Brasil, Ensaio, Entrevista

Jornalismo na mira: o que restou dois anos depois da explosão da Mídia Ninja

Há quase dois anos, o Brasil vivia os protestos nas ruas que, primeiro, queriam derrubar o aumento das tarifas de ônibus e, depois, gritavam contra praticamente tudo: corrupção, impunidade, governo, capitalismo e por aí vai. Viveu também os ataques dos black blocs, que destruíram lojas, bancos e patrimônio público.

Simultaneamente, o país descobriu uma nova forma de transmitir informação. Não era exatamente nova, claro, pois as redes sociais já faziam sua parte. Mas inovava quando transmitia a notícia com um olhar particular, com um olhar imerso seja no meio do quebra-quebra, como vítima ou como portador da informação, seja como observador do fato.

O coletivo Mídia Ninja já existia antes dos protestos de junho de 2013, mas sua estreia de verdade aconteceu naquele período, que se estendeu até setembro. Transformou-se em notícia tanto como os black blocs. Foi questionado, virou centro da atenção da mídia tradicional e angariou uma audiência que colocou em xeque o modo como se transmite a informação.

816+rWuBcAL._SL1500_A jornalista Elizabeth Lorenzotti busca decifrar essa nova forma de jornalismo no livro digital “O Modelo #mídiaNINJA” (e-galáxia), lançado no ano passado. Mestre em Ciências da Comunicação, ela também é autora de “Tinhorão – O Legendário” (Imprensa Oficial) e “Suplemento Literário – Que Falta Ele Faz!” (Imprensa Oficial).

Em entrevista ao blog, ela analisa o trabalho do Mídia Ninja naquele período e quais foram as consequências para a imprensa tradicional. Além disso, fala sobre diploma e este novo jornalismo, fundado na internet e de rápida difusão. “Trata-se da libertação do monopólio da noticia”, diz Elizabeth.

 *****

Passados quase dois anos do surgimento para o grande público da Mídia Ninja, qual é a avaliação daquele momento?
O avanço tecnológico colocou nas mãos de cada um de nós um aparelho celular que pode fazer fotos, filmes, pode registrar momentos. Pode dar uma notícia, registrar uma denúncia que, colocada na rede, se replicará. Trata-se da libertação do monopólio da noticia, até agora nas mãos de grandes grupos de comunicação com poder econômico e político, que aplicam muito dinheiro para fazer seus jornais de papel, telejornais etc. Trata-se do fim do monopólio virtual do mercado de opinião. No século 21, a mídia alternativa é a mídia digital, muito mais fácil e barata de se fazer do que naqueles tempos da ditadura, em que as pessoas se cotizavam para fazer os chamados “nanicos”. A Mídia Ninja é um modelo dentro desse panorama.

A mídia tradicional mudou depois de junho de 2013 e do trabalho do coletivo? Ainda há reflexos?
Não houve mudança, a não ser para pior. A partidarização pré-eleições se intensificou. Infelizmente os veículos não se declaram pró ou contra tal e tal grupo/partido, apenas fazem campanhas veladas. A crise da imprensa, com suas demissões diárias, aumentou e dessa forma a qualidade vem caindo a níveis assustadores. O leitorado não está mais com as publicações de papel e não quer pagar para ler noticias às quais pode ter acesso gratuitamente e na hora.

E a Mídia Ninja, como ela se comportou nesses quase dois anos? Quais mudanças foram feitas (se é que foram feitas) no trabalho do Mídia?
Não tenho acompanhado amiúde, apenas sei que estão com uma plataforma do Oximity, embora continuem no Facebook. Não sei como andam a questão financeira e a operacional. Apenas me parece que o ritmo das coberturas perdeu intensidade.

Muitos veículos estão usando conteúdos gerados nas redes sociais (memes, vídeos) para criar conteúdo reciclado na TV e nos jornais, dias depois do auge de popularidade. Por exemplo, o “Fantástico” faz uma matéria sobre um vídeo que bombou na semana. Jornais escrevem no dia seguinte sobre determinado meme. Por que essa dependência do que as redes sociais geram? Há saída?
Porque a audiência está com as redes sociais. Programas em geral têm quadros ligados às redes, mesmo os de cãezinhos e gatos. A saída seria os veículos apresentarem matérias de interesse do público.

Ainda existe a avaliação de que os midialivristas não fazem jornalismo?
Eu pessoalmente discordo, acho que jornalismo é a veiculação das várias faces da notícia. Mas, sim, ainda existe esta avaliação.

Jornalista ninja na cobertura dos protestos de junho de 2013 | Foto: Camila Picolo
Jornalista ninja na cobertura dos protestos de junho de 2013 | Foto: Camila Picolo

As críticas aos midialivristas se referem à falta de filtro e de acesso a posições oficiais, além de acabamento. Isso está mudando, tanto para o Mídia Ninja como para quem o critica?
Estava lendo agora mesmo uma matéria com Umberto Eco, que acaba de escrever um romance sobre jornalismo, “Número Zero” (a sair pela Record). Ele diz que “a internet pode ter tomado o lugar do mau jornalismo… Se você sabe que está lendo um jornal como ‘El País’, ‘La Repubblica’, ‘Il Corriere della Sera’…, pode pensar que existe um certo controle da notícia e confia. Por outro lado, se você lê um jornal como aqueles vespertinos ingleses, sensacionalistas, não confia. Com a internet acontece o contrário: confia em tudo porque não sabe diferenciar a fonte credenciada da disparatada. Basta pensar no sucesso que faz na internet qualquer página web que fale de complôs ou que invente histórias absurdas: tem um acompanhamento incrível, de internautas e de pessoas importantes que as levam a sério”. Acho que Eco tem metade da razão: porque você pode ler jornais pretensamente confiáveis e achar que eles têm controle. Mas qual controle? Dos interesses dos grupos proprietários desses jornais, claro. Que não raro não coincidem com os interesses da maioria da população de despossuídos. Então, se as novas mídias digitais independentes ainda não encontraram sua fórmula, encontrarão. Seu modelo é outro, e o conteúdo influencia a forma.

