Angola, Comentário, Não ficção

Os diamantes que censuram um jornalista

9789896710859Um livro sobre a exploração de diamantes na Angola transformou seu autor na mais nova vítima do cerceamento ao trabalho de jornalistas. “Diamantes de Sangue” (Tinta da China, sem edição brasileira), do angolano Rafael Marques, foi publicado em 2011, com relatos de dezenas de violações cometidas por militares de seu país e por empresas exploradoras.

Em Portugal, o caso não foi adiante. Mas em Angola o julgamento iria começar na terça-feira (24/3), mas a defesa conseguiu adiar por um mês. Marques é acusado de denúncia caluniosa por conta dos fatos narrados no livro, ocorridos em Lunda Norte, uma província diamantífera. Entre os acusadores, ministro de Estado, sete generais e duas empresas de exploração.

Se condenado, além de multa, pode ir preso – em 1999, já ficara detido por 40 dias sem acusação. A organização Repórteres Sem Fronteira diz que o único crime de Marques foi ter feito “uma investigação e publicado um livro sobre violações de direitos humanos relacionadas com a exploração dos diamantes em Angola”.

Marques investiga a exploração de diamantes desde 1992. Para o jornalista, Angola instalou um “Estado de Terror” nas regiões de garimpo.

Diamantes de Angola | Foto: Goran Tomasevic/Reuters
Diamantes de Angola | Foto: Goran Tomasevic/Reuters

O livro retrata um cenário cruel. Marques classifica “Diamantes de Sangue” como um relatório, um espectro mais amplo em relação a um livro-reportagem. O texto é burocrático, como todo relatório, mas o livro não tem o objetivo de encantar. É parte de uma denúncia, de uma exposição de casos atrozes. Marques consegue, entretanto, impor uma frieza no relato que gela a espinha a cada página virada.

Há casos de assassinatos de mulheres, mutilação, fuzilamento, espancamento, tortura física e psicológica, homicídios, entre outras atrocidades. Junto a tudo isso, soma-se a corrupção que governa o país, envolvendo o Estado, empresas de exploração e de segurança.

Um caso em especial chama a atenção, destacado por Marques no livro: 45 garimpeiros foram enterrados vivos, um massacre que chocou até o governo, que, entretanto, nada fez.

Ao final, Marques elenca os casos de tortura e crime, com uma ficha para cada um: nome, caso, local, fato. São 109 fichas, uma atrás da outra, que lidas em sequência, sem atração literária nenhuma, comovem pela brutalidade, pelo abandono em que vivem as pessoas que trabalham nessa atividade.

Na página da editora, há links para baixar o livro gratuitamente e assinar uma petição da Anistia Internacional, que pede o fim à perseguição ao jornalista.

Curiosidade ou coincidência: a Odebrecht é citada no livro como empresa parceira de exploração de diamantes da Endiama.

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2 thoughts on “Os diamantes que censuram um jornalista”

  1. Olá, Ricardo!
    Nossa, parece ser muito forte mesmo esse livro. Obrigada pelo link e resenha, já fui lá baixar. Tem algo a ver com o filme de mesmo nome, com Leonardo DiCaprio? Confesso que não assisti até hoje por causa dos comentários que ouvi. Já espero sair do filme arrasada. No entanto, sei que é importante que a gente leia, veja e se informe a respeito desses absurdos que acontecem – é muito confortável fechar os olhos.
    Mais uma vez obrigada pela indicação de livro!
    Abraços!

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