Colômbia, Comentário, Ficção

A música que levou María del Carmen por Cali

42863299Fui entusiasmado para a leitura de “Viva a Música!” (Rádio Londres), do colombiano Andrés Caicedo (1951-1977). A reportagem que me levou ao livro foi publicada na “Folha” – e no texto estão todos os motivos responsáveis. Não conhecia Caicedo, falha que deveria corrigir urgentemente.

Mas o entusiamo sofreu um baque, pois o livro chegou após eu ter iniciado a leitura de “Stoner”, da mesma editora. O problema relatei no post “Stoner”, da Rádio Londres, precisa de um recall urgente. O motivo? Dezenas de erros de revisão, conforme escrevi.

Encarei “Viva a Música!” com um pé atrás. Li as primeiras páginas com uma certa expectativa, à espera daquelas vírgulas aleatórias que quase me fizeram largar o livro anterior. Bem, os erros persistem, mas são em número menor. Não atrapalham o fluxo da leitura, apenas deixam o leitor levemente irritado.

Mas já era um avanço e tanto poder ler três, quatro páginas sem se deparar com um erro grosseiro.

Então, passado esse problema, restou o livro. Que é tudo o que falam. Leitura obrigatória na Colômbia, o segundo livro mais importante do século 20 para seus conterrâneos, atrás apenas de “Cem Anos de Solidão”, elogiado por escritores e que só não alcançou o patamar de um Roberto Bolaño porque este é seu único romance – o restante da obra se divide entre contos, ensaios e cartas.

É o oposto do realismo mágico, que em 1977, ano da publicação do livro de Caicedo, já estava no seu auge. Literatura urbana, sem devaneios e tão real quanto uma história de uma adolescente da época poderia ser.

“Viva a Música!” trata da peregrinação de María del Carmen Huerta pelas ruas de Cáli, uma espécie de festa sem fim na qual a adolescente se mete como se procurasse uma porta para um lugar que nem ela sabe qual é. Rolling Stones, salsa, Karl Marx, um certo desencontro entre as classes sociais – ela, vinda de uma família bem de vida, convive com gente dos mais diversos universos – conduzem a narrativa. Essa diferença social foi o estopim para María sair como a personagem de “A Culpa de Cada Um”, filme de David Greene, citado erroneamente no livro como “Viagem ao Delírio”, como bem notou um leitor do blog no post sobre “Stoner” – o título original é “The People Next Door”, que trata de uma garota do subúrbio nova-iorquino que se envolve com drogas.

Sim, há delírios, refletidos na digressão constante de María. Há drogas, bebida, vislumbre com a morte, uma certa carência que se transferem para o ritmo do livro. Como um crescendo, o texto acelera ao mesmo tempo em que a garota se depara com mais conflitos e dúvidas.

Apesar de ser uma adolescente, de lermos uma adolescente, a sua energia impõe uma visão crua e melancólica da vida. Impossível ficar distante, e, assim como a narradora é verborrágica, a leitura se torna compulsiva.

A edição, apesar dos problemas, tem lá seus méritos. Ao final, estão listadas uma discografia de tudo o que é citado no livro e as referências musicais. Talvez falte um posfácio, útil para introduzir o autor e sua obra. De qualquer forma, Caicedo, idolatrado na América Latina, encontra uma brecha para entrar no Brasil. Pena que o resultado fique aquém do que imaginamos ser o conteúdo original.

*****

“Alguns, os mais inquietos, reprovavam aos passantes sua falta de talento para apreciar a noite, para bebê-la, como se dizia, o que significava então que eram velhos, e outros, embora inteligentes, não arredavam pé da certeza de que fosse a hora de avaliar aquela época, eles, os drogados, seriem as testemunhas, os que teriam direito à palavra, não os outros, os que pensavam igual e que da vida não sabiam nada, para não falar do intelectual que se permitia noites de álcool e cocaína até enrolar a língua, vomitar e ficar verde, como se tratasse de uma licença poética, a sílaba não gramatical necessária para polir um verso. Não, nós éramos impossíveis de ignorar, a última onda, a mais intensa, a que assume o fardo encarando a noite.”

“Eu estou diante de uma coisa e penso em milhares. A música é a solução para aquilo que eu não enfrento, por estar perdendo tempo olhando a coisa: um livro (nos quais já não consigo avançar duas páginas), a curva de uma saia, de uma grande de ferro. A música é também, recuperado, o tempo que eu perco.”

“Além disso, eu sentia uma depressão sempre maior toda vez que saía do cinema para encarar o sol, e aí ficava xingando de olhos fechados porque o filme havia terminado. Não, eu gosto é das coisas que me prendem com grilhões a essa dura realidade, não das que me tiram daqui pra me enfiar em outro buraco.”

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