Crônica, Escócia, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Policial/Suspense

Literatura policial – Crônica de leitura

1. Um leitor de policiais

Gosto de romances policiais, daqueles bem construídos, com um detetive de personalidade. Gosto também dos romances que não dependem do investigador, mas cujas tramas são bem elaboradas.

Sou um leitor amador de policiais, que já tem seus favoritos – Elmore Leonard, James Ellroy, Andrea Camilleri, Fred Vargas, Lawrence Block, Patricia Highsmith (a da série Ripley) e Dennis Lehane (sem a dupla de detetives).

Vez ou outra, emendo uma série de livros do gênero. Faz bem ao cérebro e ao fígado. Ajuda a desanuviar. Exige concentração de tal forma envolvente que largar o livro muitas vezes se torna impraticável.

Na virada de 2014-2015, comecei uma nova leva de livros policiais, que partiu do recesso e avançou por janeiro. O relato é este – um tanto atrasado. São apenas pequenos comentários, impressões, com alguns adjetivos para ilustrar os livros pelos quais passei nesse período.

ano novo

2. O encanto por Andrea Camilleri

Nunca tinha lido nada do escritor italiano até a virada do ano. Provocado após ler um texto de Cora Rónai sobre Camilleri, uma das maiores entusiastas do autor no Brasil, resolvi conhecer sua obra. Fui ao primeiro livro com o comissário Montalbano, “A Forma da Água” (Record, assim como os outros títulos). E lá encontrei um universo tão particular mas ao mesmo tempo universal que me foi impossível ler só um de Camilleri. Montalbano trabalha em Vigàta, uma comunidade no sul da Itália, a região mais pobre e facilmente dobrada por mafiosos. É avesso à hierarquia e tenta ao máximo enrolar seus superiores. Tem uma relação paternal com seus detetives e uma inclinação para o trabalho que o distancia dos detetives mais próximos da dedução. Mas o seu perfil é o que mais me atraiu a ler em seguida “Caça ao Tesouro” e “O Ano Novo de Montalbano”, este uma reunião de contos.

Montalbano é daqueles italianos que adoram comer e bem. As descrições dos pratos abrem o apetite não importa a hora de leitura. Peixes, pastas, receitas de sua empregada que forçam uma visualização da comida e até do cheiro. É um bon vivant, não perde sua hora do almoço em alguma trattoria, nem que para isso atrase a investigação. Os crimes não são mirabolantes, mas são suficientemente bem engendrados para criar tensão e expectativa. Tudo isso intercalado com a vida pessoal do comissário faz desse um dos favoritos da casa.

3. À espera de um novo Dashiell Hammett

Não sou iniciado em Dashiell Hammett, pelo contrário. Minha leitura do mestre do noir americano se resume a “Falcão Maltês”. Por isso, pensei que “Mulher no Escuro (L&PM), lida no Kobo, pudesse me atrair para mais títulos do escritor. Mas a novela não me convenceu. Publicada originalmente em uma revista, tem até boa cotação entre fãs e críticos. Talvez eu não estivesse preparado para ela.

sinal4. Um novo Sherlock

“Um Estudo em Vermelho” (Zahar) me surpreendeu tanto que fiquei ansioso para ler um novo Holmes. “O Sinal dos Quatro” (Agir), tido como um dos grandes livros de Arthur Conan Doyle, surgiu como um passo natural – até porque este é o segundo romance de Sherlock Holmes. Mas, ao contrário do que aconteceu com Hammett, este me entusiasmou. Não tanto quanto “Estudo em Vermelho”, que tinha mais densidade, mas talvez compará-los não seja uma boa solução. Doyle aprofunda mais o perfil de Holmes, seu envolvimento com cocaína e seus métodos. A premissa é o encontro com a senhorita Morstan, que procura resquícios do seu pai. A edição da Agir é primorosa, com fotos, ilustrações e capas referentes ao universo de Sherlock.

filhos5. O melhor de Dennis Lehane

Não sou fã dos livros que trazem os detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro. Nunca me convenceram. Mas seus títulos que navegam longe da dupla são das melhores coisas que li no gênero: “Sobre Meninos e Lobos” e “Paciente 67” (ambos Companhia das Letras).

Na lista, entra agora “Os Filhos da Noite”, um épico policial que se origina na Lei Seca, passa pela Boston natal de Lehane, desce para a Flórida e aporta em Cuba. A história de Joe Coughlin, filho de um capitão da polícia que passa de um moleque de rua que comete pequenos delitos a chefão do crime organizado é uma delícia que navega pela história dos Estados Unidos. Não, não é um romance histórico, é uma novela policial que avança um pouco no gênero, mas de forma tão eficiente que prendemos os olhos pois impossível largar a próxima página.