Como a senhora avalia os trabalhos feitos por eles e outros coletivos pós-junho 2013?
Nós tivemos Copa, eleições e, recentemente, protestos contra a presidente Dilma.
Acredito que mostraram um lado que a grande imprensa não mostrou, e este é um trabalho relevante nos tempos atuais.

É possível dizer que o Mídia Ninja é partidário? Isso pode prejudicar o trabalho do grupo?
A mídia digital independente trouxe uma oportunidade aos que buscavam por outros lados dos acontecimentos. Não é uma visão “imparcial” já que imparcialidade e a objetividade são mitos criados pelo oligopólio das comunicações, que não os praticam, aliás. Mas ter a chance de conhecer várias faces de um fato e poder tirar as suas conclusões é a novidade. Além dos ninjas, já existem, pelo país, inúmeros coletivos independentes fazendo transmissões. E também há jornalistas que saíram, ou foram saídos das redações, encontrando novas alternativas, como a Pública- Jornalismo/Organização Comunitária, que sobrevive de crowdfunding e já fez excelentes reportagens.

Pablo Capilé e Bruno Torturra no "Roda Viva"
Pablo Capilé e Bruno Torturra no “Roda Viva”

Uma das principais controvérsias que surgiram foi a questão financeira. O “Roda Viva” com Pablo Capilé e Bruno Torturra, relatado pela senhora, mostrou que essa é uma questão que incomoda, ao que me parece, os dois lados. Essa é uma questão legítima? Além do financiamento de operações, que me parece mais fácil de ser feito, o problema não surge na remuneração dos profissionais?
A imprensa alternativa sempre se defrontou com esse problema, desde a ditadura e desde sempre. Não tem anunciantes, não tem fontes de financiamentos. Hoje, a internet descobriu o crowdfunding, o publico pagando pelas matérias produzidas. Creio que tem sido a maneira encontrada pela maioria dos coletivos.

A tecnologia foi a grande aliada da Mídia Ninja. Rendeu agilidade e a informação mais próxima dos fatos. Depois, a grande mídia tentou aplicar os métodos do MN, mas foi desmascarada, de uma forma que os próprios líderes condenaram. A tecnologia, que deveria democratizar, não teria criado um nicho?
Acho que a tecnologia democratizou. Veja só este que é um dos inúmeros exemplos de como um celular pode filmar uma denuncia e colocar na rede. Qualquer um de nós pode fazer.

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Jornais e TV devem correr atrás dos midialivristas para se transformarem? O que é possível importar desse modelo de jornalismo?
Não é possível importar porque o modelo da grande mídia ainda é analógico, e o dos midialivristas é digital. Não necessita de grandes prédios, equipamentos caríssimos, salários astronômicos para estrelas.

Na sua avaliação, o que falta ao jornalismo brasileiro? Estamos sendo bem informados?
Há anos, antes da internet, já os especialistas afirmavam que, para prevenir e sair da crise, a imprensa tradicional deveria tornar-se analítica, não informativa. Não ocorreu, e um dos motivos da grande crise que enfrenta é a noticia requentada. Outro é a agilidade da internet e a falta de credibilidade desse modelo de imprensa, que já tem cerca de 200 anos e não se transformou. Não, o jornalismo não vai acabar. Sua forma será outra, e enquanto representar interesses da maioria da população terão de se defrontar com a concorrência das outras mídias, que não raro podem acabar por ganhar mais audiência.

Você é a favor do diploma de jornalista? Como vê esse debate?
Quando os patrões da mídia, liderados pela “Folha de S. Paulo”, começaram a campanha contra o diploma, nos anos 80, eu era militante do Sindicato dos Jornalistas (que havíamos reconquistado no fim da decada de 70) e é eramos a favor do diploma. Pelo seguinte: o objetivo dos donos da midia não era, como singelamente apregoavam e apregoam até hoje, defender a “liberdade de imprensa”, ampliar o acesso de não jornalistas à profissão. O objetivo deles era descumprir as conquistas trabalhistas da categoria – que naquele tempo tinha força: horário de 5 horas, horas extras etc etc. A discussão que se trava até hoje ignora este aspecto. Os anos foram passando, a campanha tendo adesão de todos os patrões da mídia, que começaram a  terceirizar, inclusive, os jornalistas, fossem diplomados ou não. E as conquistas trabalhistas foram se perdendo.

Hoje, não acho que o diploma de jornalista seja necessário, mas você deve ter alguma formação na área: um curso superior e um ou dois anos de especialização em jornalismo. Porque se trata de uma profissão, com especificidades. Diante do nivel dos textos, dos erros de grafia e concordância que todos os dias lemos e, ainda, da difícil compreensão dos textos publicados, acho imprescindível que, para ser admitido, o jornalista prove ser suficientemente alfabetizado. Isso não será mais possível, com as levas semanais de demissões, os baixos salários, a rotatividade e a contratação de recém formados sem orientação.

Mas, como informou o editor do “Le Monde Diplomatique”, Ignacio Ramonet, já não se fabricam mais impressoras de jornais. Então, o tempo de duração da imprensa escrita será o da obsolescência de suas máquinas. Esperemos. Já a TV e o rádio têm de pensar digital e não analogicamente.
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