Comentário, Ficção, Hungria

O que eu consegui escrever sobre “As Brasas”

315088Estou para escrever sobre “As Brasas” (Companhia das Letras) há mais de três meses, quando terminei a leitura do livro de Sándor Márai. Não consegui desde então compor um texto que traduzisse o impacto do livro, uma brutal investigação sobre vingança.

Este foi o primeiro título que li do escritor húngaro, comprado naquelas promoções de livrarias que não sabem o que têm no acervo. Uma joia de 172 páginas, leitura compulsiva e reflexiva.

Para dar um jeito, vou adotar um jeito matemático de escrever, assim eu consigo trazer o livro ao blog. Tópicos capazes de organizar o pensamento.

1. Sobre o livro

Na Hungria da 2ª Guerra Mundial, num castelo, um general vive sozinho quando recebe a visita de um antigo amigo, que não via desde 1899 – estamos em 1939. Henrik, o general, recebe Konrad para um jantar. Nesse encontro, os dois vão relembrar da amizade e do que teria provocado a separação – no meio, a mulher de Henrik, Kriztina, já morta.

2. Sobre o jantar

O que lemos não é um simples acerto de contas, ainda que isso ronde toda a conversa. Henrik repassa sua vida, sua história com Konrad, desde a infância até o desaparecimento do amigo durante uma caça. O diálogo se transforma num monólogo, em que mágoas, raiva, incompreensão, ciúmes se revoltam nas memórias que saltam da boca do general.

Konrad ouve e pontua alguma situações, mas é Henrik quem domina a conversa. Estamos diante de um tratado sobre a vida, sobre coisas que passam e que nos dominam mesmo depois de sumir. Impotência diante dos fatos, enfim.

3. Sobre o fim da leitura

Como Marinella d’Alessandro destacou no posfácio, “o homem compreende o o mundo um pouco de cada vez e depois morre”, frase dita por Henrik, o que resume um pouco o fundo da leitura de “As Brasas”. Márai vê o Império Austro-Húngaro cair, enxerga a ameaça do nazismo e trata da vida como uma relação entre dois amigos, que no fim da vida resolvem se acertar.

Sobra a sensação de que Henrik, mais do que falar, quer se vingar. Mas toda a raiva que sente vai se transformando em profunda mágoa, quase em perdão, ainda que o gesto em nenhum momento surja no livro. Há laços que unem as pessoas que são tão fortes mesmo que invisíveis.

4. Sobre o que eu senti

Não sou crítico literário. Faço meus comentários, dou opinião, mas não tenho formação nem capacidade para fazer uma leitura acadêmica. Meus textos se baseiam praticamente na minha experiência como leitor, no acúmulo de aprendizado, na seleção natural que apliquei na minha biblioteca.

Ler Márai pela primeira vez despertou uma sensação de impotência, pois está fora do meu alcance talvez determinar a profundidade de “As Brasas”. Como um Henrik, me vi na obrigação de ceder ao destino, de ceder ao tempo e à vida.

Então, digo: leia “As Brasas”. Acho que você me entendeu.

5. Sobre o autor

Sándor Márai nasceu no que hoje é território da Eslováquia, Kassa, em 1900, na época parte do Império Austro-Húngaro. Por causa do comunismo, morou na Suíça, Itália e França, até se mudar para os Estados Unidos, em 1979. Em 1989, matou-se com um tiro de revólver.

Escreveu “As Brasas” em 1942, livro que só foi liberado na Hungria em 1990.

6. Sobre seu lugar na biblioteca

“As Brasas” foi parar ao lado de “Os Meninos da Rua Paulo” (Cosac Naify), do também húngaro Ferenc Molnár.

*****

“De fatos como estes a gente só se recorda mais tarde. Passam-se décadas inteiras, entramos num quarto escuro onde alguém morreu e de repente ouvimos o murmúrio do mar, escutamos de novo as palavras antigas. Como se aquelas poucas palavras tivessem dado expressão ao significado da vida. Porém, mais tarde havia sempre outras coisas de que falar.”

“No final de tudo, é com os fatos de nossa vida que respondemos às indagações que o mundos nos faz com tanta insistência. E que são estas: Quem você é?… O que queria de verdade?… O que sabia de verdade?… A quem e a quê foi fiel ou infiel?… Com quem ou com quê se mostrou corajoso ou covarde?… São essas as perguntas capitais. E cada um responde como pode, com sinceridade ou mentindo; mas isso não tem importância. O que importa é que no final cada um responde com a própria vida.”

“O que ganhamos com nosso orgulho e nossa presunção? (…) É uma pergunta difícil, eu sei. De minha parte, não sei o que responder. Em minha vida experimentei tudo, vi tudo, a paz e a guerra, coisas miseráveis e grandiosas; vi um covarde com o você e um presunçoso como eu; vi desencadearem-se lutas e restabelecerem-se compromissos. Mas quem sabe se, no fundo, o significado da vida e de todas as nossas ações não tenha sido laço que nos unia a alguém que nos magoou.”

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4 comentários em “O que eu consegui escrever sobre “As Brasas””

  1. É um livro lindo, desses que vão nos acompanhar o resto da vida e daqui a algum tempo vão merecer uma releitura. Se você me permite, acrescento aqui algumas observações que fiz logo após o fim da leitura: “Um longo monólogo sobre a amizade, o amor, as contradições da natureza humana, a fragilidade do corpo e da alma, o peso da História sobre o indivíduo e o efeito apaziguador do tempo. Um romance que nos enleva e ao mesmo tempo incute em nós um sentido amplo de sofrimento. Ao tentar descobrir os motivos que levaram à traição do melhor amigo, a quem reencontra após 41 anos, o velho general percebe o quanto é inútil vingar-se de quem lhe fez mal. O mal está feito e resta apenas prosseguir. Mas prosseguir para onde?”. Digo o mesmo: leia As Brasas.

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