Alemanha, Obituário, Uruguai

Os mortos que não li

O uruguaio Eduardo Galeano | Foto: Eugenio Mazzinghi
O uruguaio Eduardo Galeano | Foto: Eugenio Mazzinghi

Günter Grass e Eduardo Galeano.

A segunda-feira começou com a notícia da morte dos dois escritores. Há muito a se lamentar. Galeano (1940-2015) era uma voz altiva na América Latina, referência da esquerda no continente. Uruguaio, foi autor de “As Veias Abertas da América Latina” e “O Futebol ao Sol e à Sombra”.

O escritor alemão (1927-2015) venceu o Nobel em 1999 e era o principal autor da literatura contemporânea de seu país. Escreveu “O Tambor” e “A Ratazana”.

Eu gostaria, sinceramente, de escrever sobre os dois escritores, mas a necessidade da confissão se torna maior do que um texto que nasceria de outros olhares. Porque não li nem Grass nem Galeano – minto, li apenas “O Livro dos Abraços”, do autor uruguaio. E só.

Isso, não li um nem outro. É uma das inúmeras falhas do meu repertório. Fica fácil dizer hoje que gostaria muito de ter lido “O Tambor” ou “As Veias Abertas”. E a verdade é que eu quero ler, sim.

O alemão Günter Grass
O alemão Günter Grass

Mas não hoje. Não os li, mas reconheço, aqui da minha insignificância, o tamanho que ambos representam para o pensamento do homem.

São os dois mortos que não li, que estão postados naquela linha invisível que representa nosso limite, que impõe frustrações e ansiedade ao entrar na biblioteca e ver tantos livros que provavelmente nunca serão lidos. E que ao mesmo tempo nos lega a compulsão de comprar mais livros, para se somarem aos que já estão à espera.

Grass e Galeano.

Falar do que não conheço não é tarefa simples. Preferia o silêncio, mas este é um blog de literatura, de livros, como então ignorar que dois pilares foram derrubados pelo tempo e suas implicações?

Há muitos que escreveram, publicaram fotos dos livros, seus lamentos e comentários. A rede deu mais destaque a Galeano, um latino-americano num país que teima em não olhar para a parte sul do continente. Grass está escondido nas chamadas, quando não divide os títulos com o uruguaio.

O que será que os jornais irão apresentar amanhã, quase 24 horas depois do anúncio e de um dia inteiro de repercussão e análises? Talvez não importe, é uma reflexão boba, digna de quem se viu perdido em meio às mortes e ao quase total desconhecimento de quem se foi.

Deixo então o mea-culpa de um leitor esforçado, com uma lacuna, não diria indefensável, mas quem sabe justificável. Fica o respeito e o reconhecimento pelo que fizeram.

Recorro, para fechar, à avó de “Outro Músculo Secreto”, texto presente em “O Livro dos Abraços”.

“Ainda bem que a mente viaja sem passagem.”

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2 thoughts on “Os mortos que não li”

  1. Seu texto lembra muito um que escrevi no blog quando morreu Carlos Fuentes. O lamento pela própria ignorância acompanhado da constatação de que é impossível ler tudo ou todos. Nunca li Grass também, apenas vi o filme O Tambor há muitos anos e lembro de ter gostado muito. De Galeano, li Futebol ao sol e à sombra e O teatro do bem e do mal. Mas Galeano é muito mais um ativista das ideias, um homem dinâmico, e quando você assiste a uma entrevista dele, de certa forma conhece o seu pensamento. Com Grass isso é mais difícil, embora de certa forma tenhamos conhecido um pouco dele quando revelou a sua participação na juventude nazista, uma confissão corajosa. Enfim, relaxe, dar conta de tudo é impossível.

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    1. Acho que as duas mortes no mesmo dia, anunciadas num curto espaço de tempo, provocaram essa sensação. Sempre penso nessa história, afinal, a pergunta “você já leu todos os seus livros?” é bem recorrente, mas vez ou outra essa impotência bate na porta com mais veemência. E nos vemos então recolocados no nosso lugar.

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