Comentário, Ficção, Itália

Lisboa, por Antonio Tabucchi

Em “Meia-Noite em Paris”, Woody Allen reproduz os anos 20 na capital francesa, época de grande produção cultural em que nomes exilados transformavam a cultura. Parte de um sonho: um escritor norte-americano se vê transportado do século 21 para a casa de Gertrude Stein. Essa fábula recriou Hemingway, Picasso, Fitzgerald, entre outros. Era um homem à procura de inspiração, de sua época.

requiemEm “Requiem – Uma Alucinação” (Cosac Naify), o escritor italiano Antonio Tabucchi também busca esse encontro. Escrito em 1991, o livro narra o último domingo de julho de um italiano em Lisboa. Ele vai percorrer a cidade e se encontrar com 23 personagens, do Cais de Alcântara ao Cemitério dos Prazeres. Entre eles, está o Cauteleiro Coxo, que surge em “O Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares (ou Fernando Pessoa).

Na nota de abertura, Tabucchi escreve: “Este ‘Requiem’, além de uma ‘sonata’, é também um sonho, durante a qual minha personagem vai encontrar vivos e mortos no mesmo plano: pessoas, coisas e lugares que precisavam talvez de uma oração, oração que a minha personagem só soube fazer à sua maneira através de um romance”.

O italiano anda pela cidade e de encontro em encontro reconstrói a memória. Em momentos, soa como uma despedida. A saudade, tão devedora ao idioma português, surge como pano de fundo, quando o narrador encontra na Lisboa da época uma cidade que não existe mais, ele mesmo um estrangeiro adotado.

Tabucchi escreveu o livro quando morava na capital portuguesa. Preferiu escrever em português porque achava que só assim seu personagem conseguiria dizer tudo o que precisava.

Nos personagens, o italiano reencontra o pai em tom melancólico. Anseia por rever sua ex-namorada Isabel, já morta, mas ela não surge para o leitor. A andança gera conversas profundas, um inventário de coisas e memórias que despertam no italiano a vontade de continuar.

O destino é encontrar Fernando Pessoa, poeta tão caro a Tabucchi. O leitor acompanha esse andar como uma forma de viajar por Lisboa. Suas comidinhas, o Benfica, o café do Chiado, Terreiro do Paço, as caricas – as antigas tampinhas de garrafa – e aquele certo resquício de um país que procura no passado na sua origem, intermitentemente.

Ao fim, sobra a sensação de ter caminhado ao lado do italiano. Fica uma saudade que a gente não sabe do que é. Uma alucinação que nos chama.

*****

“Era o que eu dizia a mim próprio, fechado lá em cima a escrever aquela história maluca, uma história que alguém depois viria a imitar na vida, viria a transpor para o plano real: eu não o sabia, mas imaginava-o, não sei por que imaginava que não se devem escrever histórias como aquela, porque há sempre alguém que depois imita a ficção, que consegue torná-la verdadeira. E assim foi, efetivamente. Naquele mesmo ano alguém imitou a minha história, ou melhor, a história encarnou-se, transubstanciou-se e eu tive de viver aquela história maluca uma segunda vez, mas desta vez a sério, desta vez as figuras que atravessaram aquela história não eram figuras de papel, eram figuras de carne e osso, desta vez o desenvolvimento , a sequência da minha história desenrolava-se dia após dia, eu ia-a seguindo no calendário, até a podia prever.”

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