Colaboração, Comentário, Estados Unidos, Ficção

A pedra fundamental dos anos loucos

Por Paulo Sales

Ninguém cantou a Era do Jazz, a deliciosa permissividade e o hedonismo irrefreável da juventude dos loucos anos 20 como Francis Scott Fitzgerald. Em seus romances e contos, o escritor norte-americano se dedicou compulsivamente a retratar um tempo no qual a prosperidade econômica e a paz mundial do entreguerras produziram um período deliciosamente frívolo, que acabou sucumbindo ao crack da bolsa de Nova York, em 1929, seguido da ascensão do nazifascismo. “O Grande Gatsby” (Penguin-Companhia), que este ano se torna um respeitável nonagenário, é a pedra fundamental desse universo.

Quando o romance foi lançado, em 1925, Fitzgerald já era uma celebridade. Seu livro de estreia, “Este Lado do Paraíso” (1920, Cosac Naify), tornara-se um sucesso avassalador logo após o lançamento, fazendo dele um ricaço perdulário. É um retrato afetuoso e mordaz da geração a que o próprio autor pertencia: aquela gente rica e bem-nascida que estudou em Yale, Princeton ou Harvard e pertencia a famílias com mais de duas décadas de tradição, bons modos aprendidos no berço e alguns milhões de dólares na conta bancária. “Belos e Malditos” (1922, Best Bolso), livro de uma fascinante beleza decaída, não obteve o mesmo êxito comercial do primeiro, mas ajudou a consolidar Scott como a voz dos anos loucos.

A primeira edição de "O Grande Gatsby"
A primeira edição de “O Grande Gatsby”

Há, em “O Grande Gatsby”, uma maturidade que escapa aos outros dois. Amargura e desalento dão o tom da história do enigmático Jay Gatsby, milionário de fortuna suspeita, famoso por festas intermináveis regadas a bebidas e ragtime. Nick Carraway, o narrador, acompanha a trajetória descendente de Gatsby, que busca no presente o desenlace perfeito para uma frustração do passado: conquistar o amor de juventude, Daisy Buchanan, agora casada com o bronco Tom Buchanan. A incompletude desse amor vai perpassar todo o livro, com consequências trágicas.

Talvez seja essa a principal característica da obra de Scott Fitzgerald: o fascínio pela queda. Seus personagens são invariavelmente pessoas que têm o mundo solidamente instalado sob os pés e mesmo assim desabam em desilusões irremediáveis. Não há finais felizes. Do mesmo modo que o próprio criador na vida real, o destino de suas criaturas é sempre a derrocada.

Robert Redford em cena da adaptação cinematográfica de "O Grande Gatsby", dirigida por Jack Clayton
Robert Redford em cena da adaptação cinematográfica de “O Grande Gatsby”, dirigida por Jack Clayton

Predileções

“O Grande Gatsby” não é o livro de Fitzgerald que mais me fascina. Considero um livro imperfeito, embora tenha passagens de um  esplendor e uma precisão estilística arrebatadores, além de um dos mais belos trechos finais da história de literatura:

“E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.”

Gosto muito de “Belos e Malditos” e de “Suave é a Noite” (Best Bolso), seu último romance completo. E de seus personagens melancólicos e fadados ao declínio e à dissipação, como Amory Blaine, Dick Diver e do casal Anthony Patch e Gloria Gilbert.

Mas, acima de tudo, sou fascinado pela coletânea “24 Contos de F. Scott Fitzgerald” (Companhia das Letras), com impecável tradução de Ruy Castro. Contos como :”A Coisa Sensata”, “O Amor à Noite”, “O Menino Rico” e “A Escada de Jacob”, para citar só alguns, me arrebatam e me fazem constatar o quanto o alcoolismo o impediu de ser tão prolífico também nos romances (ele amava o gim mais do que qualquer outra substância em estado líquido disponível no planeta). Caudalosas, atulhadas de desencanto e lirismo, as narrativas curtas são o veículo ideal para Fitzgerald destilar frases definitivas. Como estas:

“Aos 18 anos, nossas convicções são colinas de onde contemplamos o horizonte; aos 45, são cavernas em que nos escondemos.”

“Há todas as espécies de amor neste mundo, exceto o mesmo amor duas vezes.”

Scott morreu novo, mais novo do que sou hoje. Antes de ser vítima de um enfarto em 1940, aos 44 anos, ele viu sua trajetória desregrada (agravada pelo estado de saúde da mulher, Zelda) arruinar a própria carreira: os romances começaram a encalhar nas livrarias e o trabalho como roteirista em Hollywood fracassou, sem contar as dívidas, o bloqueio criativo e a depressão. Quando morreu, poucos ainda liam Scott Fitzgerald, e só uma descoberta póstuma por biógrafos e literatos o trouxe de volta.

Depois de ler sua biografia – um trabalho de fôlego escrito por Jeffrey Meyers (“Scott Fitzgerald – A Biography”, não disponível em português) – fiquei ainda mais encantado com sua personalidade e com o fato tão improvável de que alguém tão hedonista e inconsequente pudesse escrever tão bem. É um dos meus escritores favoritos, ao lado de Hemingway, o seu contraponto em todos os sentidos nos tempos da geração perdida. Costumo folhear seus livros com afeto e saudade, como fazemos com fotos antigas ou cartas de ex-namoradas. Foi o que fiz mais cedo, ao pegar “O Grande Gatsby” na estante e ler alguns trechos, para espanar um pouco a poeira do tempo sobre a minha memória. Fiquei com a certeza de que ele merece uma terceira leitura.

O escritor F. Scott Fitzgerald
O escritor F. Scott Fitzgerald
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