Comentário, Estados Unidos, Ficção

De Cuba a Albany, com jazz e santería

O meu primeiro contato com William Kennedy foi frustrante. A publicação do ciclo de Albany, série de sete livros em que o autor retrata os Estados Unidos na primeira metade do século 20, foi o que me motivou a ler sua obra. Edição da Cosac Naify, bem recomendada, um tema que remetia aos gângsters de Hollywood, a crise de 1929, enfim, o conjunto me parecia promissor.

Fui então a “O Grande Jogo de Billy Phelan”, o título que abre a série, já de olho em “Ironweed”, o livro que inspirou o belo filme de Hector Babenco. E foi quando a expectativa virou ao contrário. Mal consegui terminar o livro. Nem experimentei o seguinte. Não fluiu, não houve empatia.

Congelei o autor – e parece que a Cosac também, pois desde 2010, quando saiu o primeiro, só mais dois foram lançados.

42744069Até que me vi diante de “Colares de Xangô e Sapatos Bicolores” (Biblioteca Azul). Novamente, os temas que envolvem o romance me chamaram a atenção: jazz, religião, direitos civis, revolução cubana e personagens reais inscritos na ficção. Resolvi apostar.

O livro abre em 1936, com uma reunião de amigos em que Bing Crosby dá uma canja com “Shine”. Foi o suficiente para levar o livro para casa e começar a ler imediatamente, interrompendo a leitura em que estava envolvido.

Logo depois, estamos em Havana, em 1957. Daniel Quinn é um jornalista que se vê à frente de Ernest Hemingway no bar El Floridita. Aproxima-se do escritor e engata uma conversa que desembocará numa briga. De Papa, ele irá pedir uma aproximação com Fidel Castro: quer entrevistá-lo em Sierra Maestra.

Ao mesmo tempo, conhece Renata, mulher de segredos que o conquistará e com quem voltará aos Estados Unidos.

É a terceira parte, que se passa em 5 de junho de 1968 e toma mais da metade do livro, a prova que me fez reconhecer em Kennedy um grande escritor. O senador Bobby Kennedy é assassinado, os conflitos raciais explodem em Albany e o pai de Quinn, doente, vai às ruas procurar sua namorada da juventude para ir a um baile. A tudo isso, somam-se santería, jazz, política e uma narrativa empolgante, concentrada num espaço de tempo único.

O livro está inscrito na melhor tradição literária americana. É daquelas leituras que podemos chamar de imperdíveis.

*****

“Quinn continuou a ressuscitar o bebê morto que não existe: morto antes de um nascimento que nunca houve, arquétipo da meritocracia dos perdidos, que deixa uma mancha indelével na imaginação.
Profira a litania: os delicados, os que tropeçaram na corrida e ficaram para trás, os ignorantes, os passivos, os céticos, os decididos vacilantes, nenhum deles sabe ser diferente, os codificados pela cor, os rebeldes suicidas e os destituídos furiosos, os mártires e os clérigos de cérebro lavado pelo mistério, os santos como King que sempre perdem tão grandiosamente, os santeros que pensam poder superar problemas nas costas de Xangô e Oxum; também Bobby, que talvez tivesse sido diferente por alguns minutos, Hemingway no final redescobrindo como costumava perder, George e as ilusões inelutáveis, o dueto racial lugar-comum de Gloria e Roy, Cody e sua música moribunda, Max e seu dinheiro sujo, Matt e seu descenso, Renata e sua rebelião entrópica, capacidade de entrega em série e Tremont, o único homem na cidade aquela noite que não precisa de um mapa para chegar ao ponto: todos membros do coletivo heterogêneo e caótico que não vai deixar Quinn dormir em paz.”

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