Crônica

Notas de um leitor

1

Nas Notas anteriores, escrevi que muito tempo atrás havia me desfeito dos livros de Rick Moody, dos três – “Estado Jardim”, “Tempestade de Gelo” e “América Púrpura”. Arrependido, disse que tive recomprá-los em sebo, pois já fora de catálogo. E que não conseguia lembrar o porque de ter me libertado deles.

Agora eu sei. Porque eles são ruins. Fui reler os livros e me decepcionei. Não lembrava que eles eram fracos, enfadonhos. O que só engrandece o roteiro que James Schamus escreveu para “Tempestade de Gelo”, filmado por Ang Lee.

Então, os livros voltarão aos sebos.

2

A organização das livrarias é algo a se observar. Às vezes, me pego rindo diante de uma prateleira, ao ver um autor ou um livro completamente perdido, fora de ordem. Não digo daquela fora de ordem típica de um consumidor que retira um livro e devolve de qualquer jeito.

Não, está fora de ordem porque acharam que era para estar naquele lugar. Confundem autor brasileiro com gringo. Acreditam que o título do livro define um gênero.

Fotografei alguns casos. Como é praxe nas redes sociais, as imagens são do gênero #nofilter.

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O título do livro de Roberto Schwarz é inspirador
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Quem será o autor de “Contos em Trânsito”?
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Ricardo Lísias entre Vargas Llosa e Primo Levi
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A brasileira Luisa Geisler ao lado da americana Tess
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Bernardo Kucinski tem sobrenome gringo, e o livreiro comprou a ideia

3

Para ficar no caso de estantes e biblioteca pessoal, pensei recentemente o que me leva a guardar um livro. Seinfeld ironiza a mania de as pessoas ficarem com os livros mesmo depois de lidos. Por que eu mantenho os livros comigo? Não sei quantos livros tenho hoje, nem imagino quantos eu teria se não tivesse desfeito de dezenas (centenas?) deles ao longo dos anos.

Não vou conseguir dizer os motivos que me levaram a me desfazer de livros nos anos passados. Raiva, desapego, necessidade, desilusão, falta de espaço, frustração, vontade. Tudo isso misturado. Minha biblioteca até uns anos atrás era um ser dinâmico, em constante revisão.

Hoje, talvez eu tenha conseguido chegar a um denominador comum. Ficam os que gosto e que merecem uma segunda chance. Basta um requisito. Claro, clássicos são intocáveis.

Espaço sempre foi problema. As várias mudanças que enfrentei num curto espaço de tempo me obrigaram a me desfazer de muitas coisas. Não lamento. Os que devem estar comigo cá estão.

4

Para fechar essa questão, o livro digital resolve o problema. Tenho um Kobo, e os livros digitais não precisam abrir espaço para novos. Nem os que não gostei precisam ir embora.

Compro mais livro físico do que digital. Mas a tecnologia facilita e muito o trato com o arrependimento.

5

“Eu adoro sentir o cheiro do livro.”

Desconfio de 100% das pessoas que dizem isso para justificar o fato de que leem no papel e não numa tela. Sim, livro impresso é tátil, é inerente ao objeto, dar essa justificativa é querer acreditar em algo que além da realidade.

No fim, livro físico também é fetiche. Olhar estantes cheias e coloridas enche os olhos de orgulho. Um leitor digital esconde o tamanho da brincadeira, e seu dono é o único que pode usufruir de passear pelas prateleiras.

6

Publiquei essa história no perfil pessoal do Facebook, mas coloco aqui pois tem a ver com o capítulo anterior.

Duas mulheres, na faixa dos 30, entram na livraria:
“Gosto de comprar livros”
“Sabe que eu gosto mais de comprar do que de ler?”
“Jura? Eu também. Me dá preguiça de ler”

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2 thoughts on “Notas de um leitor”

  1. Ao contrário do seu caso, consegui manter ao longo dos anos minha biblioteca e acrescentar a ela muitas novas aquisições. Hoje ela está no limite e tenho me desfeito do que não vale muito a pena, mas não gosto de me desfazer de livros, embora tenha ganhado muita coisa nos tempos do jornal que não valia a pena manter e foi embora. Muitos outros ainda vão, faz parte. Gosto do prazer da estante cheia e de pegar eventualmente um livro e folhear ou mesmo descobri-lo, depois de anos guardado. Adoro minha biblioteca, embora saiba que muitos livros ali nunca vou ler e reler. Gosto de ler apenas livros físicos, os virtuais esqueço que baixei e as telas me cansam os olhos. Talvez seja ficando velho.

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    1. Também gosto de minha biblioteca. Alguns livros mandei embora no ímpeto e me arrependo – tanto que tive que recomprá-los. Mas a maior parte não era para ficar mesmo. Só ficariam se houvesse espaço físico. Quanto ao livro eletrônico, ler no iPad me incomoda, mas no Kobo não tenho problema. A leitura é bem confortável.

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