Brasil, Entrevista, Ficção

A vida sem água no texto de Bernardo Ajzenberg

Célio é um ativista. Trabalha no Instituto, uma ONG que atua para proteger o meio ambiente. Ele resolveu abrir um blog para narrar sua experiência: ele deixou de tomar banho.

Isso poderia muito bem ser algum relato jornalístico atual, a história de alguém que decidiu radicalizar antes mesmo de os rodízios que ameaçam os Estados do Sudeste serem aplicados, por conta da má gestão dos reservatórios.

9ea786a3-0c94-4bf6-8470-7076c3d3f3cfMinhavidasembanhoMas não. Célio é o protagonista de “Minha Vida Sem Banho” (Rocco), do escritor e jornalista Bernardo Ajzenberg, vencedor no início deste ano do prêmio cubano Casa de Las Americas, na categoria literatura brasileira. O livro, lançado em setembro do ano passado, chegou com um tom premonitório, mas surgiu antes da chamada crise hídrica.

Estamos diante de três narradores. Célio, o principal, vai se dividir entre seu trabalho no Instituto e o Falanstério, uma sociedade secreta. O crítico da “Folha” Manuel da Costa Pinto chamou o personagem de uma mistura de Cascão e Bartleby, a criação de Herman Melville que se recusa a fazer o que quer que seja.

Lemos também as mensagens enviadas por Debora, namorada de Célio que está em Manaus num momento de crise do casal. Para fechar, Marcos Wiesen, amigo dos pais de Célio, escreveu um diário em que relata a militância política dos três na época da ditadura militar. A narrativa de Célio e Debora é intercalada pelos registros desse caderno.

Ajzenberg cria um efeito curioso, pois Célio está em meio a atividades que relembram, em métodos, as ações dos grupos subversivos. Assim, o Projeto Minha Vida Sem Banho ganha contornos políticos, maiores do que a ideia inicial, de um ativismo quase simplório.

A isso, somos levados à relação do pai de Célio, obcecado pelo Holocausto, com Marcos, que tem como elemento redundante o misterioso Rogério, que percorre a vida dos amigos desde a ditadura até recrutar o autor do blog para seu Falanstério. Estamos diante de um jogo de traição em vários níveis, de uma memória da ditadura que é elemento determinante no destino dos personagens.

De fôlego curto, o livro revela camadas além das que o título poderia supor. Bem amarradas, a trama e subtramas se desenvolvem com clareza e fluxo, fechando-se no final.

Ajzenberg conversou com o blog sobre seu livro, as manifestações que o Brasil viveu em 2013 e literatura.

*****

Não posso deixar de perguntar, me desculpe: como você está lidando com a coincidência do Projeto com a crise hídrica?
Foi mesmo uma absoluta coincidência, O livro foi planejado e escrito antes dessa eclosão. No fundo, a crise hídrica serviu para ampliar a sua divulgação. É uma coisa efêmera, acredito, que vai se diluir. Espero que o livro sobreviva a ela.

Como Célio lidaria com essa crise extrema?
A decisão dele de não tomar banho foi algo interior, nascido de suas angústias. Acredito que isso não se alteraria numa situação como essa. Mas com certeza a audiência do blog que ele criou seria maior!

O ativismo de Célio e do Falanstério encontra paralelo com os movimentos sociais que pipocaram no Brasil desde junho de 2013?
Creio que sim. É um ativismo tão ambíguo e cheio de interrogações quanto foram aquelas mobilizações, onde o amálgama de forças e ideias muito díspares foi, a meu ver, a sua principal característica. É estranho ver pessoas de direita  de mãos dadas com causas supostamente de esquerda e vice-versa. O livro, acho, expressa um pouco essa ambiguidade e os riscos que ele embute para todo tipo de militância.

Você escreve sobre uma direita nefasta no livro. Essa direita ainda lança sombras atualmente? 
Essa direita sempre existiu e, creio, existirá.  O que aconteceu a partir das manifestações de junho, penso, foi que ela começou a se articular e a ganhar mais força a partir dessa articulação e exposição. É como se tivesse perdido a “vergonha” de mostrar a cara. De certo modo, não deixa de ser reflexo de uma consolidação democrática que ela mesma, talvez, possa colocar em risco, com a ajuda de vários setores da esquerda, aliás, que acabam por alimentá-la.