Nessa trinca de livros sem os detetives, Lehane entrega seu melhor, na opinião do blog. E este “Os Filhos da Noite” é mais ousado que os anteriores, uma aula de literatura de mistério bem escrita e conduzida.

6. Mais uma de Jack Foley 

“Irresistível Paixão” (Rocco, esgotado) se tornou um dos romances mais famosos de Elmore Leonard por conta da adaptação cinematográfica dirigida por Steve Soderbergh e estrelada por George Clooney e Jennifer Lopez. Seu protagonista, o ladrão de bancos Jack Foley, no livro já era um daqueles personagens irresistíveis (perdoe o trocadilho), que navega pelo crime e que é capaz de seduzir uma agente do FBI como se fossem ações complementares.

Cena de "Irresistível Paixão"
Cena de “Irresistível Paixão”

Leonard não deixou por menos e retomou o personagem em “Os Comparsas” (Rocco). Preso por conta dos adventos do livro anterior, Foley consegue se livrar da cadeia após receber ajuda de um mafioso cubano – que vai cobrar o favor quando deixar a prisão. Nesse ponto, entra em cena a namorada do mafioso, uma vidente com desejos além da companhia amorosa. Foley vai caminhar nessa corda bamba, enquanto Leonard guia o leitor por diálogos rápidos e primorosos.

fredvargas7. A favorita da casa

Sou fã de Fred Vargas. Seus livros misturam arqueologia, mistério em vilas francesas, tradições medievais e casos dos mais exóticos, sem parecer invencionice. Li todos os livros lançados no Brasil – pena que há poucos.

“O Exército Furioso”, seu último livro lançado no Brasil, em 2012, foi percorrido por mim na virada do ano. Suas 400 páginas, vencidas em dois dias de ócio, trazem novamente Adamsberg metido em investigações múltiplas e mistérios que beiram o sobrenatural. Neste, a história é de uma tropa de zumbis que assombram um vilarejo na Normandia, enquanto moradores da cidade aparecem mortos sem explicação.

Os habitantes da cidade buscam entender os fatos numa antiga lenda medieval, mas Adamsberg e sua equipe não levam muita fé nessa solução. Vargas escreve o melhor do gênero hoje, inventiva e com domínio da técnica.

8. Barnes fora de seu habitat

Se Georges Simenon sai do seu habitat mais conhecido – os dos livros do comissão Maigret – para escrever livros mais densos, Julian Barnes faz o caminho inverso. Um dos autores favoritos do blog deixou suas tramas psicológicas para enveredar por um universo mais policialesco. Em “Arthur & George”, um delicioso romance em que história, mistério e investigação se unem, Barnes entrega seu projeto mais divertido.

O ponto de partida é um caso real. Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, já famoso pelo seu personagem, conhece a história de George Edalji, acusado de crimes que alega não ter cometido. Comovido com a situação do advogado, Doyle resolve ajudá-lo.

Cena da série para a TV "Arthur & George"
Cena da série para a TV “Arthur & George”

Essa trama só surge lá pela metade do romance. Antes, o leitor conhece as vidas de Arthur e George. Uma rigorosa pesquisa histórica que beira o romance psicológico, essa primeira parte talvez se aproxime do universo mais conhecido de Barnes. Mas a partir da investigação de Doyle, temos a sensação de mergulhar num livro de Sherlock Holmes. Imperdível.

O livro foi transposto para uma série de três episódios, já exibidos no exterior.

IMG_26609. A chegada de Lawrence Block

Na crônica passada, listei alguns romances policiais já lidos, mas que não repousavam mais nas minhas estantes. Uma leitora do blog, dias antes do Natal, resolveu me fazer uma surpresa. Numa manhã, um rapaz toca o interfone com uma encomenda. Sem saber do que se tratava, desci para assinar o protocolo e me deparo com um embrulho de livraria. Abro e vejo “Cidade Pequena” (Companhia das Letras), de Lawrence Block, um dos livros que lamentava não ter mais na coleção.

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3 thoughts on “Literatura policial – Crônica de leitura”

  1. Excelente! Gosto muito do Camilleri & Montalbano, mas não curto a série da RAI com Luca Zingaretti pois eu imaginava um Montalbano diferente. As comidas são maravilhosas mesmo!!

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