seja algo assim tão facilmente apreensível, quando na verdade a linguagem é determinante em qualquer obra literária”.

Capa_Concentracao e outros contos.inddO crítico Alfredo Monte, em texto sobre “Concentração e Outros Contos” (Alfaguara), recém-lançado, escreveu que Lísias talvez se acomode mais com os livros do chileno Alejandro Zambra e do argentino Alan Pauls. O que o escritor concorda, quando diz que foi estudar autoficção para entender a rotulação que recebia – para, em seguida, descartar o que franceses e alemães fazem com esse gênero.

Então vemos Lísias inserido na literatura latino-americana contemporânea. Ouso acrescentar à lista de Monte autores como os mexicanos Guadalupe Nettel e Julián Herbert.

Mas sigamos.

Polêmico é o adjetivo que também costuma acompanhar os textos sobre Lísias e seus livros. Tudo porque “Divórcio” tocou na ferida de alguns que vestiram a carapuça. O resultado? O livro, apesar das boas vendas, foi descartado das premiações, este que foi um dos grandes romances lançados em 2013, determinante para discutir o que fazer a partir dali.

Ricardo Lísias resolveu abusar e aproveitar da fama. Lançou pela e-galáxia, no ano passado, a série Delegado Tobias, um exercício de linguagem que embaralhava plataformas, personagens, realidade, redes sociais. Foram cinco volumes, todos digitais.

E a pergunta “para onde vai Ricardo Lísias?” surgia naturalmente, na inércia dos lançamentos até o ano passado, que incluem também “Intervenções” (e-galáxia), uma coleção de seu trabalho na crítica literária.

Era uma pergunta importante, pois se trata de um dos autores mais inquietos da literatura brasileira contemporânea, não afeito a convenções e que ousa sem o receio tradicional das panelinhas vivas do mundinho literário.

E, ao que parece, Lísias também se faz essa pergunta. Em vez de um novo título, ele lançou uma coletânea de 15 contos, reunidos em “Concentração” – desses, só um inédito, “Autoficção”. Os textos, alguns publicados em outras coletâneas e revistas, partem de 2001 – alguns foram retrabalhados para esse lançamento.

A compilação é compatível com o que o escritor vem traçando em sua biografia. E nessa mistura de diversas maturidades é possível enxergar um projeto literário claro, que se soma aos romances e aponta para uma tentativa de explorar a linguagem, sim, mas também de expor esse exercício a temas como política.

Lísias avança com furor. Contos e romances compartilham obsessões do escritor, como xadrez, solidão, perda e o deslocamento de personagens da zona de conforto.

O que diferencia Lísias de grande parte dos seus pares é o bom humor que seus textos carregam, ainda que tímido. O conto que abre “Concentração”, “Evo Morales”, é um exemplo. O narrador encontra o futuro presidente boliviano num aeroporto e toma um café com ele enquanto espera pelo voo. Os encontros se repetem – ou não.

Há também humor no inédito “Autoficção”, aqui mais duro e irônico. Pode soar como um apêndice de “Divórcio”, mas se lê um autor questionando, antes de tudo, o que se falou sobre seu livro. O fim desnuda um personagem irascível.

O ponto alto do livro é a coleção de “Fisiologias”, em suas sete partes – “da Memória”, “do Medo”, “da Dor”, “da Solidão”, “da Amizade”, “da Infância” e “da Família”. Lísias tateia o tema que o levou a “O Céu dos Suicidas”, em textos muitas vezes, quem sabe, surpreendentemente, emocionantes. E extremamente bem conduzidos. Estamos diante da família, da memória afetiva que mais aperta, de relações nem sempre ligadas por sangue, mas que constituem o ser político tornado autor/personagem – refletido cruamente nos romances. Pai, avô, o país abandonado à própria sorte, a Copa de 82, uma memorabilia que arranca sensações do leitor à força.

Passamos pelos regimes ditatoriais da América Latina – a Argentina, no conto que dá título ao livro e em “Dos Nervos”, e o Chile, em “Anna O.”. E torna-se então possível enxergar um escritor que busca tratar da violência que dominou o continente e que se misturou à paisagem no Brasil, enquanto seus vizinhos já condenaram generais e afins. A crítica é velada, mas está lá, num lance de xadrez digno da alta literatura.

Ao final, “Concentração e Outros Contos” se revela coeso, coerente com o que Lísias vem fazendo. O que ele vai propor daqui em diante está colocado como o próximo passo da literatura brasileira.

O escritor Ricardo Lísias, que lançou "Concentração e Outros Contos" | Foto: Fernanda Fiamoncini
O escritor Ricardo Lísias, autor de “Concentração e Outros Contos” | Foto: Fernanda Fiamoncini

*****

“Mas o avô não é apenas, naquela noite fria e inesquecível, o Monstro da Lagoa. Ele também sobe a escada devagar para não fazer barulho e empurra a porta do quarto lá de cima. É ele ali na fresta, olhando se os netos estão dormindo bem. Ele é o avô também que comprou uma luneta para levar os netos em uma laje, nos fundos da casa, para explicar a diferença entre um planeta e uma estrela.

O avô é aquele homem mais velho, o que sabe a explicação de tudo, que gosta de conversar sobre todas as aulas da escola, usa um boné engraçado que cobre até as orelhas e era o mesmo dos russos. Ele sabe quem são os cossacos e explica que se a gente andar até o outro lado da Terra, vai voltar para cá, para o mesmo lugar. (…)

Ele é o avô que morre e ensina o que é a morte: é quando o avô morre.”

(em “Fisiologia da Família”)

“O meu inferno em Campinas já tinha passado, mas o André se enforcou sem conhecer a obra de Roberto Bolaño e chorava, eu chorava muito porque estava voltando para o Brasil, e o Brasil não é radical, o Brasil anula o radicalismo para continuar sendo o Brasil, eu não conseguia parar de chorar por causa disso tudo, porque não achava justo o André se enforcar, o anel de Evita desaparecer, as pessoas dizerem que sou cerebral e o meu taxista ter morrido, eu não achava justo e então em fevereiro de 2004 eu só chorava, só chorava.”

(em “Fisiologia da Memória”)

“Desisti da literatura quando não consegui mais entender o que estava escrevendo. Os textos tinham deixado de refletir minhas inquietações e de revelar a minha personalidade. Percebi que era um ficcionista limitado e que nunca chegaria a produzir algo incontornável para a literatura.”

(em “Tólia”)

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O livro foi enviado para o blog pelo autor

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5 thoughts on “Ricardo Lísias dita o próximo passo da literatura brasileira”

  1. Escritor de obra polêmica. Já ouvi comentários que a tomam de necessário a puramente má escrita. Preciso por as mãos sobre um livro dele para tirar finalmente a prova.

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