Crônica

O adeus à Mineiriana

Quando entro numa livraria, me sinto em casa. Me sinto acolhido. Mesmo naquelas que não merecem ser chamadas de livraria. A passagem pode ser rápida, mas ainda assim os poucos minutos lá dentro me devotam paz – e não preciso sair de sacola para ter tal sensação, bastam o andar pelos corredores e a procura nas prateleiras.

Acho triste uma cidade não ter livraria – e isso é muito comum. Sempre que visito uma nova cidade, gosto de andar por suas ruas e saber onde é a livraria mais próxima. Em algumas casos, a livraria mais próxima é a única.

Existem aquelas que se tornam paradas obrigatórias. Outras que se revelam um passeio apenas. Algumas poucas se tornam nossas.

A memória pode puxar até minha adolescência, quando uma Siciliano reinava perto de casa. Não sei de onde vinham os livros que meus pais compravam para mim. O tempo foi expandindo o horizonte.

Na época em que a Livraria Cultura era apenas uma lojinha confusa no Conjunto Nacional, minha adoração era a Belas Artes, no final da avenida Paulista, próxima ao complexo de cinemas que levava o mesmo nome. Era pequena, bem disposta, sem grandes arroubos de ambição. Comprei meus dois primeiros Borges lá – “Aleph” e “Ficções”, na antiga edição de capa preta da Globo.

A Belas Artes fechou. A Cultura se expandiu. Ao contrário de muitos, não gosto da loja em que se transformou a unidade da Paulista. Aquilo lá é um templo hipster no horário de rush do metrô. Não é para comprar livros.

Só fui encontrar novamente uma livraria que pude chamar de minha há dois anos. Nesse período, frequentei várias, me tornei freguês de outras tantas, mas nenhuma me deu conforto e prazer como a Mineiriana, em Belo Horizonte.

As portas fechadas da Mineiriana
As portas fechadas da Mineiriana

Aberta em 2009, fechada em 2015. Não suportou o aluguel de uma das regiões mais valorizadas da capital, a Savassi. Livraria de rua, como lojas de CDs, tendem a virar artigo raro. Há boatos de que a Quixote, outra livraria de rua, poderia assumir a Mineiriana. Não importa. É uma a menos, e essa uma era minha.

O espaço generoso era ocupado por mesas enormes, com livros de catálogo e os lançamentos dispostos como em um bufê – bem melhor do que aquele cone da Cultura. O atendimento era feito por gente que podia conversar e entender o que queríamos. As poltronas espalhadas pela loja convidavam o leitor a passar horas lá dentro.

Acoplado à livraria, havia um café, complemento perfeito para quem saía de lá com uma sacola.

O interior da Mineiriana
O interior da Mineiriana

Numa época em que 68% das pessoas não leram um livro no último ano, faz sentido uma livraria fechar. Afinal, quem compra livro? E quem compra, parte desse público, está disposto apenas a sagas e distopias juvenis.

Quem entraria numa livraria que preenchia uma mesa apenas com títulos de Dostoievski? Ou com romances japoneses? Que colocava na entrada da loja uma mesa apenas de sociologia?

Há sobreviventes em BH – Quixote, Scriptum e Ouvidor. Não têm condições de enfrentar as grandes, os preços são os tabelados, nada de descontos, programas de fidelidade. Mas uma cidade é feita desse tipo de organismo, que faz respirar e pensar. Deixar uma livraria de rua fechar é deixar um órgão morrer. Por que não há programas de incentivos para livrarias? Desconto em IPTU, em impostos municipais e outras taxas?

Num bairro como a Savassi, de intensa movimentação durante o dia inteiro, de gente de tudo quanto é jeito, uma livraria é crucial para que a cidade possa ter identidade.

No Dia Internacional do Livro, Belo Horizonte se vê mais pobre com a perda de um lugar para livros. E é uma pena que pouco esforço, ao que me parece, foi feito para que a Mineiriana sobrevivesse – da parte da sociedade, pois sei que os proprietários foram até onde foi possível.

Fica aqui o meu lamento.

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2 thoughts on “O adeus à Mineiriana”

  1. Fica aqui “o nosso” lamento!! A Savassi perdeu ao longo dos anos, três “pequenas notáveis” livrarias: Ex Libris, Diadorim, Livraria da Travessa. Essas alimentavam minha não tão modesta gula por livros. Além de ter um acervo maravilhoso, tinham charme e esse aconchego do qual vc fala, da gente se sentir em casa. E quando abriu a Mineiriana, pôxa, veio algo de porte maior pra suprir esses desejos. E lá se foi. Mais uma… que pena!

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