Seus três narradores (Célio, sua namorada e Marcos) convergem para um só. É Célio que absorve o que os outros dois escrevem. Ele lida com a pressão da namorada na Amazônia e com o diário que Marcos escreveu e que revela a história conjunta com o seu pai. Até que ponto Célio age como reflexo dessa situação?
Célio incorpora e retrabalha, em si, as angústias da geração de seu pai e de Marcos.Talvez queria tirar uma lição daí para a sua própria vida. Agora, eliminar ou mitigar essas angústias seria ago inumano. Só estando mortos vivos é que não sentiremos alguma forma de angústia.

Você trabalha muito com as coincidências nesse livro. Rogério vai e volta na vida da família de Célio. Você acredita em coincidências? 
Essas coincidências existem na vida real, com mais ou menos frequência. O importante, na confecção do romance, é que elas não sejam superdimensionadas, na narrativa, a ponto de ferirem a a verossimilhança. Tentei evitar que isso acontecesse.

O escritor Bernardo Ajzenberg
O escritor Bernardo Ajzenberg

Memória, ética, traição são temas constantes em seus livros. Seria correto dizer que eles norteiam sua obra?
São questões essenciais para mim. São, para o bem ou para o mal, sinais de vida. Para mim tem ficado cada vez mais claro, ao longo dos anos, que isso faz parte da nossa essência.

A tradição judaica também é recorrente na sua obra. Qual o peso que esse assunto tem para você no momento em que começa a formatar um livro?
Isso surge de forma espontânea na medida em que minha relação com a escrita é carnal, não artificial. Sendo de origem judaica, embora ateu, não me dou o direito de simplesmente apagá-la, como se eu não fosse quem eu sou.

Numa entrevista que você deu para o “Rascunho”, você disse que nos anos 90 leu compulsivamente, por conta de uma coluna no caderno “Mais!” (caderno extinto da “Folha”). E hoje, como é sua relação com a leitura?
Nos últimos anos tenho lido muito mais não-ficção. Ensaios, história, psicanálise, filosofia etc. É uma necessidade interior. Pode ser uma fase. Bem que gostaria de voltar a ler ficção com mais frequência, mas ela não tem me arrebatado. Além disso, sinto necessidade de não-ficção para alimentar a minha própria ficção.

Quais autores e livros o influenciaram como escritor? 
Alguns autores claramente abriram ou indicaram caminhos para mim: Thomas Bernhard, Thomas Mann, Peter Handke, Franz Kafka, Clarice Lispector, Philip Roth, Marcel Proust. Eu seria um escritor diferente se não os tivesse lido.

Você tem um extenso trabalho de tradutor. Como esse trabalho, de lidar com línguas e prosas diversas, influencia no seu trabalho de escritor?
São registros bem diferentes. Mas posso dizer que penetrar o mais profundamente possível na ourivesaria dos autores que traduzo – mesmo que não compartilhe necessariamente de sua “linha” – me permite atribuir cada vez mais importância ao trato das palavras e à busca de uma voz própria – algo essencial para ser, de fato, um autor.

Você trabalhou muito tempo como jornalista. Tem vontade ou plano de escrever um livro de não-ficção?
Não está no meu horizonte… Quem sabe, daqui a uns 20 anos, um livro de memórias.

*****

“Há pessoas nascidas para a descontinuidade. Não conseguem chegar até o fim: ou se apressam e capotam no meio do  trajeto, ou se deixam tomar pela ansiedade e sufocam. Penso muito na paciência e na perseverança dos maratonistas ou na calma e autoconfiança dos nadadores de longos percursos, aquelas pessoas que avançam devagar numa piscina, indo e voltando, sempre cientes de que chegarão ao seu destino, mantendo a velocidade e o ritmo das braçadas, sabendo que cumprirão aquilo que tinham se proposto a fazer. É uma grande qualidade. Começar algo, em qualquer terreno que seja, pode ser fácil. O mais difícil é saber sustentar isso, levar até o fim. Eis , na verdade, o maior dos desafios, ao menos para mim.”

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